CAPÍTULO 19

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Lady Amelia acabara de se sentar à mesa para sua refeição vespertina quando a porta da cozinha se abriu de súbito, revelando a figura solene — embora sempre gentil — de Imogen, a governanta da casa. Havia um brilho ansioso em seus olhos, misto de alvoroço e dever cumprido.

— Milady — anunciou com voz firme, embora cordial —, Lady Sarah e Lady Clarissa Harrison acabam de chegar.

Com a serenidade de quem aprendeu a não se deixar abalar por surpresas sociais, Amelia repousou o talher sobre o prato ainda quase intacto, alisou o tecido do vestido com a ponta dos dedos e se ergueu da cadeira. Havia em seus gestos uma contenção elegante, mas também uma pontada de expectativa. Embora agora fosse senhora daquela residência, sentia que seu papel diante daquelas duas mulheres ainda se desenhava cuidadosamente a cada novo encontro.

Cruzou o corredor principal com passos decididos e desceu as escadas amplas e bem enceradas que levavam ao vestíbulo da casa. Ao transpor o último degrau, avistou-as: Lady Sarah, em toda sua dignidade de matriarca da linhagem Harrison, e Clarissa, cuja juventude e efervescência pareciam transbordar pelos olhos vivos e o sorriso largo. Não teve sequer tempo de anunciar sua chegada — Clarissa avançou como um raio, atirando-se nos braços de Amelia com um entusiasmo quase infantil.

Oh, Mel! Como senti sua falta naquela cidade horrenda, infestada de idiotas atrás de dotes e conexões vantajosas! — exclamou, apertando-a com força. — Acho que a assustei com minha efusividade. Perdoe-me!

Amelia, ainda surpreendida, sorriu com genuína ternura e respondeu:

— Não se preocupe, minha cara. Confesso que nunca nutri grande afeição por Londres e seus salões sufocantes. Aquelas pessoas parecem se importar apenas com duas coisas: títulos e aparência. E, se me permite, sou eu quem lhe deve desculpas. Ainda não me habituei a alguém oferecer-me amizade sincera como a sua. — Voltou-se então para a mulher que aguardava com olhar observador. — Seja muito bem-vinda de volta ao lar, Lady Sarah.

A duquesa sorriu com magnanimidade e ergueu levemente os braços num gesto afetuoso.

— Por todos os céus, não me chame de "senhora", minha querida! Tal título faz-me sentir como uma relíquia de tempos imemoriais. Sarah basta. — Aproximou-se e, com o mesmo calor maternal que dispensava ao filho, pousou a mão no ombro de Amelia. — Agora, dize-me: onde está o meu adorável filho, que não se deu ao trabalho de vir receber a própria mãe, tão sofrida e desgastada pelas agruras da viagem?

— Mencionou, há poucas horas, que se recolheria ao escritório para tratar de assuntos pendentes.

— Naturalmente — resmungou Sarah, o olhar faiscando de impaciência. — Pois farei questão de interromper-lhe os tais assuntos com minha adorável presença.

E com isso, partiu pelo corredor, as saias oscilando com elegância determinada.

Clarissa soltou um suspiro exagerado e rolou os olhos com teatralidade.

— Não te preocupes, Mel. É apenas mais um dos arroubos maternos. Agora, conte-me tudo! Como anda a vida conjugal? Meu irmão está sendo um grande tolo?

— Em algumas ocasiões, ele se comporta como um paspalho de primeira ordem — confessou Amelia, sorrindo com indulgência —, mas fora isso, temos nos entendido bem.

— Eu sabia! Ele precisava de uma mulher como você: firme, sensata, com o gênio no lugar certo! Alguém que não se dobrasse às suas gracinhas e arrogâncias. A verdade é que os boatos sobre sua vida de libertino estavam se alastrando, e mamãe andava a um passo do desmaio por conta disso.

— Sim, ouvi muitos murmúrios enquanto estive em Londres. Confesso que não foram encorajadores.

— Pois então, ainda mais espantoso é o fato de ele ter escolhido justamente você, em meio a tantas jovens e suas mães ambiciosas. Amelia, meu irmão tem uma sorte imensa!

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora