A noite já envolvia a casa quando Anastácia, quase sem perceber o que fazia, deteve-se diante da porta do quarto que doutor Araújo ocupara durante aqueles dias. Permaneceu imóvel por um instante. Então, com um leve hesitar, abriu a porta.
Entrou em silêncio.
O quarto permanecia exatamente como antes, mas agora havia um vazio que tornava tudo diferente. Bastou atravessar o cômodo para que as lembranças daqueles dias voltassem uma após outra.
Aproximou-se da cama e, num gesto quase instintivo, passou a mão sobre um dos travesseiros. Em seguida, tomou-o nos braços e o apertou contra o peito. Por um instante, a sensação foi a mesma de estar novamente envolvida pelo abraço dele no jardim. Fechou os olhos, enquanto o perfume suave que ainda permanecia no tecido a fazia reviver aquela lembrança.
"Essa distância... também não está sendo fácil para mim."
"Eu só quero que a senhora saiba... que eu ainda estou aqui."
"E, se a senhora quiser... eu não vou me afastar."
Por um breve instante, permitiu-se permanecer naquela doce recordação. Mas, logo depois, outra imagem se impôs.
Viu novamente Sarita aproximar-se dele e, com toda a naturalidade, erguer a mão para ajeitar-lhe a gola da camisa.
Lembrou-se de que ele afastara sua mão, deixando claro que não desejava aquela proximidade. Ainda assim, suas palavras voltavam à sua memória, insistentes, como um eco de uma preocupação que ela não conseguia ignorar.
"Se não estiver se sentindo bem, é melhor voltar para dentro e descansar. Foi isso que o doutor Lauro recomendou."
Anastácia abaixou lentamente a cabeça. Talvez aquele vínculo jamais pudesse ser desfeito. Uma lágrima deslizou lentamente por seu rosto. Apertou o travesseiro com mais força contra o peito. Seu coração insistia em guardar aquele sentimento, mas acreditava que precisava arrancá-lo de si antes que fosse tarde demais.
Permaneceu assim durante alguns minutos, em silêncio, até conseguir recompor-se.
Então, enxugou delicadamente a única lágrima que lhe escapara. Depois, colocou o travesseiro exatamente no lugar onde o encontrara.
E saiu.
Ao fechar a porta, respirou fundo.
Precisava encontrar forças para seguir em frente e enfrentar os dias que viriam, ainda que seu coração permanecesse, em silêncio, do outro lado daquela porta.
***
Naquela mesma noite, depois de ler uma história para o filho e vê-lo adormecer tranquilamente, Araújo recolheu-se aos seus aposentos. O silêncio da casa lhe trazia uma rara sensação de paz após um dia exaustivo.
Ao abrir a porta do quarto, porém, ficou imóvel.
Sarita estava deitada sobre sua cama, esperando por ele. A expressão confiante em seu rosto deixava claro que aquela situação havia sido cuidadosamente planejada.
— Boa noite, Araújo... — Ele permaneceu imóvel, tomado pela surpresa.
— O que significa isso? — Ela apenas sorriu, como se a resposta fosse óbvia.
Como ele não deu um único passo em sua direção, Sarita deixou a cama devagar e caminhou até ele. Parou a poucos centímetros de distância.
— Olhe para mim, Araújo. Você não precisa passar mais uma noite sozinho... Ele permaneceu em silêncio.
Ela então, ergueu as mãos e envolveu delicadamente seu pescoço, obrigando-o a encará-la.
— Eu sei que você sente falta de uma mulher na sua cama... — Sussurrou, fitando os lábios dele ousadamente — Um homem não esquece essa necessidade. Ele segurou os pulsos dela devagar, e tentou afastá-la.
— Sarita... saia daqui. Ela sorriu, convencida de que a resistência dele não duraria muito tempo.
— É isso mesmo que você quer, Araújo...? Ainda há de resistir a mim?
Num gesto impulsivo, deixou a camisola escorregar pelos ombros e cair aos seus pés.
A cena o atingiu como um choque.
Por um breve instante, Araújo ficou imóvel, quase sem ar diante da ousadia de Sarita. Era um homem e, como qualquer homem, não era imune ao impacto de se ver, de forma tão inesperada, diante de uma mulher praticamente sem roupa, oferecendo-se daquela maneira.
O choque foi inevitável.
Mas bastou um único segundo.
Ergueu o rosto rapidamente e voltou a encará-la.
Naquele instante, seu pensamento foi direto para Anastácia. Enquanto uma despertava nele respeito, admiração e um sentimento que jamais conhecera, a outra acreditava que poderia conquistá-lo apenas oferecendo o próprio corpo.
Não.
Aquela não era a mulher que ocupava seus pensamentos. Não era a mulher com quem sonhava dividir a vida, nem aquela que desejava ter nos braços e amar por todos os dias de sua existência.
E não seriam algumas horas de prazer que o fariam trair os próprios sentimentos ou esquecer a mulher que já havia conquistado seu coração.
Quando tornou a olhar para Sarita, não havia mais qualquer hesitação em seu semblante. Restava apenas o desprezo pela maneira como ela tentava seduzi-lo, acreditando que isso seria suficiente para conquistá-lo.
E ele não era mais aquele homem vulnerável às próprias fraquezas. Havia encontrado um sentimento forte demais para se deixar levar por uma atração passageira.
A decisão estava tomada.
Sarita sorriu, convencida de que havia vencido. Permaneceu imóvel, esperando que ele diminuísse a distância entre os dois. O coração acelerou ao sentir o rosto dele tão próximo.
Por um breve instante, o olhar de Araújo permaneceu indecifrável.
Então, ergueu as mãos e tornou a segurar os pulsos dela. Seus olhos permaneceram fixos nos de Sarita, duros, sem o menor vestígio da hesitação que ela esperava encontrar.
— Você continua acreditando que a sedução é capaz de resolver tudo. Mas desta vez, não vai conseguir o que quer... O que aconteceu naquela noite, foi um erro que não voltarei a cometer.
Ele afastou os pulsos dela, sem machucá-la, porém com firmeza.
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O sorriso dela começou a desaparecer.
Após apanhar o roupão sobre a poltrona e devolver a ela, Araújo apontou para a porta.
— Agora vista-se e saia do meu quarto.
Sarita o encarou, incrédula.
— Você ainda vai se arrepender... Um dia, há de implorar pelo meu amor. Eu juro!
Araújo não respondeu. Apenas abriu a porta, mantendo a expressão séria e o olhar firme.
Sarita vestiu o roupão e, ao passar por ele, lançou-lhe um último olhar carregado de frustração.
Então saiu.
Quando a porta se fechou, Araújo respirou profundamente e passou a mão pelo rosto.
A lembrança de Anastácia permanecia viva em seu coração.
E naquele instante, teve ainda mais certeza de que nenhuma armadilha seria capaz de afastá-lo da mulher que realmente amava.