CAPÍTULO 25

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A primeira coisa que percebeu ao recobrar a consciência foi a luz difusa que invadia o corredor. Abriu os olhos lentamente, piscando para afastar a névoa que insistia em cobrir sua visão. Aos poucos, as formas se tornaram mais nítidas. À sua frente, estavam Clarissa e o conde de Hanbury, ambos inclinados, observando-o com expressões de preocupação... e um leve toque de escárnio.

— O que aconteceu? — indagou, com a voz embargada e um tanto rouca, tentando firmar-se na cadeira. — Por que me olham como se eu houvesse sido atropelado por uma carruagem desgovernada?

— Ora, meu prezado irmão — começou Clarissa, com um brilho malicioso nos olhos — nunca pensei, em toda a minha existência, testemunhar um cavalheiro de sangue azul desmaiar por motivo tão... digamos... trivial. Ainda que adoravelmente cômico.

— Trivial? — repetiu Noah, franzindo o cenho.

— Aparentemente, a notícia de que serias pai de gêmeos foi forte demais para teus nervos — completou ela, entre um risinho contido e uma sacudidela de cabeça. — Caíste como uma dama sensível num salão abafado.

As palavras atingiram-no com súbita clareza. Lembrou-se dos gritos, da correria, do anúncio inesperado. Dois filhos. Dois. O impacto voltava a percorrer-lhe o corpo como uma onda, mas agora não havia espaço para desmaios.

Ergueu-se abruptamente da cadeira, determinado, e cruzou o corredor com passos largos. Detendo-se diante da porta, bateu com força e falou com urgência, a voz embargada pela emoção.

— Mamãe, perdoe-me a grosseria, mas... peço-lhe, com toda a deferência de filho e desespero de marido, que me permita entrar. Preciso ver como está Amelia. Agora!

Por um momento, o silêncio imperou. Em seguida, ouviu o som de uma chave girando na fechadura, a maçaneta cedeu e, com um rangido baixo, a porta se abriu lentamente.

A cena que se descortinou diante de seus olhos jamais seria apagada de sua memória. Lá estava Amelia, deitada, exausta, a pele ainda úmida pelo esforço descomunal do parto. As faces ruborizadas, os cabelos grudados na testa, e os olhos... ah, os olhos marejados, repletos de emoção e fragilidade, voltaram-se para ele assim que o viu.

Sem hesitar, atravessou o quarto e ajoelhou-se ao lado da cama, tomando-lhe o rosto com ternura entre as mãos calejadas pelas rédeas e pelo tempo.

— Amelia, minha adorada... estás bem? — sussurrou, passando os dedos com delicadeza por sua face trêmula.

Ela assentiu com um leve movimento de cabeça, incapaz de conter as lágrimas que lhe escorriam silenciosas.

— Já... viste nossos filhos? — perguntou com voz fraca, embargada pelo choro recém contido.

Antes que pudesse responder, sentiu um leve toque nos ombros. Levantou os olhos e viu Sarah, sua mãe, com um sorriso orgulhoso nos lábios. Nos braços, ela trazia um pequeno embrulho envolto em manta branca.

Levantou-se com reverência, quase temendo quebrar o encanto daquele instante. Sarah, com olhos marejados, estendeu-lhe o pequeno fardo com carinho.

— Meu filho... permita-me apresentar-te teu primogênito. Este é Jacob Dylan Harrison, teu herdeiro e meu neto querido.

Noah acolheu o bebê nos braços com uma delicadeza que jamais imaginara possuir. O pequeno corpo pesava quase nada, mas a emoção de segurá-lo era esmagadora. Jacob abriu os olhos por um breve instante e, com a língua para fora, esboçou um gesto que fez o peito do pai se encher até transbordar. Um sorriso escapou dos lábios do bebê — ou algo muito próximo disso — e, com ele, Noah sentiu seu mundo inteiro ser redefinido.

— Meu Deus... — murmurou, apertando suavemente o menino contra o peito. — Ele é perfeito.

Olhou então para Amelia. Ela o fitava com uma expressão tão terna que lhe pareceu não haver dor alguma em seu passado. As lágrimas ainda desciam, mas agora eram de pura felicidade.

Aproximou-se e, com Jacob aninhado nos braços, curvou-se para depositar um beijo suave na testa da esposa.

— Esperei por ti para decidir o nome de nossa filha — sussurrou ela, com um sorriso fraco, mas radiante.

Noah olhou ao redor, procurando.

— Onde está ela?

— Aqui, meu Senhor — anunciou Imogen, aproximando-se com uma manta rosada nos braços. Com mãos seguras e reverência silenciosa, ela passou a pequena à mãe.

Amelia acolheu a filha com aquele instinto quase sagrado que apenas as mães conhecem, os olhos fixos no rostinho sereno da menina.

— Alguma ideia, meu duque? — perguntou ela, elevando os olhos para o marido com a suavidade de quem oferece um pedaço do céu.

Noah sentiu-se tomado por um amor tão imenso que o deixou sem palavras por alguns segundos. Olhou para a filha, tão pequena e delicada em seu casulo de linho cor-de-rosa. Sentiu-se esmagado pela grandiosidade daquele momento.

— Que achas de Elena Millie Harrison, minha querida?

Amelia sorriu com mais intensidade, apertando a filha contra o peito.

— Penso que é um nome maravilhoso.

E então, num gesto inevitável e carregado de gratidão, Noah curvou-se novamente e selou os lábios de sua esposa com um beijo breve, porém repleto de ternura.

— Muito obrigado — murmurou contra sua boca. — Sou o homem mais feliz deste mundo... e devo essa felicidade a ti, minha amada guerreira.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora