CAPÍTULO 04

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O baile dos Williams estava prestes a dar início àquela que seria mais uma temporada de dança e futilidade para a sociedade londrina. A tão aguardada sexta-feira, marcada por encontros e despedidas, era motivo de ansiedade para muitas moças, exceto para Amelia. Sua mãe, como de costume, a acordou cedo, ansiosa para prepará-la para o evento, pois acreditava firmemente que, desta vez, as coisas poderiam ser diferentes. Contudo, Amelia já ouvira esse discurso outras vezes, e nada, até agora, havia mudado. Ela permanecia, como sempre, na sombra das outras jovens, invisível nas festas da alta sociedade.

Após o café da manhã, Amelia dirigiu-se à biblioteca, um lugar que se tornara seu refúgio. Lá, ela adorava folhear os livros que seu pai considerava exclusivamente para homens. Era um prazer peculiar para ela desafiar as normas familiares, especialmente aquelas regras antiquadas que lhe proibiam de buscar conhecimento fora das convenções sociais. Foi ali, nas páginas do livro de Economia que encontrara há quatro meses, que Amelia descobriu como investir sabiamente o dinheiro, fazer com que ele trabalhasse para ela e negociar com arrendatários com precisão. Não era algo que se ensinava em uma escola para moças, mas Amelia sempre foi uma autodidata, e seu amor pela aprendizagem só crescia.

O sol já se punha quando ela percebeu que o tempo passara rápido demais. Guardou o livro com pressa e subiu as escadas até o seu quarto. Poppy, a governanta da casa, a aguardava para ajudá-la a vestir-se para mais um evento, mais uma tentativa inútil de fazer parte da sociedade com aparência aceitável. O vestido que escolhera era de um tom laranja pastel, com um cinto um pouco abaixo do busto, criando um laço nas costas. O tecido descia em suaves ondas até o chão, adornado com pequenas flores de tecido ao longo da barra. Embora o modelo fosse, sem dúvida, bonito, Amelia não pôde deixar de sentir-se como uma laranja ambulante, pois o tom do vestido era praticamente idêntico ao de seus cabelos, criando uma mistura monótona no espelho.

Poppy, como sempre, fizera um belo trabalho no cabelo, prendendo os poucos fios que Amelia possuía em um coque alto, com alguns fios soltos que a governanta habilidosamente enrolara. O penteado, ao contrário do vestido, agradou à jovem, mas o desconforto de estar em mais um baile de temporada não se dissipou. Quando Amelia desceu as escadas, sentiu o peso do evento que a aguardava. Ela e seus pais entraram na carruagem em silêncio, e durante toda a viagem, o vazio do ambiente só foi interrompido pelos leves estalidos das rodas sobre o calçamento.

Ao chegar no salão, Amelia se dirigiu à mesa das damas de companhia, localizada o mais longe possível dos olhares curiosos, pois, já em sua quarta temporada, a jovem era vista mais como uma convidada que estava ali para fazer número do que uma participante ativa. Após alguns minutos, ela retirou-se discretamente para o banheiro, onde, com o coração apertado pela ansiedade, tirou o livro que havia escondido em sua ceroula. Ajustando o vestido, ela retornou ao seu lugar e logo se acomodou para retomar a leitura, buscando no romance gótico uma fuga da realidade.

Foi então que, como se o destino quisesse brincar com sua paciência, uma voz familiar interrompeu seu momento de tranquilidade.

Noah Harrison estava novamente no meio do caos social que ele tanto desprezava. Em menos de meia hora, já havia sido abordado por pelo menos dez matronas que lhe lançaram suas filhas, ansiosas pela chance de casar suas herdeiras com um dos solteiros mais cobiçados de Londres. Embora fosse um cavalheiro educado, Noah não podia deixar de ficar cada vez mais exasperado com a insistência das mães. Tentando escapar da perseguição das jovens, ele caminhou pelo salão e logo avistou, no canto mais afastado, uma figura familiar. Era Amelia Campbell. Ela estava sozinha, com um livro em mãos, alheia ao mundo ao seu redor. Sem hesitar, ele começou a se aproximar dela, mas foi interrompido por sua irmã Clarissa, que o puxou para dançar.

– Para onde você estava indo com tanta pressa, irmão? – perguntou Clarissa, com uma expressão curiosa.

– Apenas vi uma amiga e estava indo cumprimentá-la, pirralha – respondeu Noah com um sorriso, seus olhos brilhando. – E então, como se sente em seu primeiro baile?

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora