Capítulo 38

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PROMESSAS CUMPRIDAS

"Então com orgulho, com orgulho, ela se levantou,

Apesar da lágrima em seus olhos,

Diga o que quiser, pense o que puder,

De mim não ouvirá uma palavra!"

Balada Escocesa

Não se tratava apenas de Mr. Thornton achar que Margaret tinha dito uma mentira – embora ela imaginasse que só por isso estivesse tão depreciada na sua opinião – mas do fato de que essa sua mentira, na mente dele, guardava estreita relação com algum outro amor. Ele não podia esquecer do olhar apaixonado e ardente que se passara entre ela e algum outro homem – a atitude de confiança familiar, se não de positivo afeto. Esse pensamento o atormentava perpetuamente. Era um quadro diante dos seus olhos, onde quer que fosse e o que quer que fizesse. Além disso (e ele rangeu os dentes enquanto se lembrava), era a hora, na sombra do crepúsculo, e o lugar, tão longe de casa e relativamente pouco frequentado. A parte nobre do seu ser tinha pensado, no princípio, que tudo aquilo poderia ser acidental, inocente, justificável. Mas, uma vez admitido seu direito de amar e ser amada (e ele tinha qualquer razão para negar-lhe esse direito? suas palavras não tinham sido severamente explícitas quando ela atirou longe o amor dele?), ela poderia ter sido iludida facilmente para fazer um passeio mais longo, em uma hora mais tardia do que previra. Mas aquela mentira! – que mostrava uma consciência fatal de algo errado, algo que devia ser escondido, que era contrário ao seu modo de ser. Ele fez a ela essa justiça, embora o tempo todo teria sido um alívio acreditá-la totalmente indigna da sua estima. Foi isso que fez a infelicidade – que ele a amava apaixonadamente, e pensava que ela era, mesmo com todos os seus defeitos, a mais adorável das mulheres, e superior a qualquer outra. Ainda assim, ele a julgava tão ligada a algum outro homem, tão levada por seu afeto por ele a ponto de violar sua natureza sincera. A própria falsidade que a manchava era uma prova de quão cegamente ela amava a outro – aquele homem moreno, elegante, bonito e refinado – enquanto ele era áspero, severo e de talhe rústico. Ele se flagelou em uma agonia de ciúme feroz. Pensou naquele olhar, naquela atitude! – como ele teria posto sua vida aos pés dela por tais olhares ternos, por tal possessão apaixonada! Ele zombou de si mesmo, por ter valorizado a forma mecânica com que ela o havia protegido da fúria da multidão. Agora ele tinha visto como ela parecia suave e enfeitiçada, quando estava com um homem a quem realmente amava. Lembrou-se, ponto por ponto, da agudeza das suas palavras... Não havia um homem em toda aquela multidão por quem ela não teria feito o mesmo, muito mais prontamente do que por ele. Ele compartilhara com aquela turba o desejo dela de evitar derramamento de sangue. Mas esse homem, esse amante escondido, não compartilhava com ninguém: tinha olhares, palavras, apego, mentiras, encobrimento, tudo para ele.

Mr. Thornton estava consciente de que nunca estivera, em toda a sua vida, tão irritado quanto agora. Sentia-se inclinado a dar uma resposta curta e abrupta, mais um latido do que uma fala, para qualquer um que lhe fizesse uma pergunta. Esta consciência feriu-lhe o orgulho, por ter magoado seu autocontrole. E ele iria controlar-se. Assim, dominou suas maneiras através de calma reflexão, mas o assunto era ainda mais duro e rigoroso do que o habitual. Em casa, estava mais silencioso do que de costume. Empregava suas noites em uma caminhada contínua de um lado para outro, o que teria aborrecido sua mãe excessivamente se tivesse sido praticado por qualquer outra pessoa. E não ajudava a promover alguma tolerância por parte dela, mesmo em relação a esse filho amado.

– Você pode parar? Pode se sentar por um momento? Eu tenho algo para lhe dizer, se você desistir de ficar sempre andando, andando, andando...

Ele sentou-se imediatamente, em uma cadeira virada para a parede.

Norte e Sul (1854)Onde histórias criam vida. Descubra agora