Fofocas

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Assim que a porta do quarto se fechou, Araújo deixou escapar um leve sorriso. Não podia negar que aquele gesto, tão protetor e ao mesmo tempo tão íntimo, o havia tocado profundamente.

"Eu não suportaria se algo ruim lhe acontecesse outra vez."

"Eu não quero perdê-lo."

As palavras de Anastácia ainda ecoavam em sua mente... Talvez, ela apenas não suportasse a ideia de perder sua amizade,  talvez fosse somente o carinho sincero que sempre sentira por ele... Mas ainda assim, ouvir aquilo aqueceu algo dentro de seu peito que ele já não conseguia controlar.

Lembrou-se do desespero dela na noite em que Sandra o feriu. E mais uma vez, só de pensar que poderia ter sido ela a sair ferida naquela noite, ou que o pior poderia ter lhe acontecido,  sentiu um aperto doloroso no peito.

E mais uma vez se perguntou: como um dia fora capaz de machucá-la daquela maneira?

Por mais arrependido que estivesse, aquela culpa ainda pesava em seu peito. Anastácia o havia perdoado de coração, disso ele sabia. Mas ele próprio talvez nunca fosse capaz de se perdoar completamente.

A verdade, é que seu coração tinha sido ousado demais ao se apaixonar por Anastácia depois de todo o mal que lhe causara. Ele não merecia aquele cuidado. Aquela dedicação, muito menos a ternura que ela insistia em lhe oferecer mesmo depois de tudo. Às vezes, sequer acreditava merecer sua amizade… imagine então o seu perdão...
O seu amor.

Como poderia alimentar esperança de que uma mulher como Dona Anastácia um dia pudesse corresponder aos seus sentimentos?

Era impossível.

E mesmo que um dia, aquele sentimento viesse a ser correspondido, Anastácia não podia assumir algo com um homem como ele. Um homem que havia traído sua confiança... que fora amante de sua sobrinha... que fora preso por ter lhe dado um golpe... A sociedade jamais esqueceria seu passado...

Uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto do advogado.
O que faria com aquele amor agora, se já não era capaz de arrancá-lo do coração?

E como seria capaz de ficar longe mais uma vez de Anastácia?

Havia prometido permanecer ao lado dela até o último dia de sua vida...
E essa, pelo menos, era uma promessa que pretendia cumprir.

***

No dia seguinte, na loja de Emma, Seu Osório organizava algumas peças na vitrine quando viu duas senhorinhas se aproximarem, cochichando discretamente. Bastou observar por alguns segundos para perceber que o assunto era Dona Anastácia.
Curioso como sempre, tratou logo de apurar os ouvidos, antes de voltar até o balcão, bastante interessado em receber aquelas duas clientes...

— Como ela pôde perdoar aquele traidor… e ainda teve coragem de levá-lo para cuidar dentro de sua própria casa… —Comentou uma das senhoras, indignada.

Havia descoberto a novidade através de Sarita, que estivera em sua casa naquela manhã para buscar uma encomenda de sua avó.

— Eu o deixaria apodrecer na cadeia! — respondeu a outra, balançando a cabeça em reprovação.
Seu Osório imediatamente se meteu na conversa:

— Estão a falar do Dr. Araújo? Porque acho que as senhoras não sabem da história inteira... — Disse o rapaz, inclinando-se um pouco sobre o balcão

— Primeiro que Dona Anastácia sempre teve um bom coração... E segundo, o Dr. Araújo salvou a vida dela das mãos da sobrinha. Se não fosse ele, talvez Dona Anastácia nem estivesse viva agora. Cuidar dele e do menino nesse momento é uma bela forma de agradecer por isso.

O PerdãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora