CAPÍTULO 12

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Minha querida Amelia,

Tenho que me encontrar com alguns arrendatários para resolver questões da lavoura. Após isso, passarei brevemente pela vila e observarei as reparos necessários. Espero que se divirta aprendendo seus novos afazeres como Duquesa. Confio plenamente em ti e no seu potencial. Espero estar em casa para o almoço, mas, até lá, terei que suportar a saudade do doce de seus lábios.

De seu maravilhoso marido, Noah.

Lendo aquele bilhete, Amelia revirou os olhos, suspirando entre a exasperação e a diversão. O quão convencido aquele homem podia ser? E, pior, ele fazia questão de provocá-la. Havia lhe dito inúmeras vezes que não gostava de ser chamada de "minha querida", mas ele insistia, talvez apenas para ver sua reação irritada. Noah gostava de provocá-la e ela, no fundo, começava a se perguntar se também não gostava um pouco disso.

Rindo sozinha, atravessou a porta de ligação para seu quarto e sentou-se na borda da cama, pensativa. No entanto, foi surpreendida por uma figura que aguardava respeitosamente perto da penteadeira. Uma senhora de postura impecável e olhos bondosos inclinou levemente a cabeça em uma reverência discreta.

— Desculpe, Vossa Graça! Não tive a intenção de assustá-la — disse a serviçal com humildade.

Amelia piscou, ligeiramente constrangida.

— Oh, não foi nada! Mas, por favor, me chame apenas de Mel ou Amelia, como preferir.

A mulher ergueu os olhos, visivelmente surpresa.

— Mas, senhora, são as regras... — hesitou, como se temesse estar cometendo uma afronta.

Um sorriso afetuoso brotou nos lábios de Amelia.

— Não ligo para essas regras bobas que colocam pessoas acima de outras! Nenhuma pessoa merece ser menosprezada ou rebaixada por outra. Me chame apenas de Mel. Agora, diga-me, qual o seu nome?

A serviçal relaxou, um pequeno sorriso surgindo em sua face.

— Me chamo Imogen Green! Trabalho para o Duque desde que ele era um menino. Fui sua governanta por um tempo. Agora, fui encarregada de administrar a casa e ser sua ajudante. Estarei aqui para o que precisar, Vossa Graça! Ops... Amelia!

— O prazer é todo meu! Vejo que terei que me apegar a você para aprender meus deveres como Duquesa. Espero que nos tornemos grandes amigas, Imogen.

O brilho de ternura nos olhos da mulher experiente não passou despercebido. Havia afeto e lealdade ali, e Amelia soube que poderia confiar nela.

O tour pelo casarão — que mais parecia um palácio — revelou-se informativo e, ao mesmo tempo, exaustivo. Amelia se esforçava para absorver cada detalhe de sua nova função, mas nada a encantou tanto quanto a biblioteca. Quando Imogen abriu as portas do cômodo majestoso, ela ficou sem ar.

As paredes eram cobertas por prateleiras altíssimas, repletas de livros que exalavam um cheiro delicioso de papel envelhecido. Uma escada deslizava de um lado para o outro, permitindo acesso aos volumes mais altos. O sol entrava pelas janelas enormes, banhando o espaço com uma luz dourada e acolhedora. Era um santuário.

Sem conter a emoção, Amelia abraçou Imogen.

— O Sr. Harrison me contou sobre sua paixão por livros e me pediu que deixasse este cômodo para o final — revelou Imogen, satisfeita. — Mas não esperava que amasse tanto a leitura assim.

Os olhos de Amelia se umedeceram.

— Os livros foram meus botes salva-vidas durante grande parte da minha vida, Imogen! Tudo o que sei é graças a eles. Quando não tinha amigos devido ao meu peso, encontrei nos livros companhias sinceras e válvulas de escape da realidade.

O passado cruel voltou como um golpe. As humilhações da sociedade londrina, os sussurros, os risos abafados. Como poderia se sentir digna ao lado de um homem como Noah? Como poderia suportar os olhares avaliadores das damas da aristocracia?

Imogen, comovida, tocou seu rosto com delicadeza e secou suas lágrimas. Sem dizer mais nada, envolveu-a em um abraço apertado e se afastou, deixando-a sozinha naquele refúgio de papel e tinta.

Sozinha, Amelia buscou consolo nos livros. Seus dedos percorreram as lombadas até que um título chamou sua atenção: Romeu e Julieta, de Shakespeare. Pegou o volume, abriu-o e saiu da biblioteca, tão absorta na leitura que não percebeu para onde ia até colidir contra algo — ou melhor, alguém.

— Você não viu que eu estava lendo? Por que não desviou? — protestou, irritada.

Ao erguer os olhos, encontrou-se com Noah. O brilho travesso nos olhos dele e o sorriso malicioso indicavam que ele estava se divertindo com seu mau humor.

— Desculpe, minha querida esposa. Apenas queria lhe fazer uma surpresa. — Seu tom era levemente zombeteiro. — E você novamente com a cara enfiada nos livros? Alguma novidade?

Amelia enrubesceu.

— Dessa vez, você me pegou, meu querido marido! - disse enfatizando a palavra "querido" em tom sarcástico! — Me desculpe e obrigada por pedir para Imogen guardar o melhor lugar para o final.

Os olhos de Noah brilharam de diversão.

— O quê? Sério? Minha esposa reconhecendo um erro e me agradecendo? Isso em uma única vez? Vou guardar esse momento para sempre!

Amelia bufou.

— Vai se catar, seu idiota!

Tentou passar por ele rapidamente, mas não teve sucesso. Noah a puxou pelo braço e a prensou contra a parede. Aproximou-se de seu ouvido e sussurrou com voz rouca:

— Não ganho nem um beijo por chegar em casa?

O calor da respiração contra sua pele a fez tremer. Seus olhos se encontraram, e algo dentro dela se dissolveu. Sem conseguir resistir, puxou-o pela nuca e selou seus lábios aos dele. O beijo foi ávido, faminto. Quando sentiu que estava se entregando demais, recuou, pegou o livro do chão e fugiu para os jardins para acalmar os nervos.

Poucos minutos depois, Noah apareceu novamente, sua presença imponente preenchendo o espaço.

— Vem, Amelia. É hora do almoço.

Ela aceitou o convite e seguiram juntos para a sala de refeições, lado a lado, como o casal que estavam aprendendo a ser.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora