Qual era o motivo de Amelia ter entrado na adega? Quem havia lhe contado onde Noah estava? Essas e outras perguntas sondavam a mente de Noah enquanto ele segurava sua esposa desacordada nos braços. O impacto fora forte, e o peso da culpa o atingia em igual medida. Ele estava prestes a acertar o rosto de Jack com um soco bem direcionado quando, de repente, Amelia surgira do nada, colocando-se entre os dois e levando o golpe destinado ao amigo. Sem hesitar, Noah a segurou antes que ela caísse ao chão.
— Ih, cara! — Jack exclamou, levando as mãos à cabeça ao ver o estrago. — A pancada foi feia. Acho que ela vai demorar para acordar. Quem é essa moça, Noah?
Noah fechou os olhos, contendo a frustração, antes de responder:
— Minha esposa, seu idiota! — rosnou, ajustando Amelia em seus braços. — Agora, me ajude! Vá chamar Imogen e peça que prepare um pano com água morna e ervas medicinais. Isso ajudará a diminuir o hematoma no olho direito dela. Eu a levarei para meu quarto.
Jack assentiu e saiu apressado, enquanto Noah, com esforço mínimo, ergueu Amelia e começou a carregá-la escada acima. Nunca antes a segurara daquela maneira. Apesar de Amelia insistir que estava acima do peso, ele não teve qualquer dificuldade em carregá-la. Pelo contrário, sentiu uma estranha sensação de estar com o bem mais precioso de sua vida nos braços. Conforme subia os degraus da casa, percebeu que ela se aconchegava instintivamente contra seu peito, o calor de seu corpo passando-lhe uma sensação inesperada de conforto e pertencimento. Não pôde deixar de notar como sua esposa era bela, mesmo naquele estado de inconsciência.
Com toda a delicadeza que julgava não possuir, Noah adentrou o quarto e a deitou com cuidado sobre a cama. Minutos depois, Imogen surgiu com o que ele havia solicitado.
— Obrigado, Imogen. Pode deixar que cuidarei dela. Avisarei se precisar de algo.
— Estarei à disposição, Vossa Graça — respondeu a governanta, fazendo uma leve reverência antes de sair.
Amelia despertou lentamente, piscando algumas vezes para ajustar a visão. Não reconhecia o ambiente. Sentou-se apressadamente, sentindo um desespero crescente. A última coisa que se lembrava era de estar procurando Noah. Seu coração acelerou. Precisava encontrá-lo, mostrar-lhe a carta! Levantou-se num ímpeto, sem sequer notar o estado de seu corpo, mas uma dor lancinante no olho direito a fez perder o equilíbrio. Antes que pudesse atingir o chão, braços fortes a envolveram, impedindo sua queda. Logo depois, sentiu-se ser erguida novamente.
— Eu me ausento por dois minutos e, ao voltar, encontro essa cena — a voz carregada de ironia e familiaridade a fez erguer os olhos, conhecia aquela voz. A reconheceria mesmo que estivesse com uma multidão por perto.
— Noah? — murmurou, piscando repetidamente.
Ele sorriu de lado.
— Até onde sei, esse é o meu nome. — Ele sorriu de lado. — Como se sente, minha amada?
— Onde estou? Como vim parar aqui? - Amelia questionou, levando uma mão à têmpora dolorida.
Noah suspirou, divertindo-se levemente com a confusão dela.
— A pancada realmente foi forte para você esquecer o formato do nosso quarto. Quanto a como veio parar aqui... — Ele cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha. — É uma curta história. Estava eu treinando luta com Jack na adega quando, de repente e sem qualquer aviso, alguém entrou no recinto e levou o soco que era para ele. Essa pessoa era você, minha querida. Agora, me diga... por que diabos fez isso?
Ela arregalou os olhos e apontou um dedo acusador para ele.
— VOCÊ ME DEU UM SOCO?
Noah ergueu os ombros em um gesto culpado e tentou se explicar:
— Mantenha a calma, Amelia! Eu estava treinando no escuro e não vi você entrar. O soco era para Jack! Me diga, por que entrou lá sem nem ao menos me avisar?
Com um suspiro frustrado, ela ergueu a mão, entregando-lhe a carta amassada.
— Encontrei isso na biblioteca, entre alguns livros antigos. Achei que você precisava ver.
Ele tomou o papel das mãos dela, o cenho franzido de curiosidade. Seus olhos percorreram a carta, e conforme avançava na leitura, Amelia percebeu, com um aperto no peito, a transformação em sua expressão. A incredulidade deu lugar à raiva. A tristeza misturava-se à fúria. Os ombros tensos, a mandíbula travada, os punhos cerrados... Ele andava de um lado para o outro, os passos pesados ecoando pelo chão de madeira. Se continuasse assim, em breve abriria um buraco no assoalho.
— Noah? — chamou suavemente. Nenhuma resposta.
— Noah, me responde, por favor! — insistiu, sua preocupação crescendo.
Dessa vez, ele ergueu o rosto para encará-la. Seus olhos estavam tomados pela ira e... culpa? No instante seguinte, sem qualquer aviso, ele girou sobre os calcanhares e correu em direção à porta, abrindo-a com brutalidade, fazendo com que o impacto ressoasse pelo corredor.
Amelia sentiu o desespero tomar conta de seu corpo. Sem pensar, lançou-se atrás dele e, com uma agilidade que nem sabia possuir, envolveu os braços ao redor de sua cintura, impedindo-o de sair. Ficaram naquela posição por longos minutos. Ela sentia os músculos dele retesados, como se estivesse prestes a explodir. Lentamente, porém, a tensão foi se dissipando, e, por fim, ele quebrou o silêncio com um tom frio e cortante:
— Me solte.
— Noah, me escute. Sei que não posso mudar nada, mas converse comigo sobre isso, por favor.
— Já mandei me soltar!— Sua voz saiu carregada de frustração.
— Não! Ou você fecha essa porta e fala comigo, ou não o solto nem que tenha que me arrastar junto com você! — Amelia o desafiou, sua voz firme e decidida.
Noah congelou.
— Não duvide de mim, Amelia. Não quero te machucar. Me solte! — rosnou ele, mas sem a mesma convicção de antes.
— Você não seria capaz de me machucar. Seria? — a pergunta saiu em um sussurro.
Ele ficou completamente imóvel. O silêncio que se seguiu foi torturante. Então, com voz áspera, ele respondeu:
— Nunca faria isso. Nunca ergueria a mão contra uma dama, muito menos contra minha esposa.
Ela relaxou um pouco os braços ao redor dele.
— Então me escute. Feche essa porta e converse comigo. Sei muito bem que guardar sentimentos para si é a pior maneira de lidar com eles.
Noah suspirou profundamente. Seus ombros relaxaram um pouco, e, finalmente, com passos curtos, afastou-se da porta, fechando-a devagar. Quando se virou para encará-la, Amelia sentiu o peito se apertar ao ver as lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto de seu amado.
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Distinta Faísca
Roman d'amourNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
