CAPÍTULO 14

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Apesar da penumbra e da fina camada de poeira que repousava sobre os móveis, o cômodo não parecia abandonado há muito tempo. Pelo contrário, havia um ar de preservação no ambiente, como se alguém tivesse estado ali recentemente, mas o tivesse deixado às pressas. Amelia varreu o espaço com o olhar e percebeu que o lugar se assemelhava a um escritório—um pouco maior que o de Noah, mas muito bem escondido dos olhos alheios. O simples fato de ter descoberto aquele espaço lhe despertava um misto de entusiasmo e receio.

Era perfeito.

Ali, poderia desfrutar de seus livros longe de interrupções e, quem sabe, até mesmo calcular as despesas e os investimentos necessários para os arrendatários que serviam aos Harrison. A ideia de finalmente poder usar suas habilidades de economia a animava.

Movida pela curiosidade, aproximou-se da grande mesa de carvalho situada no centro do cômodo. Sobre ela, repousava uma folha de papel envelhecida, dobrada de maneira descuidada, como se alguém a tivesse deixado ali às pressas.

Amelia franziu o cenho e, com dedos cuidadosos, pegou o papel. O coração acelerou ao perceber que era uma carta—e pelo tom da caligrafia apressada e ligeiramente trêmula, parecia carregar um peso significativo.

Seus olhos percorreram as primeiras linhas, e, a cada palavra lida, o espanto e o horror começaram a se apoderar dela.

29 de Março de 1812

Querido Noah,

Se esta carta chegou até suas mãos, é porque minha vida chegou ao fim, e com isso, sinto a necessidade de lhe contar algo que não posso mais manter apenas para mim. Talvez, ao longo dos anos, tenha se perguntado por que sua mãe e eu vivíamos em constante conflito. Sempre amei sua mãe, nunca tive a intenção de machucá-la, e muito menos de chegar ao ponto de erguer a mão contra ela. 

Mas preciso que saiba a verdade: eu não sou o seu verdadeiro pai. 

Amelia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Seus dedos apertaram a carta, como se o gesto pudesse impedir as palavras de ganharem ainda mais peso.

Sim, sei que isso deve ser um choque para você, mas, por favor, deixe-me explicar. Vicent sempre amou muito você e sua mãe, e a felicidade dele foi imensa com o seu nascimento. Sua mãe, no entanto, jamais soube da minha existência. 

Nossa família me renegou desde o início, simplesmente porque Vicent nasceu poucos minutos antes de mim. Desde criança, fui deixado de lado e afastado da alta sociedade, forçado a crescer na casa de campo da família Harrison, longe de qualquer reconhecimento. Foi nesse isolamento que, aos vinte anos, vi sua mãe pela primeira vez. Sarah era filha de uma família que havia acabado de adquirir uma propriedade vizinha. Seus pais, entusiasmados com a nova residência, decidiram conhecer os arredores. Ela se tornou minha vizinha, mas nunca tive coragem de me aproximar. Apenas a observava pela janela, silenciosamente encantado. Eu a amava à distância, de um jeito desesperado e impossível. Naquela época, eu era gordo e desajeitado, um alvo fácil para humilhações.

Meu irmão, já administrador das propriedades da família, soube da chegada dos novos vizinhos e partiu imediatamente para garantir que eu me mantivesse longe deles. Nossa família sempre quis esconder minha existência da sociedade. Assim que Vicent chegou, impôs seu domínio sobre mim com crueldade. Ele me tratava como um servo, um escravo a quem podia ordenar e torturar caso não obedecesse. Seu prazer era me humilhar, destruir qualquer resquício de autoestima que eu pudesse ter. 

Ao notar meu olhar para Sarah, fez questão de conquistá-la. O problema foi que o idiota se apaixonou por ela — assim como eu já estava.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora