UM GOLPE E SUAS CONSEQUÊNCIAS
"Mas o trabalho se tornou escasso,
Enquanto o pão se tornou caro,
E os salários baixaram, também;
E as hordas irlandesas aqui vinham disputar,
Para fazer nosso trabalho mal pago."
As Leis do Milho em Rimas
Margaret foi introduzida na sala de visitas. Esta havia retornado ao seu estado normal, com os móveis todos cobertos como se estivessem prontos para uma mudança. As janelas estavam meio abertas por causa do calor e as venezianas cobriam as vidraças, de forma que uma severa luz cinza, refletida do pavimento abaixo, distorcia todas as sombras. Combinada com a luz da sala, em tons esverdeados, fazia com que até o rosto da própria Margaret, como ela reparou ao ver-se refletida nos espelhos, parecesse pálido e melancólico. Ela sentou-se e esperou. Ninguém apareceu. De vez em quando, o vento parecia trazer para perto o som distante da multidão. E, no entanto, não havia vento algum! Havia se extinguido em profunda quietude, nesse meio tempo.
Fanny entrou, afinal.
– Mamãe virá imediatamente, Miss Hale. Ela pediu que eu me desculpasse com a senhorita. Talvez saiba que meu irmão importou mão de obra da Irlanda, e isso irritou o povo de Milton ao extremo – como se ele não tivesse o direito de contratar mão de obra onde puder consegui-la. E esses estúpidos infelizes daqui não trabalhariam para ele. E agora eles amedrontaram os pobres e famintos irlandeses de tal forma com suas ameaças, que nós não ousamos deixá-los sair. Você pode vê-los todos apertados naquela salinha no alto da fábrica, e eles vão dormir lá, para que fiquem protegidos desses brutos, que nem irão trabalhar nem os deixarão trabalhar. A mamãe está providenciando comida, e John está conversando com eles, pois algumas mulheres estão chorando, querendo voltar. Ah! Aqui está a mamãe!
Mrs. Thornton entrou com um olhar sombrio e severo no rosto, que fez Margaret sentir que chegara em um momento ruim para aborrecê-la com seu pedido. No entanto, ela agia apenas conforme o desejo expresso do próprio Mr. Thornton, de que deveria pedir tudo o que eles pudessem necessitar no progresso da doença da mãe. Mrs. Thornton ergueu a sobrancelha e seus lábios se contraíram, enquanto Margaret falava com suave modéstia da inquietude da mãe, e do desejo do Dr. Donaldson de que ela tivesse o alívio de um colchão d'água. Ela parou. Mrs. Thornton não respondeu imediatamente. Então, levantou-se subitamente e exclamou:
– Eles estão nos portões! Chame John, Fanny – chame-o lá na fábrica! Eles estão nos portões! Vão atacá-los lá dentro! Vá, vá chamar John!
Ao mesmo tempo, ouviu-se logo atrás do muro a turba reunida – a quem ela estivera escutando, em vez de prestar atenção às palavras de Margaret. Havia um estrondo crescente de vozes iradas e enfurecidas, atrás da barreira constituída pelos portões de madeira, que tremiam, como se aquela multidão enlouquecida, que não estava à vista, transformasse seus corpos em aríetes, e recuasse apenas um curto espaço, só para vir, unida, em um ímpeto ainda mais forte contra os portões. Por fim, suas constantes arremetidas fizeram os pesados portões estremecerem, como caniços ao vento. As mulheres se juntaram em volta das janelas, fascinadas para olhar aquela cena que as aterrorizava. Mrs. Thornton, as criadas, Margaret, estavam todas lá. Fanny voltara, gritando como se tivesse sido perseguida escada acima, e lançou-se no sofá, soluçando histericamente. Mrs. Thornton procurava seu filho, que ainda estava na fábrica. Ele saiu, olhou para elas – um agrupamento de rostos pálidos – e sorriu encorajador, antes de trancar a porta da fábrica. Ele então acenou para que uma das mulheres descesse e abrisse a porta da casa, que Fanny tinha fechado correndo atrás de si ao voar furiosamente para dentro. A própria Mrs. Thornton foi. E o som da voz autoritária e bem conhecida de Mr. Thornton tinha o mesmo efeito do gosto de sangue, para a multidão enfurecida lá fora. Até então eles estavam mudos, sem dizer uma palavra, precisando de todo o seu fôlego no duro esforço para demolir os portões. Mas agora, ouvindo-o falar lá dentro, levantou-se do meio deles um tal gemido de ferocidade sobrenatural, que até Mrs. Thornton ficou lívida de medo, enquanto o precedia na sala. Ele entrou um pouco excitado, mas com os olhos brilhantes, como em resposta ao toque de clarim do perigo, e com um olhar orgulhoso de desafio no rosto que lhe dava a aparência de um homem nobre, se não bonito. Margaret sempre temera que a coragem a abandonasse em uma emergência qualquer, e ela acabasse provando que era o que mais temia – uma covarde. Mas agora, nesta hora importante de razoável e verdadeiro medo, quase terror até, ela se esqueceu de si mesma, e sentiu só uma imensa compaixão – intensa até a dor – pelos interesses do momento.
