O FIM DA JORNADA
"Vejo o meu caminho como os pássaros o seu caminho sem trilhas –
Eu chegarei! A que horas, que caminho tomar primeiro,
Eu não pergunto: mas a menos que Deus envie a sua chuva de granizo
Ou ofuscantes bolas de fogo, gelo, ou neve sufocante,
Em algum tempo – seu tempo – eu chegarei;
Ele guia a mim e ao pássaro. No Seu tempo!"
"Paracelso", de Browning
Assim o inverno foi passando, e os dias começavam a se alongar, sem trazer consigo qualquer brilho de esperança que normalmente acompanha os raios de um sol de fevereiro. Mrs. Thornton tinha, naturalmente, deixado por completo de vir à casa. Mr. Thornton vinha ocasionalmente, mas suas visitas eram dirigidas ao pai, e ficavam confinadas ao estúdio. Mr. Hale falava dele como sempre o mesmo. Na verdade, a própria raridade do seu relacionamento parecia fazer Mr. Hale valorizá-lo ainda mais. E pelo que Margaret podia entender do que Mr. Thornton tinha dito, não havia nada na interrupção das suas visitas que pudesse advir de algum ressentimento ou aflição. Seus negócios haviam se complicado durante a greve, e exigiam maior atenção do que ele tinha dado a eles no inverno passado. Mais ainda, Margaret podia até descobrir que ele falava nela de vez em quando, e sempre, tanto quanto ela sabia, do mesmo modo calmo e amigável, nunca buscando e nunca evitando qualquer menção ao seu nome.
Ela não estava com espírito para melhorar o estado de ânimo do pai. A tranquilidade sombria do momento presente tinha sido precedida por um período tão longo de ansiedade e cuidados – até mesmo entremeado por tempestades – que sua mente havia perdido a elasticidade. Ela tentou encontrar ocupação ensinando as duas crianças Boucher mais novas, e trabalhou duramente por sua bondade. Trabalho árduo, para dizer a verdade, porque seu coração parecia morto ao final dos seus esforços, embora os fizesse pontual e dolorosamente. Mesmo assim, estava mais longe do que nunca de qualquer alegria – sua vida ainda parecia desolada e triste. A única coisa que ela fez bem foi o que fez fora da sua piedade inconsciente: o conforto e consolo silencioso do pai. Nenhum estado de espírito de Mr. Hale deixava de encontrar em Margaret uma disposta simpatizante. Não havia um desejo dele que Margaret não se esforçasse para prever ou realizar. Eram desejos tranquilos, por certo, e dificilmente mencionados sem hesitação e desculpas. Seu dócil espírito de obediência era o mais completo e bonito. Março trouxe as notícias do casamento de Frederick. Ele e Dolores escreveram. Ela em espanhol-inglês, como era bastante natural, e ele com algumas reviravoltas e inversões de palavras, que provavam o quanto o idioma do país da sua noiva o estava contagiando.
No verso da carta de Henry Lennox, anunciando quão pouca esperança havia de absolvê-lo perante uma corte marcial na ausência das testemunhas, Frederick tinha escrito a Margaret uma carta bem veemente, anunciando a sua renúncia à Inglaterra como seu país. Desejava nunca ter nascido ali, e declarou que ele nunca aceitaria o perdão, mesmo que lhe fosse oferecido, nem voltaria a viver no país se tivesse permissão para tanto. Tudo isso fez Margaret chorar amargamente, tão antinatural lhe parecia à primeira vista. Mas depois, refletindo, ela viu nessa expressão muito mais a crueldade da decepção que havia esmagado dessa maneira as esperanças do irmão. E sentiu que não havia outro remédio senão ter paciência. Na carta seguinte Frederick falou tão alegremente do futuro, que não havia mais nenhum pensamento do passado. E Margaret encontrou um uso para a paciência que havia desejado por causa dele. Ela teria que ser paciente. Mas as cartas de Dolores – próprias de uma menina, bonitas e tímidas – estavam começando a encantar tanto Margaret quanto o pai. A jovem espanhola estava evidentemente tão ansiosa para causar uma impressão favorável nos parentes ingleses do seu amado, que o seu cuidado feminino surgia em cada correção na escrita. E as cartas que anunciavam o casamento foram acompanhadas por uma esplêndida mantilla de renda preta, escolhida pela própria Dolores para a sua cunhada desconhecida, a quem Frederick tinha descrito como um modelo de perfeita beleza, sabedoria e virtude. Esse casamento elevou a posição de Frederick na sociedade a um nível tão alto quanto eles poderiam desejar. Barbour e Companhia era uma das maiores casas comerciais da Espanha, e Frederick passou a fazer parte dela como sócio júnior. Margaret sorriu um pouco e então suspirou, quando se lembrou novamente das suas antigas tiradas contra o comércio. Aqui estava seu preux chevalier, um irmão transformado em mercador, comerciante! Mas ela então se rebelou contra si mesma, e protestou silenciosamente contra a confusão entre um comerciante espanhol e um industrial de Milton. Bem! Com comércio ou sem comércio, Frederick estava muito, muito feliz. Dolores devia ser encantadora e a mantilha era primorosa! E então ela voltou à vida presente.
