29 de Março de 1812
Querido Noah,
Como futuro Duque de Wiltshire, tens o direito e o dever de saber o que te aguarda com este grande título. Venho, por meio desta carta, informar-te que nossas economias e toda a nossa fortuna foram dissipadas, e tudo isso devido ao arrogante e tolo de teu pai, que aqui te escreve. Já faz bastante tempo desde que nos falamos, e nesse período consegui perder toda nossa riqueza, quase perdendo o título também, que, com grande esforço, ainda consigo manter. Tudo isso, perdido em jogos e mulheres. Chega a ser uma vergonha para mim admitir tal falha, mas preciso ser sincero contigo, meu filho.
É doloroso para mim admitir que tu tinhas razão, e que o que fizeste, ainda tão jovem, foi o correto. Perdoe-me, verdadeiramente, por deixar-te em tal situação, mas o fato é que tu serás o próximo a herdar o título, e, como tal, deves fazer o impossível para que ele permaneça em nossa família. Se esta carta chegou até ti, tenho certeza de que minha vida deve ter chegado ao fim. Como o maravilhoso pai que fui, deixarei você à beira da ruína, e espero que consigas sair dessa situação de cabeça erguida. Tenho certeza de que o farás... me perdoe...!!
Com pesar, Teu querido pai,
Vicent Oliver Charles Harrison
25 de Abril de 1812
Jamais imaginei que voltaria a este lugar depois de tantos anos. Ainda estava atordoado com a carta que recebera no dia anterior, e não conseguia acreditar na sua veracidade. Certamente, deveria ser alguma artimanha de minha mãe para tentar reaproximar-me de meu pai, ou assim pensei, pois não havia outra explicação para tal mensagem. Contudo, à medida que o caminho para Wilton House se desenrolava diante de mim, comecei a questionar minhas próprias suposições. Talvez fosse real, talvez não fosse.
O som das rodas da carruagem, sendo lentamente empurradas pela estrada, parecia embalar meus pensamentos. Estava em completo desespero, sem saber como poderia lidar com as dívidas que meu pai acumulara e como encontraria meios para pagar tudo o que ele deixara para trás. Com esses pensamentos turbulentos, mal percebi que atravessávamos as duas colunas de mármore em forma de escada, com água a descer de cada degrau, que conduziam à visão majestosa da Wilton House — a casa onde eu passara apenas doze anos de minha vida.
Pedi ao cocheiro para ir mais devagar, pois não tinha pressa de chegar a esse lugar, e se fosse possível, preferiria dar meia volta e fugir para bem longe dali. No entanto, sabia que não havia escapatória. Ao descer da carruagem, avistei minha mãe à entrada da casa, com os olhos marejados, aguardando-me.
— Que saudades de você, meu Noah! — exclamou minha mãe, Sarah, abrindo os braços para me abraçar.
Sentia falta dela também e, em muitos momentos de minha vida, ela fora um apoio imprescindível. Contudo, retornar àquela casa e encarar a situação desagradável que me esperava parecia insuportável. Mesmo assim, correspondi ao abraço caloroso, aquele abraço que tanto me fez falta durante todos esses anos. Fiquei apertado contra ela por longos e preciosos dez minutos, até que, finalmente, me afastei suavemente e perguntei:
— Mãe, aquela carta que recebi... é mesmo real? Meu pai... ele faleceu?
Ela assentiu, com tristeza nos olhos.
— Sim, Noah, é real. Seu pai, como último pedido, pediu que te entregássemos a carta assim que ele falecesse. Eu a entreguei no dia 20, quando ele foi consumido pela doença e veio a falecer. Não faço a mínima ideia do que ele escreveu a você.
— Não era nada demais, mãe. Apenas me informou que sou o Duque de Wiltshire agora e que tenho grandes responsabilidades, as quais pretendo cumprir da melhor forma possível. E... onde está Clarissa? Já faz anos que quero conhecê-la.
Minha mãe sorriu e respondeu:
— Ah, se tivesse voltado antes, já teria tido a chance de vê-la, meu filho. Ninguém o impediria disso. Mas ela logo descerá. Vamos entrar e esperar por ela na sala. Sabe, depois que seu pai faleceu, andei reformando a casa. Pode ser que esteja bem diferente do que você lembra.
E realmente estava. O hall de entrada estava mais simples, mas não perdeu sua elegância. Tudo estava pintado de branco, com o teto abobadado e decorado com bustos de estátuas e quadros representando cenas campestres. O lustre, embora pequeno e singelo, não deixou de ser encantador, e, em ambos os lados do salão, abriam-se escadas imponentes. À esquerda, além dos bustos e quadros, havia uma pequena mesa de madeira, acompanhada de uma cadeira, ambas posicionadas entre dois bustos. Um quadro de um rio e uma árvore adornava a parede ao lado.
Por ali seguimos, subimos dois lances de escada e seguimos por um longo corredor, pintado de amarelo, também decorado com bustos e quadros. Depois de quatro portas à esquerda, entramos na quinta, que dava para uma sala de recepção familiar. Eu já havia estado ali antes, e ao sentar-me no sofá, com minha mãe ao meu lado, aguardamos a entrada de Clarissa.
Quando a vi, fiquei deslumbrado com a beleza de minha irmã. Ela herdara a graciosidade de nossa mãe, e deveria ter aproximadamente 1,65m de altura, com olhos de um azul tão claro que pareciam verdes. Seu cabelo castanho escuro caía até a metade das costas, e pela sua idade, percebi que ela devia ter uns 17 anos, o que significava que ela estava prestes a estrear na sociedade londrina e iniciar sua primeira temporada. Para mim, isso só agravava as finanças que já estavam em frangalhos.
Levantei-me do sofá, apressado, e fui até ela, abraçando-a com força.
— Como foi doloroso saber da sua existência e não poder vê-la durante todos esses anos!
— Sinto o mesmo, irmão! Mamãe sempre falou de você com tanto carinho, e até me mostrou um quadro seu quando você tinha apenas 10 anos. Estou tão feliz em finalmente ver você pessoalmente, de volta à nossa casa!
— Sempre perguntei por ti, mãe sempre falava tão bem de você, e fiquei aliviado em saber que papai te tratou com tanto carinho — falei, a voz embargada pela emoção, sentindo as lágrimas começarem a cair por minha saudade de minha família.
— Mamãe me disse que você está prestes a estrear na sociedade londrina agora em sua primeira temporada. Como estão os preparativos?
Clarissa fez uma careta, como se estivesse entediada.
— Uma verdadeira chatice! Esses bailes de temporada só servem para meninas como eu casarem com homens ricos e de títulos, e para moços se casarem com mulheres de bons dotes. Não existe amor, é tudo por interesse material!
De repente, uma ideia surgira em minha mente, uma ideia que poderia mudar completamente o rumo da minha vida. Eu teria que acompanhar minha irmã aos bailes e, pela primeira vez, procurar uma mulher com um dote substancial, alguém que pudesse resolver todas as dívidas que meu pai deixara para trás. As coisas, sem dúvida, estavam se complicando.
— Que irmã mais sábia que tenho, não é? Olha, para não continuar nessa chatice toda, vou contigo aos bailes. Que tal?
Ela sorriu, animada.
— Seria maravilhoso, pelo menos assim terei alguém para me livrar dos caçadores de dotes!
— Então, está combinado. Faça suas malas, pois partiremos para Londres amanhã bem cedo. A temporada começa em junho, certo? Até lá, você terá tempo para conhecer melhor a cidade e se preparar — disse eu, sorrindo para ela, sem que ela soubesse que eu estava indo para lá para me tornar um dos caçadores de dotes.
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Distinta Faísca
RomantizmNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
