CAPÍTULO 08

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De uma coisa Noah tinha certeza: desejava Amelia. Desejava-a de um modo intenso e perturbador, de uma maneira que fazia seu sangue ferver sempre que seus olhos pousavam sobre ela. Mas não poderia amá-la. Não deveria. Jurara a si mesmo, há muito tempo, que jamais se permitiria amar alguém a ponto de ser cegado pelo sentimento, a ponto de se perder nele. Vira o que o amor fizera com sua mãe, que, apesar de todas as ações condenáveis de seu pai, nunca deixara de amá-lo. Não queria aquilo para si. Não queria a vulnerabilidade que o amor trazia. E, mais do que isso, não queria filhos. Como poderia ser um bom pai se nunca tivera um? Como poderia garantir que não repetiria os erros de seu progenitor? O medo de falhar, de ferir seus próprios filhos da maneira como fora ferido, o assombrava.

Mas naquela manhã, ao vestir-se para o casamento, afastou aqueles pensamentos. O destino já fora selado. Ele e Amelia estavam prestes a unir-se em matrimônio, e não havia mais volta.

A cerimônia fora organizada de maneira rápida e discreta, limitada à família e a poucos amigos próximos. Graças ao seu título e influência, conseguir a licença especial para o casamento fora um mero detalhe burocrático. E agora, parado no altar improvisado na casa dos Harrison, Noah esperava por sua noiva.

Quando Amelia entrou no salão, seu mundo pareceu se estilhaçar por um breve instante.

Ela estava deslumbrante.

Noah sempre soubera que Amelia era bonita, ainda que sua modéstia e suas vestes simples nunca realçassem devidamente sua beleza. Mas agora, envolta naquele vestido delicado, feito com um tecido que abraçava suas curvas na medida certa, ela parecia outra mulher. A luz que entrava pelas janelas incidia suavemente sobre seus cabelos, e havia algo em sua postura – uma mistura de nervosismo e dignidade – que fez o coração dele vacilar por um breve instante.

Na noite anterior, Amelia não conseguira dormir.

Todos os seus pertences haviam sido cuidadosamente empacotados e acomodados em baús, prontos para serem transportados para sua nova casa. Wilton House seria seu lar pelos próximos meses, até que sua sogra e cunhada retornassem para morar com ela e Noah. A ideia de passar tanto tempo sozinha com seu marido a deixava inquieta, mas ela evitava pensar muito no assunto. Ainda assim, seu coração martelava ansioso em seu peito enquanto olhava ao redor do quarto que, até aquele momento, sempre fora seu refúgio.

Foi quando sua mãe entrou sem bater.

Amelia ergueu os olhos, surpresa. Daisy carregava no rosto uma expressão estranha, quase desconfortável.

— Amelia, tem um momento, meu amor? — perguntou ela, seu sorriso hesitante.

Com um ligeiro franzir de sobrancelhas, Amelia assentiu.

— Claro, mãe.

Levantou-se do chão, onde estava organizando seus últimos livros no baú, e sentou-se ao lado da mãe na cama. Daisy parecia hesitante, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.

— Está tudo bem, mamãe? — Amelia questionou, preocupada. — A senhora parece nervosa.

Daisy pigarreou, endireitando-se um pouco antes de finalmente falar:

— Estou bem, minha querida. Mas... bem, esperava nunca precisar ter essa conversa. — Ela inspirou fundo, claramente tentando reunir coragem. — Mas chegou a hora de falarmos sobre o que acontece depois do matrimônio, seu dever matrimonial.

O coração de Amelia parou por um instante.

Graças aos livros de romance que lia escondida, já tinha alguma noção do que a mãe estava prestes a lhe dizer. A maioria das mocinhas nos romances passava por essa mesma conversa com suas mães antes do casamento. Mas havia algo na postura de Daisy que tornava tudo mais embaraçoso.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora