FALSO E VERDADEIRO
"A verdade não te deixará nunca, nunca!
Embora seja o teu barco conduzido pela tempestade,
Embora seja cada prancha rasgada e dilacerada,
A verdade vai estar contigo para sempre!"
Anônimo
O "suportando melhor do que o previsto" custava a Margaret um terrível esforço. Às vezes ela pensava em ceder e gritar de agonia, quando lhe vinha de súbito o dilacerante pensamento – mesmo durante a sua conversa aparentemente animada com o pai – de que ela já não tinha mãe. Sobre Frederick, também, havia grande inquietação. O correio de domingo era separado, e interferiu com as suas cartas de Londres. E na terça-feira, Margaret ficou surpresa e desanimada ao ver que ainda não havia nenhuma carta. Ela estava totalmente no escuro sobre os planos do irmão, e seu pai estava infeliz com toda essa incerteza. Interrompeu o hábito recentemente adquirido por Mr. Hale, de sentar-se imóvel em uma espreguiçadeira pela metade do dia, junto à Margaret. Ele continuava andando para cima e para baixo na sala e, depois, fora dela. Ela o ouviu no patamar, abrindo e fechando as portas do quarto, sem qualquer motivo aparente. Margaret tentou tranquilizá-lo lendo em voz alta, mas era evidente que ele não conseguia ouvir por muito tempo. Como ficou grata, então, por ter mantido em segredo a causa adicional de ansiedade produzida pelo encontro deles com Leonards. Ficou contente quando ouviu Mr. Thornton ser anunciado. A visita dele forçaria os pensamentos do pai em outra direção.
Ele veio direto para o seu pai, tomando-lhe as mãos e apertando-as sem uma palavra – segurando-as nas suas por um minuto ou dois. Durante esse tempo, seu rosto, seus olhos, seus modos, mostraram mais compaixão do que poderia ser expressa em palavras. Então ele virou-se para Margaret. Ela não parecia "melhor do que o previsto." Sua beleza imponente fora ofuscada pela insônia constante e as muitas lágrimas. A expressão no seu semblante era de tristeza suave e paciente, não de positivo sofrimento presente. Ele não pretendia cumprimentá-la senão com sua recente e estudada frieza de comportamento. Mas não pôde evitar dirigir-se a ela – que ficara um pouco à parte, retraída pela incerteza quanto às maneiras recentes dele – e dizer-lhe as poucas palavras comuns necessárias nessas ocasiões, em uma voz tão terna que os olhos de Margaret se encheram de lágrimas, e ela se virou para esconder a emoção. Margaret pegou seu trabalho e sentou-se, muito calma e silenciosa. O coração de Mr. Thornton batia forte e rápido, e naquele momento ele se esqueceu totalmente da pista ao lado da ferrovia em Outwood. Ele tentou falar com Mr. Hale e – sendo sua presença sempre um prazer para o cavalheiro, pelo seu poder e suas decisões, assim como suas opiniões o tornavam um porto seguro e protegido – foi extremamente agradável para com seu pai, como Margaret percebeu.
Naquele momento Dixon veio até a porta e disse:
– Miss Hale, desejam ver a senhorita.
Os modos de Dixon eram tão agitados, que Margaret ficou angustiada. Algo tinha acontecido a Fred. Ela não tinha nenhuma dúvida disso. Ainda bem que o pai e Mr. Thornton estavam tão entretidos na sua conversa.
– O que é, Dixon? – perguntou Margaret, assim que fechou a porta da sala de visitas.
– Venha por aqui, senhorita – disse Dixon, abrindo a porta do que tinha sido o dormitório de Mr. Hale, e agora era o de Margaret, pois o pai se recusara a dormir lá novamente depois da morte da esposa. – Não é nada, senhorita – disse Dixon, com a voz um pouco abafada – só o inspetor de polícia. Ele quer vê-la, senhorita. Mas eu ouso dizer que não é sobre nada.
