Quando o coração se cala

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Na manhã seguinte, Araújo conseguiu, ao menos, tomar o café da manhã em paz ao lado de Cláudio. Sarita ainda dormia e só apareceu quando pai e filho já haviam deixado a mesa.
Pouco depois, Sarita entrou na sala ainda usando o traje de dormir. Parecia completamente à vontade, como se já se sentisse em casa, e estranhou ao encontrar Araújo à sua espera.

— Vá se trocar. Já chamei um táxi. Daqui a pouco iremos ao consultório do doutor Lauro.
— Sarita sentiu o coração disparar.

— Ao... consultório?

— Sim. Como havíamos combinado. Quero que ele a examine.
Por um instante, o chão pareceu lhe fugir dos pés.

E se ela não estivesse grávida?

A lembrança de um atraso das regras que tivera algum tempo antes voltou-lhe à memória. Na ocasião, tudo não passara de um desajuste passageiro. Mas agora precisava que fosse diferente. Caso contrário, todo o seu plano estaria perdido.

Ela respirou fundo antes de arriscar:

— Acho que é melhor esperar mais alguns dias... é que talvez ainda...

— Não vejo motivo para adiar.

Sarita ficou parada por alguns instantes, como se ainda esperasse que ele mudasse de ideia. Mas quando percebeu que não tinha alternativa, saiu em direção ao quarto, para se trocar.

Algum tempo depois, o táxi parou em frente ao consultório de Dr. Lauro. Ao marcar a consulta, Araújo já havia contado ao amigo tudo o que acontecera. Lauro os recebeu sem julgamentos e conduziu Sarita à sala de exames, enquanto Araújo aguardava no corredor.

Os minutos pareceram longos.
Quando a porta finalmente se abriu, o médico chamou:

— Araújo... pode entrar um momento, por favor.
Assim que ele entrou, Lauro foi direto ao assunto.

— Tudo indica que ela possa estar grávida. O atraso das regras, os sintomas que ela relata e o exame são compatíveis com o início de uma gestação. Mas ainda é muito cedo.
— Araújo franziu a testa.

— Então ainda não pode confirmar?

— Prefiro não lhe dar uma certeza antes do tempo. Vamos aguardar mais algumas semanas e repetir o exame. Se necessário, recorreremos também a um exame laboratorial. Só assim poderemos ter um diagnóstico definitivo.
Araújo assentiu lentamente.

— Entendo. Obrigado pela sinceridade, Lauro.
O médico voltou-se para Sarita.

— Até lá, procure repousar, alimentar-se bem e evitar preocupações desnecessárias. Se realmente estiver grávida, isso será importante para a senhora e para a criança.

— Sim, doutor.
Por dentro, porém, Sarita respirou aliviada. Seu plano permanecia de pé.

"Agora Araújo não terá escolha...
Enquanto acreditar que carrego um filho seu, fará de tudo para me proteger.
Agora ele estará em minhas mãos."

Pouco depois, os dois deixaram o consultório em silêncio, cada um mergulhado em pensamentos muito diferentes.

***

Mais tarde, Celso voltou da fábrica e encontrou Anastácia sentada em silêncio na sala.

— Titia, como a senhora está? — Ela ergueu um sorriso discreto.

— Estou bem, meu querido. E você? Como foi o dia na fábrica?

— Tudo correu bem. Os trabalhos continuam seguindo como esperado.
Anastácia sorriu, satisfeita.

— Fico feliz em saber.
Celso observou a tia por alguns instantes. Então se sentou ao seu lado, e olhou-a com serenidade.

— Mas a senhora não me parece muito tranquila.
— Ela baixou os olhos por um momento.

O PerdãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora