Um estranho sentimento começava a germinar em seu coração, algo indefinido e inquietante, que se insinuava a cada olhar, a cada pensamento voltado para Amelia e os segredos que ela guardava. Ele não sabia ao certo o que era, mas sentia que precisava desvendar os mistérios que a envolviam, como um marinheiro atraído pelo chamado irresistível do oceano desconhecido.
Ao despertar na manhã seguinte, a primeira coisa que seus olhos encontraram foi o rosto singelo de sua esposa, iluminado pelos primeiros raios dourados do sol que se erguiam no horizonte. Os cabelos dela, espalhados em suaves ondas sobre o travesseiro, captavam a luz matinal de maneira sublime, parecendo fios dourados tecidos pelas mãos de uma divindade. Foi então que Noah constatou, mais uma vez, que Amelia era a mulher mais bela que já se deitara ao seu lado. Uma beleza que não residia apenas em seus traços delicados, mas na forma como sua presença preenchia o espaço, como se pertencesse ao mundo de forma inquestionável. Permaneceu ali, observando-a por um longo tempo, como um artista contemplando sua obra-prima antes de erguer o pincel. Por fim, levantou-se vagarosamente da cama, movendo-se com o cuidado de não perturbá-la, e dirigiu-se ao seu escritório. Precisava atualizar a situação financeira em que se encontrava.
As coisas estavam melhorando. Graças ao dote de Amelia, ele conseguiu realizar investimentos que antes apenas povoavam seus planos, aplicando uma parte significativa dos recursos nas colônias. Ainda assim, teve o cuidado de reservar o dote de Clarissa intocado, enquanto outra porção foi guardada para eventualidades que o futuro pudesse lhe impor. Sentado em sua escrivaninha, fez os cálculos com precisão meticulosa, garantindo que cada moeda fosse destinada ao seu propósito exato.
Quando terminou, abriu a terceira gaveta da mesa, retirando um pedaço de papel e um bastão de grafite. Fazia mais de três meses que não desenhava, um hábito que sempre o ajudara a aliviar a mente das pressões do dia a dia. O desespero e a correria dos últimos tempos o haviam afastado desse prazer, mas agora, naquele instante de rara tranquilidade, ele sentiu um desejo irrefreável de desenhar novamente.
Noah amava retratar paisagens, capturar a grandiosidade da natureza com traços firmes e seguros, mas o que verdadeiramente o fascinava eram as formas femininas, as curvas suaves e graciosas que desafiavam sua técnica e instigavam sua inspiração. Seus dedos começaram a se mover com destreza pelo papel, esboçando Amelia. Seu olhar se concentrava em cada detalhe, da curva delicada do ombro até o contorno suave da cintura. Estava absorto, ajustando cada linha com paciência, até que passos ecoaram pelo piso de madeira. Supondo que fosse o valete, não interrompeu o que fazia. No entanto, quando ouviu a voz de Amelia, sobressaltou-se.
— Não sabia que desenhava! Muito menos tão bem assim. Quem está desenhando? — a curiosidade brilhava em seus olhos.
Noah praguejou baixinho, recolhendo o desenho apressadamente e guardando-o na quarta gaveta junto aos outros esboços.
— Maldição! Por acaso pedir licença para entrar é tão difícil? — sua voz carregava uma mistura de surpresa e irritação.
— Você estava concentrado, não queria interrompê-lo com futilidades! Mas quem estava desenhando? — insistiu ela, aproximando-se com um brilho inquisitivo no olhar.
Ele respirou fundo, tentando manter a paciência.
— Tudo bem, desta vez passa. Mas quanto a isso, não acho que deva se intrometer nos afazeres pessoais de seu marido! — retrucou, sua voz revelando um incômodo genuíno. Não gostava de ser observado, especialmente quando fazia algo tão pessoal quanto desenhar.
— Não gosta de ser observado, mas gosta de observar os outros na surdina?! Muito confuso, não, caro marido? — Amelia ergueu uma sobrancelha, desafiadora.
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Distinta Faísca
RomanceNoah August William Harrison futuro Duque de Wiltshire e atualmente Conde de Trowbridge nunca se importunou por ter uma vida libertina livre de preocupações. Gostava da vida que tinha e nem se importava com o casamento, afinal sua família possuía um...
