Capítulo 10

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- Anahí. - sussurrou ele como se saboreasse o som de seu nome.
De repente, ela se deu conta de que era uma das poucas vezes que o ouvia pronunciar; normalmente se dirigia a ela por algum tipo de apelido ou palavra carinhosa. Isso fez que lhe parecesse que seu nome soava distinto em seus lábios.
Ela ficou maravilhada observando sua moreia cabeça inclinada sobre sua mão, beijando-lhe e acariciando com um carinho do que não lhe tinha acreditado capaz.
- Alfonso?
Ele levantou os olhos, como se tivesse ouvido algo em sua voz que não esperava. Mas, antes de que pudesse dizer algo, chegou o garçom com o café.
- Onde estão meus crepes? -perguntou-lhe Alfonso.
-Estarão aqui dentro de um instante, monsieur – lhe informou Henri com um apurado sorriso e olhando nervosamente para a cozinha.
-Será melhor que seja assim...
Henri partiu e Anahí teve dificuldades para dissimular um sorriso.
-Sempre toma as coisas assim, não?
-Aprendi muito em breve que essa era a única maneira de chegar logo ao topo. Eu não gosto que ninguém me faça de menos. Não o você faça nunca.
-Eles não estavam tratando de te fazer de menos –começou a lhe dizer.
- É um corno -respondeu-lhe Poncho sorrindo friamente. -A forma de ver a vida entre as pessoas é bem distinta. -e você e eu estamos muito separados nesse aspecto, não?
-OH, não sei -murmurou ela-. Estava acostumado a pensar que eu gostaria de ir pescar de vez em quando, vestida com um par de botas velhas e uma camisa usada.
-Ah sim? Pois poderíamos ir pescar alguma vez se gostar.
Quando lhe olhou, com um certo ar divertido, viu que ele estava sorrindo outra vez. Nunca antes lhe tinha visto sorrir tantas vezes como esse dia.
-De verdade?
-Poderia deixar alguma calça vaqueira velha e também uma camisa -disse-lhe enquanto acendia um cigarro-. depois de tudo, acredito que deveria ganhar algo com este trato. Você me ensina o que tenho que saber e eu, por minha parte, ensino-te algumas outras coisas.

Henri voltou com os crepes uns segundos mais tarde, com isso Anahí esteve ocupada durante bastante momento, tentando explicar a Poncho a forma de utilizar os talheres corretamente.
Quando Poncho se aborreceu de lhe ouvir disse:
-Bom, já está bem. Acredito que deveria te comer seus crepes, está muito magra e não lhe viriam mal alguns quilogramas de mais.
-Nunca me pude imaginar que te fixasse em algo assim.
Ele não sorriu.
-Eu sempre me dei conta de um montão de coisas a respeito de ti, Anahí.
A Anahí custou um momento se repor do efeito que lhe tinham produzido essas palavras e, quando o fez, começou a comer seus crepes. A nata que se saiu de um deles lhe manchou lábio superior e ela a tirou com a língua. Quando fez isso, Poncho ficou olhando com uma expressão que ela não foi capaz de decifrar.
-Esse é um gesto muito sexy, sabia?
-Comer a nata? -perguntou-lhe ela rindo nervosamente.
-Não diga tolices. Sabe perfeitamente ao que me referia.
Anahí lhe ignorou e terminou de comer seu crepe.
-Que tal se fossemos ao cinema antes de voltar para cidade? -Sinto muito. Tenho um montão de trabalho que fazer em casa antes de ir à cama.
-Você passa a vida trabalhando?
- E você não? Acredito que já faz muito tempo que não tira férias.
-As férias são para os ricos. Ao melhor todos têm razão e não estou feito para ser rancheiro.
- E o que outra coisa poderia ser?
-O que quer dizer? Que sou muito besta e estúpido para ser outra coisa que não seja boiadeiro?

Disse isso em uma voz tão alta que as pessoas das mesas ao redor se voltaram para ver se seu aspecto coincidia com a descrição que acabava de fazer de si mesmo.
-Eu não quis dizer isso absolutamente e, por favor, não poderia falar mais baixo?
-E por que teria que fazer? -perguntou-lhe levantando-se e olhando desafiante a seu redor-. Que demônios estão olhando vocês? Quem tem escrito as regras que dizem que terá que olhar para baixo, falar com sussurros e não fazer nada que se saia do ordinário em um restaurante elegante e esnobe? Você creem que os garçons daqui conduzem Rolls-Royces? É por isso que lhes tem medo? Você creem que o chefe deles tem uma vila na Revisse?
Começou a rir ruidosamente. Anahí pensou seriamente em meter-se debaixo da mesa.
-Essa gente não é nem melhor nem pior que outros e, se pagamos, temos tanto direito a estar aqui como o mais posto destes cavalheiros, assim, por que tenho que deixar que estes fantoches me façam de menos?
O boiadeiro do outro lado da sala; amigo de Poncho, estalou em gargalhadas.
- Sim, demônios! Por que temos que deixar que nos pisem? –o gritou renda-se
- Diga-lhe bem claro, Poncho!
Uma senhora sentada em uma mesa próxima lhe olhou.
- É incrível as pessoas que deixam entrar agora neste restaurante -disse referindo-se a Poncho.
Alfonso se voltou para ela.
-Sim, não é certo? -acrescentou ele com um olhar que falava por si só-. E também é incrível a quantidade de gente que pensa que é melhor que outros, só pela quantidade de dinheiro que têm, não é certo, senhora?
A senhora em questão ficou vermelha, levantou-se e se foi.
-Por favor, sente-se -suplicou-lhe Anahí
-Sente-se você se quiser, eu vou. Se vier comigo, já sabe. Onde diabos está a conta? -pediu-lhe ao garçom Henri- Quero-a agora, não quando goste.
-Aqui a tem monsieur!
Poncho a agarrou e saiu a com toda pressa para o caixa, deixando que Anahí o seguisse sozinha. Ela se levantou tranquilamente de sua cadeira e saiu lentamente do salão. Tinha que demonstrar, que, a pesar de tudo, ela era a senhorita Puente de Charleston.
Mas a serenidade era precisamente o que não tinha no momento em que se encontrou com Poncho no estacionamento.
-É um idiota presunçoso, um selvagem!-começou ela a lhe dizer com os punhos fechados e os olhos brilhantes pela fúria.
-Não vai á hipocrisia. Entra, que te levo a sua casa.
-Nunca me havia sentido tão envergonhada!!
-Por que?
-Que por que. - Ele ficou olhando, Anahí tinha ficado rígida, Ao lado do carro, sem abrir sequer a porta.
-Bom, entra - disse-lhe.
-Quando me abrir a porta -disse-lhe ela friamente--. Tendo ou não em conta o movimento para a Liberação da Mulher, isso é de boa educação.
Com um suspiro de resignação, Poncho deu a volta no carro e lhe fez toda uma demonstração de como se abria uma porta, ajudava-a a entrar e voltava a fechá-la.
-Não vou voltar a ir contigo a nenhuma parte durante todo o tempo que fique viva! -disse-lhe ela quando se sentou a seu lado e pôs em marcha o motor.
-Você começou -recordou-lhe quando entraram na autoestrada-. Fazendo ressaltar minha ignorância...
-Eu não fiz isso. Limitei-me a te perguntar que mais poderia fazer. Você adora o ser boiadeiro, sempre gostou. Não se sentirá a gosto com nenhum outro trabalho e sabe.
-O que queria dizer era que não seria capaz de fazer nenhuma outra coisa.
-O que diz? Sempre está na defensiva comigo, tem a mania de interpretar mal tudo o que te digo.
-Eu sou um selvagem recorda? O que se pode esperar de mim?
-Sabe Deus. E isto não foi minha ideia, assim não me preocupa se te dedica a comer com os dedos durante o resto de sua vida. Depois disso, fez-se um comprido e incômodo silêncio. Ele acendeu um cigarro e se dedicou a fumar enquanto passavam os quilômetros. De vez em quando, lhe olhava; tinha o rosto rígido e o olhar fixo na uarecia sentir-se desgraçado e ela se sentiu culpada por isso. Estava claro que ele queria a May e que, sem um pouco de educação, não ia poder consegui-la jamais.
-Que estudos tem você? -perguntou-lhe. Anahí de repente.
-Tenho um titulo em Administração de Empresas e uma licenciatura em Econômicas.
Isso a deixou gelada. Lhe notou muito.
-Estive estudando enquanto fazia o serviço militar na marinha. Mas disso faz já muito tempo. vivi e trabalhei muito duramente e não tive tempo para me relacionar com as pessoas. Odeio aos pretensiosos, às pessoas que mentem aos outros e pretende ser mais que eles, aos que se acreditam superiores por ter dinheiro... A todos eles! Além de que também odeio esses lugares nos que somente lhes importa sua conta corrente. Deus, como os odeio!
Devia haver-se sentido a maior parte de sua infância e juventude rebaixado, humilhado e explorado. Anahí pensou que se excedeu. Tocou-lhe muito levemente no braço e ele ficou tenso inclusive com esse ligeiro toque.
-Sinto muito. -disse-lhe-. Sinto haver-me zangado e te haver incomodado.
-Tenho muitas cicatrizes em cima -disse-lhe ele mais tranquilamente-. Não estão à vista e trato de esquecê-las. Mas são muito profundas.

Tal como é - ayaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora