23 de Outubro de 1812
Os primeiros raios do sol da manhã mal haviam tocado os vitrais do quarto quando Noah Harrison, o jovem e respeitável Duque de Wiltshire, começou a despertar. O calor suave da luz dourada filtrava-se entre as cortinas pesadas de linho creme, lançando padrões dançantes sobre a tapeçaria delicadamente bordada que adornava a parede próxima à cama. Lentamente, e com a serenidade de quem vive em paz — mas a inquietação de quem pressente algo fora do lugar —, Noah abriu os olhos.
Seu braço deslizou automaticamente para o lado esquerdo da cama, como fazia todas as manhãs desde o dia em que dissera "sim" diante do altar e do mundo. Contudo, em vez da maciez acolhedora da pele de sua esposa ou dos cachos perfumados que ele adorava enroscar nos dedos, encontrou apenas um espaço vazio, um lençol frio e o sutil perfume floral já começando a se dissipar. O leve franzido que surgiu entre suas sobrancelhas era sinal de que aquela ausência matinal não fora esperada — nem, muito menos, bem-vinda.
Ergueu-se com um suspiro impaciente, ainda trajando apenas sua ceroula branca e amarrotada. Seus pés tocaram o chão com firmeza e ele atravessou o quarto com passos decididos, abrindo a porta que ligava os aposentos conjugados na esperança de encontrá-la ali. Mais uma vez, foi frustrado: nenhum sinal de Amelia. Nenhum vestígio de sua risada contida, nenhum movimento suave de mãos folheando um livro. Apenas o silêncio.
A paciência, essa virtude que Noah aprendera a cultivar durante anos de negociações diplomáticas, começava a se esvair perigosamente.
Mas então, como um estalo súbito, recordou-se de um traço encantadoramente obstinado de sua duquesa — algo que o fazia rir e bufar em igual medida. Um hábito peculiar, exclusivo, e que a definia quase tanto quanto o brilho inteligente de seus olhos.
A biblioteca.
É claro. Onde mais estaria uma mulher como Amelia, às seis da manhã, senão cercada por livros?
Sem perder tempo, vestiu uma camisa solta por cima da ceroula e, com passos largos e o rosto já levemente irritado — embora escondendo um sorriso inevitável —, partiu em direção ao santuário silencioso de sua esposa.
A biblioteca da propriedade dos Wiltshire era, de longe, o cômodo favorito de Amelia desde o dia em que cruzara aquelas portas pela primeira vez. Havia algo no cheiro da madeira antiga, nos estalos suaves das estantes altas, no som quase sagrado do papel sendo manuseado... que a fazia se sentir viva. Ali, as emoções que guardava dentro de si ganhavam forma — seja através das palavras de um autor francês, das cartas de um filósofo escocês, ou, como naquela manhã, de um romance dramático sobre amor e traição.
Sentada em sua poltrona favorita — aquela perto da janela que dava para os jardins —, Amelia estava completamente absorta na leitura de O Amor de um Conde, uma narrativa exageradamente apaixonada, porém absurdamente viciante. Seus olhos dançavam pelas páginas com intensidade, as sobrancelhas ora se unindo, ora se arqueando com indignação.E então, como se sentisse a necessidade de expressar sua revolta ao universo, ela soltou:
— Idiota! — gritou ao livro, como se o pobre objeto tivesse ouvidos.
Mal percebera que Noah já havia entrado, silencioso como um caçador experiente, observando a cena com uma mistura de adoração e divertimento.
A porta havia sido aberta com cuidado — quase com reverência — por Noah, que agora se detinha no limiar do cômodo, observando a cena mais deliciosa que seus olhos podiam testemunhar àquela hora da manhã.
E então, ela disse algo ainda mais ofensivo:
— Libertino repugnante!
— Espero que esses insultos não sejam dirigidos à minha pessoa, querida esposa — disse Noah, com a voz ainda rouca de sono, mas carregada de ironia afetuosa.
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Distinta Faísca
RomanceNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
