Camila Cabello's pov
Eu agia de forma mecânica, fazia tudo no automático, só retomei a consciência quando já estava dentro de um táxi, indo para algum lugar longe dali, longe das paredes que me sufocavam. Agradeci mentalmente por ter me lembrado de pegar a bolsa, mas logo notei a falta do meu celular. Por um lado, seria bom estar longe do caos da internet, da preocupação das pessoas, de tudo o que fazia minha vida desmoronar aos poucos. Nem mesmo Paul estava ao meu lado naquele momento, como de costume. Eu não queria ser encontrada, não queria ver ninguém.
O homem dirigia através da cidade, conforme o tom avermelhado substituía o azul escuro do céu. Eu atravessava o mesmo quarteirão pelo que deveria ser a terceira vez, não sabia para onde ir, e o taxista, na esperança de receber um pagamento justo, havia desistido de me questionar.
Após horas rodando, sem rumo, pedi que ele parasse o carro ao lado de uma árvore frondosa. Paguei o que devia e o observei partir conforme caminhava sobre a grama, totalmente perdida. Odiando a mim mesma por ser tão gentil e ingênua, por ter me permitido ser cativada pelo carisma de Ethan. Ele ao menos tinha alguma noção do quanto havia ferrado minha vida com uma simples postagem?
Eu não queria pensar no quão idiota havia sido, não queria imaginar o olhar acusatório de meus pais ao dizerem que tentaram me avisar sobre aquilo, ou ver a dor nos olhos de Lauren. Não queria lidar com aquilo, com a minha intimidade exposta, encarar as pessoas e seus julgamentos, eu só queria poder sumir.
O parquinho estava tão vazio quanto eu me sentia naquele momento, era cedo demais para que qualquer um se divertisse ali. Me sentei sobre um dos balanços, e soltei os cabelos de forma a cobrirem parcialmente meu rosto. Tudo o que eu não precisava naquele momento era ser reconhecida. Aos poucos, risadas infantis podiam ser ouvidas conforme as crianças corriam de um lado ao outro, enlouquecendo os pais que tentavam acompanhá-las. Eu mantinha meu olhar fixo em uma pedra qualquer no chão, sentia as lágrimas molharem meu rosto aos poucos, e não notei quando o balanço ao meu lado foi ocupado por alguém.
- Oi! - Falou baixo, notando que não havia me pronunciado. - Eu sou a Lorena, e você?
Permaneci calada, torcendo para ela ir logo embora, e me deixar em paz com meus pensamentos.
- Por que está triste? - Questionou, diante do meu silêncio, e dei-me por vencida.
- Não estou triste.
- Mas você tava chorando... - Por Deus, que criança insistente!
- Onde estão seus pais? Vá ficar com eles. - Tentei dizer, secando as lágrimas no dorso de uma das mãos, totalmente sem energias para manter um diálogo no momento.
- Eles estão ocupados. - A pequena deu de ombros.
- É claro que estão. - Murmurei. - Não deveriam deixá-la sozinha assim.
- Eu não estou sozinha, estou com você. Mas ainda não sei seu nome! - Não pude deixar de sorrir para a espontaneidade em sua fala. Quase me fazia esquecer do quão miserável eu me sentia.
- Sou Karla. - Respondi, por fim.
Lorena analisou meu rosto, de cenho franzido, e então seus olhos se iluminaram.
- Eu conheço você!
Ah não, essa não...
- Você é a moça do restaurante!
Não era exatamente o que eu esperava ouvir. Demorei a compreender suas palavras, até que os cabelos loiros e o sorrisinho sapeca me parecessem familiares.
"Os olhinhos dela brilham quando ela olha pra você, igual quando a mamãe vê o papai."
É claro. Como não notei antes?
- Sua namorada brigou com você? É por isso que tá triste?
Neguei com a cabeça, e imediatamente a imagem de Lauren me veio à mente. Seu sorriso, seus beijos... nossa noite maravilhosa. E então a bomba que arruinou tudo.
- Não, ela nunca faria isso... - Respondi baixinho, com um sorriso triste nos lábios, pensando em como explicar aquilo para uma criança. - É que nós duas tínhamos um segredo, um segredo muito importante. Mas então uma pessoa má descobriu, e espalhou para todo mundo. E isso pode ser muito ruim, tanto para ela quanto pra mim.
- Por que não está com ela? - Sua pergunta veio ingênua, e eu hesitei, não sabendo bem como responder. - Papai e mamãe sempre me disseram que quando as coisas ficam ruins, temos que estar juntos.
Antes que eu pudesse pensar em uma resposta, seu nome foi chamado ao longe, e a garotinha se despediu de mim com um aceno antes de correr na direção de um casal. Eu estava sozinha outra vez, e cheguei a pensar que estar distante de tudo me faria bem, que fugir me traria algum alívio, mas eu claramente estava errada. Diversas crianças brincavam ao meu redor, pessoas apressadas iam de um lado ao outro, e alguns vendedores até mesmo me ofereciam lanches, sorvetes ou bebidas de cortesia, por provavelmente sentirem-se mal diante do meu semblante triste e perdido, parada ali, sozinha e sem rumo, durante tantas horas.
Recusei todos de primeira, mas então me lembrei de Lauren, me pedindo com aquele jeitinho dela para que eu não deixasse de me hidratar ou me alimentar. Aceitei algo leve pra comer, já que ainda estava me recuperando de uma gastrite. Ela cuidava de mim, mesmo de longe, mesmo sem saber. Repetindo-se em minha mente, estava a pergunta feita por Lorena horas antes: "por que não está com ela?". Eu não sabia a resposta. O pânico que me tomou diante da situação foi tão grande, que eu só pensei em fugir, e agi de maneira extremamente egoísta.
Quando pensou que eu carregava o bebê de outra pessoa, Lauren me olhou nos olhos e disse que "me deixar nunca foi uma opção". Então quando algo dá errado eu a deixo para trás sem nem pensar antes? Me senti estúpida. Ainda mais do que antes, por ter confiado em Ethan. Em momento nenhum parei pra pensar na forma como ela se sentiria. Aquilo era um desastre completo, sem dúvidas, mas não apenas para mim. Ela não tinha culpa de nada, provavelmente estava sofrendo tanto quanto eu, se não mais. Com isso em mente, reuni as forças que me restavam para me levantar dali, e retornar ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Mesmo me sentindo aterrorizada, sem ter ideia de como lidar com tudo aquilo. Eu voltaria por Lauren.
Dentro de outro táxi, eu era consumida por uma sensação ruim que parecia ficar cada vez pior, e não sabia dizer o porquê. Naquele momento, algo dentro de mim gritava e implorava para que o trajeto não demorasse muito mais. Quando o carro finalmente parou, agradeci mentalmente por ainda me lembrar do endereço, mesmo tendo sido levada até lá com uma venda nos olhos. O elevador pareceu demorar uma eternidade, e foi só ao sair dele que me dei conta de um detalhe importante: eu não tinha uma chave.
Era madrugada, Lauren certamente estaria dormindo. Eu estava a ponto de virar as costas e voltar para dentro daquele táxi, quando percebi que a porta havia sido deixada destrancada. Talvez por descuido, ou talvez ela estivesse esperando que eu voltasse. Adentrei o apartamento devagar, tentando não fazer barulho, e conforme caminhava na ponta dos pés, tive a impressão de ouvir alguns murmúrios. Me aproximando mais da porta do quarto, notei que ela chorava baixinho, chamando pelo meu nome.
Entrando no cômodo, percebi que apesar de tudo, seus olhos estavam fechados, provavelmente mais um pesadelo. Mas o que realmente chamou minha atenção não foram suas lágrimas, ou a forma como se encolhia e se agarrava ao cobertor em desespero. E sim, a poça de sangue, consideravelmente grande, que manchava os lençóis brancos.
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Shadows - Camren
RomansaO ano é 2022. Camila está com uma equipe totalmente nova finalizando a Romance Tour. Lauren acaba de lançar seu álbum solo, e como as outras meninas, recebe um convite inusitado para o evento em comemoração aos 10 anos da banda Fifth Harmony. Como...
