CAPÍTULO 23

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Wilton House, 24 de Março de 1813

Jamais poderia ter imaginado, nem nos seus mais otimistas devaneios, que aquele empreendimento nascido de um coração arrependido ganharia proporção tão grandiosa. A verdade é que tudo começou como uma tentativa desesperada — e, ainda assim, sincera — de reconquistar o afeto de sua esposa. Porém, com o aproximar da nova temporada, a simples ideia transformou-se em um fenômeno. A demanda por vestidos tornou-se tamanha que Lady Felicity fazia questão de atender pessoalmente as clientes mais exigentes da alta sociedade, com Amelia sempre a seu lado, anotando com primor cada detalhe, cada gosto peculiar, cada exigência de tecido ou bordado.

Não tardou para que os sussurros de elogio cruzassem o Canal. Cartas chegaram de Paris, exigindo a mesma atenção e arte. Até as damas que ostentavam os traços valorizados pela cruel régua da beleza londrina se viam seduzidas pelas criações da Toile de Jouy. Aquele ateliê, que nascera de uma união improvável e de um casamento desgastado pela mágoa, agora era o epicentro de uma revolução silenciosa na moda feminina.

O dote de Amelia — motivo de tanta discórdia e dor — fora não apenas restituído, mas duplicado. Toda quantia estava devidamente depositada na conta bancária que, a muito custo, Amelia o obrigara a abrir, sob o nome dela. Sim, ela mesma fazia a administração dos lucros, com a firmeza de uma duquesa e a inteligência de uma mulher que soubera transformar mágoa em independência.

Cinco meses haviam se passado desde o dia em que seu segredo fora cruelmente desvelado. Desde então, Amelia honrava, com determinação, a condição que impusera: dormia todas as noites no leito conjugal. Mas a presença dela ao seu lado, ainda que constante, era marcada por um silêncio doloroso e por olhares que, vez ou outra, lhe lançavam a mistura de tristeza e decepção. Para Noah, ver sua duquesa — agora com o ventre suavemente arredondado, anunciando a chegada do herdeiro — e não poder tocá-la como ansiava, era uma tortura mais afiada que qualquer lâmina.

A necessidade de tê-la era latente, quase selvagem. O desejo que lhe tomava o corpo era avassalador. Sua mãe, mulher de espírito prático, lhe dissera certa vez que muitas gestantes tornavam-se ainda mais sensíveis ao toque, mais abertas à intimidade. Contudo, Amelia parecia determinada a contrariar essa tendência, rejeitando com delicadeza — mas firmeza — qualquer investida mais ousada. Seus beijos eram castos, sua pele recusava o calor da dele, e suas respostas vinham sempre acompanhadas de um empurrão suave, porém irrefutável.

No entanto, naquela noite, Noah estava decidido: por bem ou por travessura, terminaria com aquela doce tortura.

— Felicity, Lady Danbury já chegou. Está aguardando a prova do vestido da filha — anunciou Amelia, cruzando o ateliê com passos rápidos, mas contidos.

A amiga, absorta em mais uma criação, levantou o rosto e sorriu.

— Excelente! Deixe-me buscar a peça. Creio que será um sucesso absoluto.

Madame Jones sumiu por trás da porta do salão lateral e retornou minutos depois, carregando com todo cuidado um vestido de baile cor de laranja, adornado com mangas bufantes, delicadas pregas abaixo do busto e discretos brilhos que corriam pelas laterais como o leito de um riacho iluminado pelo sol.

Era uma obra-prima. Felicity havia concebido um traje que realçava o brilho natural de Lady Ana, uma jovem de dezesseis anos, de cabelos castanhos e quadris mais generosos do que o considerado ideal — ao menos pelos padrões impiedosos da sociedade londrina.

— Está perfeito — murmurou Amelia, emocionada. — Lady Ana vai deslumbrar o salão.

A prova foi um sucesso. Quando Ana viu-se no espelho, com os olhos marejados e as mãos trêmulas, uma lágrima escapou por sua face jovem. Amelia, ao presenciar tal cena, sentiu uma pontada de saudade daquela sensação cálida de pertencimento e encanto que o amor, em sua forma mais pura, pode oferecer.

A viagem de volta a Wilton House foi tortuosa. A carruagem, ainda que a mais confortável da propriedade, não lhe poupou das quatro horas de estrada esburacada e vento cortante. Durante todo o percurso, seus pensamentos foram invadidos por imagens impróprias de seu marido — especialmente do modo como ele a olhava sempre que usava suas novas camisolas, criadas com a mente maliciosa de Felicity.

Sim, ela o provocava. E como o fazia! A última noite fora especialmente cruel: trajava uma peça de musselina translúcida que mal escondia suas formas, adornada apenas por um fino casaco do mesmo tecido e um colar de esmeralda que repousava entre seus seios. Noah passara horas no banheiro naquela noite. Quando enfim retornara ao leito, seu corpo roçara no dela com intensidade, e Amelia fingira dormir, fingira ignorar, fingira não desejar.

Mas o tempo era implacável. O bebê crescia em seu ventre, e com ele crescia também um amor silencioso por aquela pequena vida. Um dia, sentira o primeiro movimento — um leve roçar dentro de si — e desatara a chorar de emoção. Sim, amava seu filho. E, embora relutasse em admitir, ainda amava seu pai também.

Naquela noite, após chegar exausta, deixou-se despir por Imogen, vestiu a provocante camisola azul e foi deitar-se na cama de seu marido. Sabia, em seu íntimo, que estava desafiando o destino. Ao ouvir o ranger da porta, teve apenas certeza de que aquela noite não acabaria como as demais.

— Vossa Graça, Lady Amelia encontra-se já no leito — informou Imogen com uma reverência impecável.

— Agradeço-lhe, Imogen. Ela já jantou?

— Infelizmente, não, meu senhor. Alegou estar exausta. Deseja que eu prepare algo para que Vossa Graça leve até ela?

— Sim, por favor. Amelia precisa alimentar-se, especialmente em seu estado.

— Em vinte minutos trarei algo leve e reconfortante.

— Agradeço-lhe imensamente — respondeu ele com sinceridade. — Sua dedicação não passa despercebida.

Imogen saiu. Noah voltou ao trabalho, mas sua mente não se aquietava. Preocupava-se com a seca nas colônias, com os investimentos a serem reforçados. Mas, acima de tudo, preocupava-se com sua esposa — com aquela mulher que agora habitava seus pensamentos noite e dia.

Vinte minutos depois, Imogen retornou com a bandeja. Noah agradeceu, tomou-a nas mãos e dirigiu-se ao quarto. Ao abrir a porta, no entanto, quase deixou tudo cair.

Amelia estava ali, recostada entre os lençóis, trajando algo que mal podia ser chamado de vestimenta. A musselina azul revelava mais do que ocultava, realçando cada curva, cada sombra suave de sua silhueta. E, entre seus seios, pendia a esmeralda em forma de coração — uma armadilha fatal para qualquer homem apaixonado.

Se Amelia desejava brincar com o fogo, pois bem. Ele seria o incêndio.

Caminhou até ela em passos silenciosos, deixou a bandeja no chão, fechou a porta com um clique deliberado. Então, aproximou-se com intensidade contida, tocando-lhe os braços com reverência e os lábios com lentidão. Subiu os beijos até o pescoço e deixou ali uma marca ardente. Uma de suas mãos pousou no seio dela, acariciando-o com movimentos suaves e apaixonados.

Um suspiro escapou dos lábios de Amelia, e seu corpo, antes rígido, cedeu sob o dele.

Aquela noite seria deles. E ele a amaria como se fosse a última vez.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora