—D-dona Anastácia, c-como a senhora está? —A voz soou baixa.
—Doutor Araújo, sou eu quem lhe pergunto; o senhor foi operado... quase morreu por ter salvo a minha vida...
—Sentiu a voz embargar ao cair algumas lágrimas, e continuou;
—Eu nunca vou ter como pagar o que fez por mim.
Segurou delicadamente na mão dele, que logo percebeu seu pulso enfaixado, e olhou-a com aflição.
—Dona Anastácia... a senhora não me deve nada... —Falou devagar. —Muito pelo contrário... O que eu fiz não foi nada diante de tudo que já fez... por mim e pelo meu filho... —Suspirou antes de concluir: —E-eu não me arrependo de ter me arriscado, para salvar a senhora.
Ao ouvir aquelas palavras, Dona Anastácia engoliu em seco. Sentia-se desconfortável pela forma como vinha o tratando nos últimos dias, embora tivesse seus motivos.
Mas agora ele estava ali, correndo o risco de morrer por sua causa, e nada do que ela fizesse por aquele homem poderia pagar o que ele tinha feito por ela.
—Eu não me perdoaria se o pior tivesse passado ao senhor por minha causa... —Abaixou o olhar envergonhada. —me perdoe —Sussurrou, segurando na mão dele — eu acho que fui um pouco rude com o senhor nos últimos dias...
—Não precisa me pedir desculpas —Deu um leve sorriso —mas é bom saber que não está mais brava comigo.
Disse ele, lhe roubando um sorriso. Por um instante, ficaram em silêncio. Araújo olhou-a serenamente, ainda segurando sua mão, e Anastácia sentiu um leve rubor atingi-la, ao baixar os olhos e fitar as mãos unidas.
Afastou-se desconcertada ao ver a porta da sala se abrir, e agradeceu mentalmente por terem sido interrompidos por uma enfermeira, que veio trocar o seu soro, naquele momento.
Era uma mulher jovem de cabelos loiros e olhos esverdeados, lembrava um pouco Sandra, o que fez Araújo lembrar-se imediatamente dela e indagar rapidamente.
—A Sandra —Disse espantado — eu acabei esquecendo de perguntar por Sandra! O que aconteceu com ela?
—Fique tranquilo, doutor Araújo... Sandra já não nos fará nenhum mau.
Começou a explicar...
***
Maria havia levado Alice para ver Claudinho, que ainda estava bastante aflito pelo pai, mas um pouco mais tranquilo por saber que o pior já havia se passado.
Sarita, por sua vez, aproveitou aquele momento para ir até o hospital ficar ao lado de Dr. Araújo.
Dona Anastácia ainda encontrava-se no quarto com ele, quando a sirigaita chegou de repente.
—Araújo, como se sente, meu bem?
—Perguntou levando a mão ao rosto do homem, que não demontrara muito ânimo com a sua presença.
Anastácia afastou-se desconcertada. Não queria atrapalhar aquele momento. Então achou melhor retirar-se, para evitar um possível constrangimento entre ela e Dr. Araújo, já que sabia que Sarita não tinha os melhores modos. Ao ouvi-la dizer que os deixaria as sós, Araújo olhou-a aflito. Não era Sarita que ele queria ao seu lado, e não poder dizer isso em voz alta fez seu coração apertar.
—Estou bem —Respondeu friamente, interessado apenas em saber de Cláudio.
—Como está o Cláudio?
—Cláudio ficou desesperado quando soube, mas agora ele está mais calmo. Maria e Alice ficaram com ele, e eu aproveitei para vir aqui, vê-lo.
—Espero... poder voltar logo para casa, para ficar com meu filho.
—Eu também espero —Falou Sarita, acariciando o braço dele, que a olhou desconcertado.
—Mas e a louca da Sandra, conseguiram prendê-la novamente?
—Realmente a Sandra estava louca... A internaram em um hospício.
Sarita abriu a boca chocada com o que acabara de ouvir.
***
Os dias no hospital não foram muito fáceis para o Dr. Araújo. O advogado acabou tendo algumas complicações no pulmão que fora perfurado pela tesoura, e com isso precisou ficar quase duas semanas no oxigênio, deixando a todos preocupados, principalmente seu filho e Dona Anastácia.
Mas para o alívio de todos, depois de mais alguns dias, o médico foi avisar que ele já poderia voltar para casa, já que estava tendo uma boa recuperação.
Naquele mesmo dia, Dona Anastácia o surpreendeu ao lhe fazer um pedido:
—Doutor Araújo, eu sei o quanto está ansioso para voltar logo para sua casa...
—Falou, se aproximando mais da cama, e ficando ao lado dele. —Mas eu tenho um pedido a fazer-lhe, e gostaria muito que o senhor aceitasse.
Araújo a olhou interrogativo, e sentiu sua mão ser segurada com firmeza.
—Um pedido? —Ele indagou com ar curioso, e ela respondeu:
—Isso! —Suspirou, antes de prosseguir: —Bom, eu gostaria que o senhor ficasse em minha casa durante a sua recuperação.
Araújo a olhou surpreso. Jamais esperou por aquele pedido, e não podia negar que havia gostado da ideia, assim poderia estar mais perto dela. Mas também não queria incomodar, e muito menos que ela sentisse a obrigação de cuidar dele. Como ele já havia lhe dito; Ela não lhe devia nada.
Será que deveria aceitar?
—Se perguntou ainda sem reação.
