CAPÍTULO 01

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       20 de Abril de 1812

      Castelo de Lulworth

O vento soprava suavemente pelas vastas colinas que cercavam o majestoso Castelo de Lulworth, balançando as copas das árvores e fazendo com que as cortinas de veludo pesadas da grande sala de estar ondulassem levemente. No interior do castelo, no entanto, o clima estava longe de ser tranquilo.

Não aguento mais a incapacidade de nossa filha! — trovejou Joseph Alexander Matthew Campbell, o imponente Conde de Lulworth, enquanto caminhava impaciente pelo salão decorado com tapeçarias luxuosas e móveis de mogno polido. Seu rosto, marcado pelo tempo e por uma eterna expressão de descontentamento, estava avermelhado de frustração. — Mesmo triplicando seu dote, ainda não apareceu um único tolo disposto a desposá-la! E ela também não faz um esforço sequer para perder aqueles malditos quilos! Passa o dia inteiro trancada no quarto, enfiada naqueles malditos livros!

Sentada elegantemente no sofá de brocado, Daisy Abigail Ward Campbell, Condessa de Lulworth, mantinha a compostura enquanto segurava uma xícara de chá. Seu semblante sereno contrastava com a fúria do marido. Com seus cabelos dourados ainda brilhantes apesar da idade e seus traços aristocráticos, era uma mulher cuja beleza permanecia notável, mesmo após tantos anos de casamento.

Tenha paciência, Joseph. Sei que Amelia está acima do peso, mas ela é uma moça encantadora. Além do mais, não é uma bênção que ela goste de ler? Ao menos assim, adquire inteligência e cultura.

O conde bufou, passando as mãos pelos cabelos castanhos já salpicados de fios grisalhos.

Nossa filha já está em sua quarta temporada e se ninguém reparou na beleza dela até agora, duvido muito que façam isso mais para frente. Inteligência? Bah! Inteligência é uma qualidade para os homens! São eles que frequentam escolas, universidades, são eles que precisam estar preparados para o mundo! Uma mulher tem apenas duas funções: arrumar um bom casamento e permanecer bela para agradar seu marido. Nossa filha está falhando miseravelmente em ambas! E, pior ainda, esse excesso de inteligência só afasta os possíveis pretendentes!

A condessa cerrou os olhos, pousando a xícara de chá sobre a mesa de mármore com um movimento firme. Seu tom de voz, antes doce, agora carregava um gelo afiado.

Isso é um absurdo, Joseph! Afinal, você mesmo escolheu casar-se comigo, e ouso dizer que possuo mais conhecimento do que muitas mulheres da sociedade londrina.

O conde revirou os olhos, cruzando os braços sobre o peito.

Sim, mas além disso, você também possui beleza, algo que nossa filha não tem por conta de seu peso!

Daisy levantou-se, a fúria brilhando em seus olhos azuis. Sua postura, antes graciosa, agora exalava autoridade.

Joseph Alexander Matthew Campbell, não admitirei que continue falando assim da NOSSA filha! Amelia é linda, independentemente de quantos quilos tenha! Se a sociedade é estúpida o suficiente para não enxergar isso, então é um problema da sociedade, não dela! — A condessa respirou fundo, tentando controlar a raiva crescente. — E esta conversa acabou! Nossa filha encontrará alguém que a ame exatamente como ela é.

O conde soltou um riso sarcástico e deu de ombros.

Duvido.

No andar superior do castelo, Amelia Matilda Gracie Campbell — ou simplesmente "Mel", como gostava de ser chamada — estava sentada em sua poltrona favorita, encostada junto à grande janela de seu quarto. O quarto era espaçoso e elegantemente decorado com tons de verde e dourado, mas ela raramente prestava atenção à sua luxuosa mobília. Seu refúgio estava nos livros, e naquele momento, segurava um exemplar recém-adquirido de Razão e Sensibilidade, escrito por uma autora misteriosa que assinava apenas como "By a Lady".

Mel tinha 1,75m de altura e pesava cerca de 110 kg. Seus cabelos ruivos, cortados na altura do pescoço em ondas suaves, eram uma de suas poucas vaidades. Odiava que crescessem longos e rebeldes, por isso sempre os cortava antes que passassem do limite que considerava aceitável. Seu corpo era farto de curvas, com busto mediano, cintura marcada e quadris largos, formando a silhueta de um violão. No entanto, a sociedade não via suas formas como um atributo, mas como um "defeito".

Em seu íntimo, Amelia sabia que nunca seria considerada bela aos olhos da alta sociedade londrina. Seu peso, suas coxas marcadas por estrias esbranquiçadas e roxeadas, as pequenas dobrinhas que se formavam quando se sentava — tudo isso a tornava uma pária nos salões de baile. Mesmo as roupas feitas sob medida por costureiras renomadas, pagas a peso de ouro por sua mãe, falhavam em valorizá-la. As cores escolhidas nunca favoreciam sua pele, e os cortes dos vestidos pareciam mais uma tentativa de escondê-la do que de realçá-la.

A primeira vez que debutou em Londres, aos dezoito anos, a sociedade fez questão de ser cruel. Os jornais não perderam a oportunidade de humilhá-la com manchetes que ainda ecoavam em sua mente:

"Baleia causa grande choque no baile de estreia!"
"Rapazes, tenham coragem: a obesa debutou!"

O escárnio foi tão intenso que Amelia quis nunca mais sair de casa. Somente sua mãe, com sua doçura persistente, a obrigou a continuar participando das temporadas. Mas de que adiantava? Amelia nunca era convidada para dançar. Os cavalheiros a ignoravam, e até mesmo outras moças evitavam sua companhia, temendo que sua má reputação as contaminasse.

Então, Amelia encontrou refúgio nos livros.

A cada página virada, fugia para mundos onde mulheres como ela poderiam ser amadas e desejadas. E, secretamente, alimentava um fio de esperança de que o amor verdadeiro pudesse existir, mesmo para alguém como ela.

Naquele momento, ao virar a décima página de Razão e Sensibilidade, sua atenção foi desviada por mais uma das discussões de seus pais. O som das vozes reverberava pelos corredores de pedra do castelo, e, mesmo sem querer, conseguia distinguir as palavras de seu pai.

"Ela está falhando em tudo! Nenhum homem jamais a desejará!"

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha. Ela não precisava que ninguém dissesse isso em voz alta.

Ela já sabia.

Com um suspiro trêmulo, Amelia enxugou a lágrima e voltou os olhos para o livro em suas mãos. Se não podia encontrar felicidade no mundo real, ao menos encontraria nas páginas de um romance.

E assim, se perdeu no mundo da fantasia, tentando esquecer, ainda que por um breve instante, a realidade cruel que a cercava.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora