A noite já havia caído quando o silêncio voltou a tomar conta da Mansão.
Depois de um dia tão difícil, Anastácia finalmente recolhera-se aos seus aposentos. Após o funeral de Sandra, Araújo, Emma e Dr. Lauro os acompanharam de volta para casa, mas, percebendo o cansaço estampado em seus rostos, despediram-se logo em seguida para que ela e Celso pudessem descansar.
Ainda conseguia ouvir, como se ele estivesse diante dela, a voz serena de Araújo pedindo-lhe com a delicadeza de sempre, que tentasse repousar um pouco.
Sorriu discretamente ao recordar aquele instante. Também não lhe escaparam os olhares curiosos de Emma durante toda a tarde. Antes de partir, a amiga lhe prometera que voltaria nos próximos dias para lhe fazer uma visita. Anastácia conhecia Emma bem demais para não compreender o verdadeiro motivo daquela promessa.
Ela havia percebido.
Talvez não soubesse exatamente o que acontecera entre ela e Araújo nos últimos dias, mas certamente desconfiava de que algo havia mudado.
Anastácia suspirou.
Seria cada vez mais difícil esconder seus sentimentos da amiga. Ainda assim, preferia mantê-los em silêncio por mais algum tempo. Não por falta de confiança, mas porque seu próprio coração ainda buscava respostas. Não queria ouvir conselhos sobre um caminho que nem mesmo sabia se poderia seguir.
Com a cabeça apoiada sobre o travesseiro, fechou os olhos por um instante, as lembranças da biblioteca voltavam com força.
As palavras... Os olhares... O calor de seus braços... Os beijos...
Sentia o coração apertar ao recordar a voz de Araújo junto ao seu rosto...
"Eu vejo em seus olhos aquilo que seus lábios ainda não conseguem dizer..."
Depois, outra lembrança.
" Diga-me apenas uma coisa...
... eu ainda sou apenas um amigo para a senhora...? "
E, por fim, a promessa que ainda ecoava dentro dela.
"Se a senhora permitir... eu enfrentarei qualquer obstáculo. Esperarei o tempo que for preciso. Lutarei por esse sentimento até o fim, porque agora sei que ele pertence a nós dois."
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Uma lágrima silenciosa molhou o travesseiro.
Seu coração já não conseguia negar o que sentia. Mas, ao mesmo tempo, a imagem de Sarita surgia diante de seus pensamentos, trazendo consigo todas as dúvidas que insistiam em separá-los.
Respirou profundamente.
— O que será de nós...? — Murmurou para si mesma.
Aquela pergunta permaneceu sem resposta.
...
Naquele mesmo instante, Araújo também permanecia acordado. A noite parecia longa demais para quem carregava o coração tão desperto.
Sentado na poltrona próxima à janela, observava distraidamente a chuva calma cair, incapaz de encontrar o sono.
Fechou os olhos, quase sem perceber.
E, mais uma vez, Anastácia tomou conta de seus pensamentos.
Ainda conseguia sentir a delicadeza de suas mãos tocando seu braço. O calor daquele abraço. A suavidade de seus lábios. O perfume delicado que permanecera em sua memória como se ela ainda estivesse ali.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Eu sabia... — Pensou consigo mesmo. — Meu coração não estava enganado.
Respirou fundo.
Durante tanto tempo acreditara amar sozinho. Mas, naquele dia ela finalmente lhe dera a resposta que esperara por tantos dias.
"Sim... muita coisa mudou..."
"Eu tentei acreditar que era apenas carinho... admiração... mas já não consigo."
"Sinto falta da sua presença... mais do que deveria."
Fechou os olhos novamente.
Aquelas palavras bastavam para lhe devolver a esperança. Entretanto, quase no mesmo instante, outra lembrança apagara parte daquele sorriso.
"Ainda não..."
"Essa história mudou tudo..."
"Sarita continua sob o mesmo teto que o senhor."
Araújo abriu os olhos lentamente. O semblante tornou-se sério.
Já não podia adiar aquela situação.
— Eu preciso resolver isso... — Murmurou para si mesmo.
Levantou-se da poltrona e caminhou lentamente pelo quarto.
— Não posso permitir que Sarita continue vivendo sob o mesmo teto que meu filho... nem que tente me prender a uma relação construída apenas sobre uma obrigação.
Parou diante da janela. A neblina continuava caindo.
— Eu conheço Sarita... sei até onde ela é capaz de ir quando decide conseguir alguma coisa. — Respirou fundo.
Havia algo naquela história que insistia em não fazer sentido.
Desde o primeiro instante, seu coração recusava-se a acreditar.
— Não sei explicar por quê... mas algo me diz que essa criança... não é minha.
Seu olhar perdeu-se na escuridão da noite.
Se quisesse ter alguma chance de viver o amor que finalmente descobrira ser correspondido, precisaria, antes de tudo, encontrar a verdade.