Ainda em meio à névoa do torpor, Amelia entreabriu os olhos, permitindo que a luz suave que adentrava pelas amplas janelas do quarto invadisse sua visão. Reconheceu, com um misto de alívio e confusão, o leito que dividia com Noah, adornado com lençóis de linho bordado e cortinas de seda clara. Ao erguer lentamente o olhar, deparou-se com duas figuras inclinadas sobre si, ambas exibindo expressões singulares.
A primeira, com um sorriso quase desmedido e os olhos faiscando de entusiasmo, era Clarissa. A segunda, a quem Amelia passou a estimar com profunda afeição, era Lady Sarah, que lutava em vão para conter as lágrimas que embaçavam seu olhar.
Ergueu-se com lentidão, sentindo os músculos ainda entorpecidos, e apoiou as costas na cabeceira entalhada em carvalho escuro.
— O que houve? — murmurou com voz trêmula, ainda envolta pela névoa do recente desmaio.
Lady Sarah inclinou-se ligeiramente e, com a ternura que só uma mãe poderia exibir, respondeu com um sorriso gentil:
— Vós desfalecestes, minha querida. Creio que a notícia foi... deveras impactante para vossa mente já fatigada.
Amelia franziu levemente o cenho.
— Que notícia?
Clarissa, impaciente como sempre, deixou escapar um leve arquejo de indignação fingida e, com teatralidade, exclamou:
— Ó céus, temo que o choque afetou-lhe a memória! — Então, abrindo ainda mais o sorriso, completou — A notícia, minha adorável amiga, é que terei o imenso prazer de me tornar tia de um serzinho encantador que agora repousa no vosso ventre!
Houve um instante de silêncio. Aquelas palavras reverberaram pelo ar como um sino distante. Amelia piscou, como se tentasse absorver o significado contido naquelas simples, mas poderosas frases. Grávida. Ela... grávida.
Mesmo sem conseguir pronunciar uma palavra, seu rosto se iluminou com um misto de assombro e ternura. Levara algum tempo para assimilar tamanha revelação, mas uma emoção quente se espalhou por seu peito, preenchendo cada lacuna de dúvida com amor inesperado. Sem conter-se, envolveu as duas mulheres num abraço caloroso e demorado.
— Já informaram a Noah? — perguntou, afastando-se levemente e encarando a sogra com olhos brilhantes.
Lady Sarah balançou a cabeça com leveza e respondeu:
— Não, minha flor. Reservamos-lhe a honra de fazê-lo com vossos próprios lábios. Tentou entrar aqui, aflito por notícias, mas eu o convenci de que estavas apenas em repouso e que logo te sentirias melhor.
— Mal posso esperar para ver a expressão de pasmo que fará! — exclamou Clarissa, divertida. — Posso acompanhá-la ao gabinete? Não ousaria perder tamanha ocasião por nada neste mundo!
— Como sois travessa! — retrucou Amelia com um sorriso repleto de ternura. — Claro que sim. Mas antes, dizei-me: onde está o meu marido?
Clarissa, com um revirar de olhos dramático, respondeu:
— O nobre Lorde Noah encontra-se em seu venerável gabinete, a parolar com o Conde de Hanbury — aquele palerma presunçoso a quem chamam de Sebastian.
Aquela resposta foi acompanhada de uma reverência torta e uma careta zombeteira, que arrancou de Amelia uma gargalhada tão espontânea que chegou a doer-lhe o ventre.
— Sois terrivelmente irreverente, cunhada! Mas não posso negar que vossa companhia me é das mais estimadas. Vamos, então! Que aguarde ele, pois temos uma revelação que mudará seu mundo!
Braço dado ao de Clarissa, Amelia atravessou o corredor com passos leves e decididos. Ao aproximarem-se da porta do escritório, detiveram-se por um instante. Dentro, ouviam-se vozes masculinas, em tom de confidência. Amelia ergueu a mão para bater, mas Clarissa, em um sussurro conspiratório, sugeriu que aguardassem o fim da conversa. Concordando, Amelia se aproximou da porta o suficiente para ouvir... e foi então que seu mundo desabou.
Poucos Minutos Antes
— Não posso ficar aqui parado! Preciso vê-la! — exclamou Noah, erguendo-se abruptamente da poltrona de couro.
— Acalma-te, irmão. Mamãe está com ela, e bem sabe que não há mãos mais gentis e confiáveis do que as dela — tentou Clarissa, embora soubesse o quanto Noah poderia ser impulsivo quando se tratava da esposa.
Inútil. Em menos de um minuto, ele já subia as escadas como se o próprio diabo o perseguisse. Chegou ao terceiro andar sem sequer notar o cansaço nos músculos. Bateu à porta com força. Sarah a abriu com calma, e seus olhos marejados de emoção fizeram o sangue de Noah gelar.
— Ela está bem, meu querido — apaziguou a mãe, com voz suave. — Apenas um mal-estar. Dei-lhe chá de maçã e agora descansa tranquilamente.
Noah franziu o cenho.
— Se está bem, por que então estais a ponto de chorar?
— Uma poeira nos olhos, meu filho. Sabes bem como minha alergia age nestes tempos secos — respondeu ela, disfarçando.
Antes que insistisse, Jack, o valete, se aproximou:
— Milorde, o Conde de Hanbury vos aguarda no gabinete. Disse tratar-se de assunto urgente.
Com um aceno relutante, Noah se despediu, ainda inquieto, e desceu até o escritório, onde Sebastian o aguardava recostado na poltrona com seus pés elegantemente apoiados sobre a mesa.
— A que devo essa visita, ó Conde da Perfeição? — provocou, sabendo o quanto o amigo detestava esse apelido.
— Sabes muito bem por que estou aqui, seu trapaceiro miserável! — disparou Sebastian. — Quero a verdade sobre aquele pedido no baile dos Williams e... o que se passa com Lady Amelia?
Noah suspirou, derrotado. Abriu a gaveta e retirou a carta do pai, já amarelada pelo tempo e pelas mágoas. Entregou-a ao amigo, que leu em silêncio.
— Céus, Noah... Ele arruinou vossa família inteira. Jogatinas? Mulheres?
— Sim. Quase não sobrou nada além do título. Foi Clarissa quem mencionou os dotes na temporada, e por mais repugnante que me parecesse... eu vi uma saída.
— Então é por isso que se aproximou de Amelia?
— Sim. E antes que me chames de canalha, digo-te que o destino pregou-me uma peça. Eu... me apaixonei por ela. Profundamente.
Sebastian deixou escapar um suspiro indignado.
— És um tolo, Noah. E agora essa verdade assombrar-te-á todos os dias de tua vida.
Antes que pudesse responder, a porta escancarou-se.
Amelia surgiu à soleira como uma tempestade. O rosto pálido estava coberto por lágrimas, e os olhos — aqueles olhos que antes o olhavam com doçura — agora lançavam-lhe labaredas de fúria e dor.
Clarissa apareceu logo atrás, com a expressão de quem teria dado qualquer coisa para esbofetear o irmão.
— Como tiveste a ousadia de me enganar desta forma?! Seu canalha! — bradou Amelia com a voz embargada, mas firme. — Eu entreguei-me a ti de corpo, alma e coração... para descobrir que fui parte de uma farsa vil! Tu... não és diferente daquele homem que tanto detestas. És igual a teu pai!
O silêncio se fez absoluto. Noah arregalou os olhos, sentiu a boca secar. Sebastian permaneceu imóvel, testemunha muda daquela implosão emocional. Clarissa, em silêncio vindicativo, assistia ao fim de um império de mentiras construído por amor... ou por desespero.
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Distinta Faísca
RomanceNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
