EPÍLOGO

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Wilton House, propriedade do Duque de Wiltshire
Salisbury, Inglaterra – Primavera de 1823

O clima, geralmente inconstante e envolto em brumas características da região de Wiltshire, amanheceu curiosamente diferente naquele dia. O sol, raramente tão audacioso, rasgava as nuvens matinais com um brilho caloroso e firme, tingindo o céu de um azul cristalino. Os jardins da propriedade exalavam o perfume fresco das flores recém-desabrochadas, como se a própria natureza houvesse decidido celebrar.

Noah, o duque de Wiltshire, encontrava-se recolhido em seu escritório, cercado de silêncio e papéis. Apesar da justificativa que ofereceria a qualquer um que o interrompesse – "assuntos administrativos do ducado", como era de praxe –, a verdade era outra. Sentado à escrivaninha em ébano escuro, o duque concentrava-se em esboçar, com traços decididos e delicados, a figura que ocupava todos os seus pensamentos: Amelia. A musa constante de sua existência.

Dedicava-se a contornar com reverência artística as curvas da esposa, cada linha mais ousada do que a anterior, quando sentiu um leve e insistente cutucar em sua perna. Estacou imediatamente o carvão, quase derrubando o tinteiro.

— Pai... o que estais a fazer? — perguntou uma voz suave, mas curiosa, que pertencia ao pequeno Jacob, seu primogênito.

Noah teve um sobressalto tão brusco que quase rasgou o papel. Com um gesto atrapalhado, puxou um maço de documentos sobre o desenho, tentando disfarçar a vermelhidão que lhe subia pelas orelhas.

— Ora... apenas revisando os lucros e perdas do ducado, meu rapaz. — tentou soar natural, embora o rubor em suas faces o denunciasse por completo.

Jacob, sem perceber o constrangimento do pai, balançou os pequenos braços com entusiasmo.

— Perdoai a interrupção, mas como hoje o sol resolveu aparecer — o que, sabemos, é quase um milagre — pensei se poderíamos cavalgar um pouco pela propriedade?

Noah sorriu. Como poderia negar tal pedido, ainda mais vindo de seu herdeiro, com olhos faiscantes de alegria?

— Mas é claro que sim, meu jovem cavalheiro! Onde estão tua mãe e tua irmã? Devemos avisá-las antes de partirmos.

Jacob fez um gesto teatral com as mãos.

— Mamãe disse que tomaria a refeição lá fora, sob a grande árvore, com Elena. Deu-me a missão especial de vir chamá-lo para unir-se a nós. Mas pensei que talvez pudéssemos cavalgar primeiro, e depois encontrá-las por lá!

O duque ergueu o menino nos braços com uma risada calorosa.

— Excelente ideia, comandante Jacob! Vamos aos estábulos então. O dia nos aguarda!

Já haviam percorrido vastos campos da propriedade, atravessando trilhas ladeadas por lírios púrpura e gramíneas balançantes ao vento, quando, ao subirem uma leve colina, avistaram à distância a grandiosa árvore de copas espessas, onde Amelia instalara um elegante piquenique. Os tecidos bordados e cestos bem arranjados compunham uma cena digna de uma pintura.

Jacob, ao identificar uma figura familiar, praticamente saltou do cavalo antes que este parasse completamente e correu ao encontro da tia.

— Mamãe! Por que não me disseste que tia Clarissa viria?! — exclamou, ofegante. — Ela prometeu terminar de me ensinar a jogar cartas!

Elena, sua irmã mais nova e igualmente espirituosa, não perdeu tempo em responder com seu habitual sarcasmo infantil:

— Como se com esse cérebro de batata fosses capaz de aprender algo, irmão boboca!

— E ao menos meu cabelo não está infestado de insetos como o teu, pirralha mimada! — retrucou Jacob, inflando o peito com orgulho.

Amelia observava a cena com expressão serena e um sorriso de exaustão maternal, aquela que nasce da constante vigília, mas também da ternura infinita por tais criaturas tão suas.

— Meus anjos de tia! — interveio Clarissa, batendo palmas. — Já basta de provocações. Venham logo jogar e deixem a guerra civil para outra ocasião.

— E você, idiota — disse virando-se para o irmão —, aproveite o raro tempo livre que estou te concedendo!

— Idiota é o teu marido, pirralha — respondeu Noah de pronto, com um sorriso zombeteiro. — A propósito, onde está o tolo?

— É deselegante insultar um homem quando ele não está presente, Vossa Graça — disse Sebastian, surgindo às costas do duque com ar de fingida ofensa.

— Ah, mas eu sabia que não estarias longe. Cães leais sempre seguem seus donos — retrucou Noah com desdém teatral.

— Pensava que estávamos entre homens, não meninos de internato — comentou Amelia, exasperada, mas sem conter o riso. — Por favor, poderíamos comer antes que as crianças devorem tudo?

— Naturalmente, minha querida — disse Noah, caminhando até ela com uma expressão maliciosa. — Mas antes... gostaria de mostrar-lhe um desenho que fiz esta manhã. Me acompanharias?

Antes que Amelia pudesse recusar ou perguntar mais, Noah a tomou com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo, colocando-a sobre a sela diante de si em seu imponente cavalo negro.

— Não demorem! — gritou Sebastian atrás deles, mas sua voz já se perdia com o galope firme.

Chegaram à mansão em poucos minutos. Noah a carregou nos braços como se ela fosse feita de brisa e pétalas, e adentrou com ela no escritório. Depositando-a suavemente no chão, caminhou até a escrivaninha e retirou o papel que antes tentara esconder.

Entregou-o a Amelia com certa hesitação, coçando a nuca.

— Ainda não está terminado... preciso ajustar alguns detalhes... não sou um artista, sabes... — começou a balbuciar, nervoso, mas as palavras morreram em seus lábios.

Amelia contemplou o desenho com olhos arregalados e, sem dizer uma única palavra, lançou-se contra ele. Beijou-o com uma paixão súbita e arrebatadora, como se não houvesse mais tempo, mais mundo, nem mais razão além daquele momento. Noah retribuiu com igual intensidade, os corpos se entrelaçando como os traços daquele esboço inacabado.

— Amo-te, meu duque. — sussurrou ela, entre os beijos.

Aquelas palavras, sempre que ditas, inundavam o peito de Noah com uma torrente de emoções. Como de costume, foi ali, no chão de seu escritório, que ele amou sua esposa mais uma vez — com toda a devoção de um homem que sabia o quanto era abençoado por tê-la como sua.     

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora