CAPÍTULO 17

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Wilton House estava em polvorosa. Desde a chegada da estilista, ou melhor, da modista mais requisitada de Paris, criados corriam de um lado para o outro como formigas desorientadas. Cortinas eram sacudidas, corredores varridos com esmero duvidoso e criados treinavam discretamente reverências para impressionar a distinta convidada. Afinal, quando o Duque de Wiltshire resolve contratar uma francesa — ainda que inglesa de nascimento —, é sinal de que algo grandioso está prestes a acontecer.

Madame Jones — ou, como era celebrada nas soirées parisienses, la couturière magique — não era apenas uma costureira. Era um fenômeno da moda, uma tempestade de criatividade com agulha e tesoura como armas, e o bom gosto como escudo. Seu nome completo era Felicity Margaret Jones, e embora nascida nos campos enevoados de Devonshire, fora nas passarelas informais de Paris que conquistara sua glória. Com uma ousadia quase imprópria, misturava linho inglês com brocado francês, acrescentava fitas italianas às saias vitorianas e criava silhuetas que pareciam ter saído de um conto de fadas com um leve toque de escândalo.

Foi Noah, o muito falado — e, para muitas, desejado — Duque de Wiltshire, quem a convocara. Queria para sua duquesa alguém que ainda não tivesse sido corrompido pelos padrões engessados da moda londrina. Alguém com talento, sim, mas também com a ousadia necessária para transformar uma mulher comum em uma lenda de salão.

E Felicity, é claro, aceitara. Com um sorriso. E uma pitada de ironia.

Não que sua memória tivesse esquecido o episódio anterior com o tal duque. Oh, não. A última vez que estiveram frente a frente fora em um baile em Paris, onde Noah, com a ousadia de um libertino experiente, pedira que ela confeccionasse um vestido para... uma amante. Como se ela, Felicity Jones, criadora de sonhos e ícones de elegância, fosse estilista de cortesãs!

Ela o recusara com gosto — e palavras afiadas. O Duque saíra do salão com o orgulho ferido e a expressão de quem levara um tapa invisível. E, por isso mesmo, o convite atual a intrigava. O mesmo homem que outrora a subestimara, agora desejava que ela vestisse sua esposa.

E que esposa era essa? Quem seria a mulher capaz de domar um duque que fizera fama entre as debutantes por quebrar corações com a mesma frequência com que trocava de colete?

A carruagem parou. Felicity ajeitou o chapéu decorado com penas azuis e desceu com a elegância de quem sabia exatamente o efeito que causava. Ao colocar os pés na imponente escadaria de Wilton House, deparou-se com uma figura masculina em trajes impecáveis, braços cruzados e um sorriso perigosamente divertido.

— Madame Jones! — anunciou Noah, inclinando-se ligeiramente, a voz carregada de sarcasmo encantador. — Quem diria. Finalmente aceitou um pedido meu.

— E quem diria — replicou ela, entregando-lhe um olhar gélido e uma sobrancelha arqueada — que o senhor enfim faria um pedido decente.

Do interior da casa, uma risada cristalina ecoou, interrompendo a tensão com a leveza de uma primavera inesperada.

— Isso não foi nada engraçado, Amelia! — gritou Noah em direção ao saguão. — Sei que está escondida aí há muito tempo. Pode sair!

Do batente da porta, surgiu então a jovem duquesa. E que entrada! Amelia Matilda Gracie Campbell Harrison tinha o tipo de beleza que não se impunha — mas permanecia. Seus olhos cintilavam com inteligência viva, e o sorriso, ainda fresco de riso, iluminava mais que qualquer candelabro de cristal.

— Não a conheço, mas já gosto de você! — disse ela, aproximando-se com passos decididos. — Meu marido tem um ego do tamanho da Escócia e detesta ser contrariado. Muito prazer, Amelia. E você deve ser a lendária Madame Jones?

— Felicity Margaret Jones, à sua disposição, alteza — respondeu Felicity com uma reverência. — E fui chamada para vestir a senhora como nenhuma outra duquesa jamais foi vestida.

Amelia sorriu, os olhos brilhando.

— Oh, céus. Você é exatamente como imaginei! Venha, você precisa ver meus aposentos! — E, sem a menor cerimônia, agarrou a mão da costureira e começou a puxá-la escadaria acima. — Querido, mande os criados levarem as malas de Madame Jones. E pare de fazer essa cara de tísico entediado!

— Nos seus sonhos, minha querida — retrucou o duque, ainda sorrindo.

Não sou sua querida! — respondeu ela por cima do ombro, com um olhar afiado que fez Felicity sorrir.

Ah, sim. Aqueles dois eram absolutamente feitos um para o outro.

Mais tarde, em um quarto decorado com tapeçarias florais e almofadas em tons pastel, chá fora servido em porcelana chinesa e os tecidos — amostras dos mais diversos tipos — cobriam sofás, cadeiras e uma porção considerável do tapete.

— Odeio quando ele me chama de "querida"! — resmungou Amelia, segurando um pedaço de tafetá lilás. — Ele acha que sou como aquelas debilóides que desmaiam só de vê-lo erguer a sobrancelha.

— E a senhora não é? — provocou Felicity, com o ar mais inocente que conseguiu fingir.

— Céus, não! — Amelia soltou uma risada e depois suspirou. — Mas o problema é que... eu o amo.

Felicity parou. O silêncio se instalou com ternura.

— E ele sabe disso?

— Acho que sim. Mas... é complicado. Passei a vida ouvindo que era feia. Gorda. Que nunca me casaria. Que nunca seria bonita. Nunca dançaria. Nem mesmo podia escolher meus vestidos — minha mãe decidia tudo. E então... veio Noah. Ele me viu. De verdade. Me escolheu. Me ouviu. E mesmo agora... quando me sinto invisível, ele ainda me faz sentir... como se eu fosse a mulher mais extraordinária do mundo.

Felicity tomou-lhe a mão.

— Você é linda, Amelia. E juntos vamos mostrar isso ao mundo. Vamos deixá-los tão boquiabertos que esquecerão como sussurrar.

Amelia piscou, as lágrimas contidas pela força que cultivara por anos.

— Vamos começar?

— Agora mesmo.

Duas semanas depois, Wilton House parecia outro mundo. Rendas, fitas, tecidos bordados — todos trabalhados com o esmero de uma artista e o cuidado de uma amiga. Felicity não apenas transformou o guarda-roupa da duquesa, mas também a ajudou a redescobrir sua própria beleza.

E ao partir, com a carruagem carregada de lembranças e o coração aquecido, encontrou um envelope elegante repousando sobre o banco.

Dentro, um pagamento mais que justo... e um bilhete.

"Querida Madame Jones,
Obrigada por devolver ao mundo a mulher que eu sempre vi quando olhava para Amelia.
Com gratidão,
Noah Harrison, Duque de Wiltshire"

Felicity sorriu.

Ela não apenas ganhara uma cliente. Ganhara uma amiga. E, quem sabe, ajudara um casamento a florescer exatamente onde a sociedade jamais esperaria.

E se isso não fosse o verdadeiro poder de um vestido... o que mais seria?

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora