— No fim das contas, não passas de um reflexo infeliz de teu próprio pai... um miserável!
A injúria fora lançada como uma flecha, certeira e cruel, e agora reverberava na mente de Noah como uma sentença irrevogável. Ficou ali, estático, desprovido de resposta, vendo Amelia desaparecer por entre as portas da entrada como uma sombra ferida. Sua figura, outrora altiva, agora parecia encolher sob o peso de tamanha humilhação.
Clarissa, que havia seguido a cunhada com evidente pressa, deteve-se ao alcançar o primeiro degrau da escadaria. Voltou-se com determinação e adentrou novamente o escritório, os passos duros reverberando no piso de madeira como se anunciassem um julgamento. Aproximou-se dele com os olhos flamejantes e, sem pronunciar uma única palavra, ergueu a mão e lhe desferiu um tapa vigoroso. O estalo cortou o silêncio da sala como um chicote. A pele de Noah avermelhou-se instantaneamente, e os contornos dos dedos de Clarissa ficaram gravados em sua face como marca de sua indignação.
— Não que mereças qualquer explicação, criatura abjeta — disse ela, a voz trêmula de fúria. — Mas Amelia está grávida. Sim, grávida de ti. Viemos aqui para dar-te a notícia que deveria ser celebrada, mas tu, como de costume, encontraste uma maneira admirável de arruinar tudo!
Tendo dito isso, girou nos calcanhares, o vestido esvoaçando atrás de si, e desapareceu novamente pelo corredor em direção à escadaria, deixando Noah entregue ao próprio desespero.
Grávida.
A palavra reverberava em sua mente como um sussurro sagrado. Amelia, sua adorada esposa, carregava um filho seu. Um herdeiro. Uma continuação de sua linhagem e, mais do que isso, o símbolo de um amor que ele, em sua estupidez, tentara negar por tanto tempo. O coração, que até então parecia petrificado, estremeceu no peito. Mas era tarde demais? Havia destruído aquilo que mais prezava? Seria, no fim das contas, igual ao homem que aprendera a odiar: seu pai, cujo nome ele sequer pronunciava.
— Confesso que me compadeço um pouco de tua situação — disse Sebastian, que até então permanecia recostado à estante, os braços cruzados e um leve sorriso irônico nos lábios. — Mas é uma pena bem pequena, devo admitir.
— Fecha essa tua maldita boca, Sebastian, ou juro que te esmago esse teu rosto de bufão!
— Que se faça como desejares — retrucou o irmão, com indiferença. — Mas sabes, no fundo, que mereceste cada palavra que recebeste. E se ainda nutres qualquer sentimento verdadeiro por tua esposa, levanta-te daí e vai atrás dela. Restaura o que puderes. Agora, se és mesmo um canalha sem coração, permanece onde está, imóvel como uma estátua romana, e deixa o tempo cumprir sua sentença.
Noah manteve-se em silêncio, mas suas mãos cerraram-se em punhos. Sebastian, malgrado sua maneira ácida de falar, estava certo. Precisava encontrá-la, explicar-se, e provar-lhe que seu amor era genuíno — mesmo que precisasse trancá-la no quarto até que escutasse cada palavra.
Amava Amelia. Amava com uma intensidade que o deixava atônito, pois sempre jurara que jamais se renderia aos laços do coração. E, no entanto, ela o conquistara com sua gentileza inata, com o respeito que demonstrava até aos mais humildes da criadagem, com a inteligência aguda que disfarçava atrás de livros, e com aquela beleza singular que desafiava os padrões da sociedade, mas que preenchia perfeitamente os anseios de sua alma.
Saiu porta afora com o coração em desatino, decidido a consertar o que despedaçara.
— Amelia! Amelia, rogo-lhe, detenha-se um instante!
O som daquela voz fez Amelia girar o rosto por sobre o ombro, e seu semblante endureceu no mesmo instante. Não era Noah — era Clarissa. Mas, ainda assim, sua presença lhe causava desconforto.
— Mantenha distância! — exclamou, com os olhos faiscando. — Tenho plena certeza de que sabias de toda essa infâmia e, mesmo assim, trataste-me com doçura. Como pude ser tão estúpida a ponto de acreditar em vossa amizade?
— Isso é um absurdo! — protestou Clarissa, visivelmente ofendida, as faces ruborizadas de indignação. — Julgas realmente que minha mãe e eu faríamos parte de uma conspiração tão vil?
— Quase não vos conheço! Como poderia confiar? Além disso, EU confiei no teu irmão, e veja no que resultou!
Clarissa respirou fundo e, por um instante, pareceu conter as lágrimas.
— Esperava mais de ti, Amelia. O que Noah fez foi repugnante, e juro-lhe, por tudo que tenho de mais sagrado, que nem minha mãe nem eu tínhamos qualquer ciência dessa afronta. Se soubéssemos, teríamos feito tudo para impedir. E se duvidas da minha lealdade, saiba que, há poucos minutos, esbofeteei meu irmão.
— O quê? Bateu... nele? — Amelia mal podia crer.
— Com gosto — disse Clarissa, com altivez. — Uma boa bofetada naquela expressão insolente dele. E, se queres saber, foi por ti. Ele merecia muito mais, mas tu és a única que pode realmente feri-lo onde mais dói: no coração.
Amelia silenciou por um instante, comovida.
— Perdoa-me... por ter desconfiado de ti. E de tua mãe.
— Feriu-me, não nego — respondeu Clarissa, com doçura. — Mas deixemos isso para trás. Amigas são para esses momentos, e tu és minha amiga. Minha obrigação era proteger-te.
Aquelas palavras tocaram fundo. Amelia nunca ousara sonhar com uma amizade verdadeira, e agora percebia, com o coração apertado, que havia encontrado uma irmã de alma.
— E ainda não acabou — acrescentou Clarissa, erguendo um dedo acusador. — Espera até mamãe saber do que Noah fez. Ele que se prepare!
— Obrigada. De coração, obrigada.
— Já disse para parar de agradecer! Agora venha cá — disse Clarissa, abrindo os braços. — Está precisando de um abraço. E dos apertados.
Amelia deixou-se envolver. Apertou-a com força, como se agarrasse uma tábua em alto-mar, e por fim as lágrimas vieram — silenciosas, quentes — depositando-se no ombro da amiga como uma chuva de dor contida.
Do alto da escadaria, Noah avistou a cena. As duas figuras femininas, unidas num abraço comovente, pareciam alheias ao mundo — inclusive a ele. Aproveitando-se da distração, desceu os degraus com passos firmes, mas contidos, como se receasse que o som de seus sapatos no assoalho denunciasse mais do que sua simples presença.
— Amelia — disse ele, com voz grave — permites-me algumas palavras?
— Falando no próprio demônio... — murmurou Clarissa, lançando-lhe um olhar cortante. — Não te basta o mal que já causaste hoje?
— Por obséquio, Clarissa, silencie-se — disse ele, tentando manter o controle da própria voz.
— Tu é que deverias calar-te, seu libertino! Atreve-te a tentar qualquer coisa e te esmago com minhas próprias mãos!
Noah sentiu uma pontada de orgulho e ternura. Sua irmã, tão jovem, enfrentava-o com mais valentia do que ele próprio tivera para proteger Amelia.
— Criança dos infernos... quero apenas falar com minha esposa, e não permitirás que me impeça disso!
— Tenta, canalha! — replicou ela, pronta a saltar novamente sobre ele, mas foi detida por Amelia, que levantou a mão em súplica.
— Basta, Clarissa. Desejo escutar o que esse homem tem a dizer.
As palavras, ditas com frieza e nojo, cortaram-lhe mais do que qualquer açoite.
— Podemos falar em meu escritório? Julgo ser mais apropriado que o façamos em particular.
— Naturalmente. Vá na frente.
— Se precisares de qualquer coisa, Amelia, juro-te: estarei aqui — disse Clarissa, ainda alerta.
— Fique tranquila. Ele não ousará me causar mal algum.
— Já fez o suficiente. Mas se ainda for capaz de mais, juro que será o fim dele.
Noah lançou um último olhar, carregado de censura e frustração, à irmã, e encaminhou-se ao escritório, com Amelia seguindo atrás. O som dos passos dos dois ecoou pelo corredor silencioso como um presságio do que ainda estaria por vir.
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Distinta Faísca
RomanceNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
