Pequenos gestos, doce cuidado, e um lindo sonho...

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Na manhã seguinte, antes de descer para tomar café, Anastácia decidiu finalmente — após angustiantes minutos pensativa naquele corredor, diante do quarto de Araújo —, saber como ele tinha acordado.

Precisava saber como ele estava depois da noite difícil que tivera. Aquela falta de ar,  quase a fizera perder o chão outra vez. Mas, ao mesmo tempo, havia aquele desconforto estranho entre os dois agora.

Após a conversa da tarde anterior em seu escritório, depois da maneira sincera e dolorosa como Araújo finalmente confessara o que sentia por ela… tudo parecia diferente.
Mais delicado. Mais difícil, para ser clara.

Anastácia já não sabia exatamente como agir perto dele sem acabar tornando as coisas ainda mais difíceis entre os dois.

Talvez ele preferisse um pouco de distância agora. Talvez estivesse arrependido de ter falado demais... Ou apenas tentando respeitar o espaço dela depois de tudo o que acontecera.

Mas não podia... não seria capaz de ignorá-lo naquele momento tão delicado... Ainda mais estando ele em sua casa... Sob os seus cuidados... Embora começasse a perceber, com uma pontada de culpa por pensar aquilo — , que trazê-lo para se recuperar em sua casa, talvez, não tivesse sido a melhor solução... não que Araújo tivesse se tornando um peso para ela... Isso jamais. A verdade era que… agora que sabia dos sentimentos dele por ela, não conseguia mais ignorar o quanto tudo entre os dois havia mudado. E só de pensar nisso, um leve aperto lhe veio ao peito. Porque não queria lhe causar mais sofrimento... e ainda assim, era exatamente assim que às vezes se sentia: alguém tentando cuidar dele enquanto, sem querer, também o feria.

Respirando fundo discretamente, ela bateu de leve na porta.

— Doutor Araújo?
Houve alguns segundos de silêncio, antes que a voz dele viesse baixa do outro lado.
Quase inaudível.

— Pode entrar, Dona Anastácia.

Anastácia abriu a porta devagar e entrou no quarto ainda um pouco desconcertada, embora mais preocupada em saber como ele se sentia naquela manhã.

Araújo estava sentado numa poltrona confortável perto da janela, usando os óculos de leitura enquanto lia o jornal trazido por Quitéria, junto ao café da manhã.

Ao perceber a presença dela, abaixou o jornal discretamente.
— Dona Anastácia… — cumprimentou baixo.
Ela respondeu com um pequeno aceno, aproximando-se devagar.

Mas antes mesmo de dizer qualquer coisa, seus olhos acabaram caindo sobre a bandeja deixada por Quitéria.
Anastácia observou que a bandeja estava quase intocada, denunciando que ele mal havia conseguido se alimentar naquela manhã.

O coração dela apertou discretamente.

— Vejo que mais uma vez, o senhor mal tocou na comida... — murmurou ela, num tom mais baixo.

Araújo ergueu os olhos constrangido ao perceber que ela havia notado.

— Eu... na verdade só estava um pouco enjoado devido os remédios que tomei ontem a noite, mas está tudo bem, creio que logo meu apetite há de voltar ao normal...

Ela respirou fundo, já se aproximando da bandeja.

— Doutor Araújo, o senhor precisa se alimentar direito.
Ele tentou sustentar um pequeno sorriso.

— Estou bem, Dona Anastácia. Foi só um pequeno enjoo mesmo...

Mas ela já se aproximava da mesinha, ajeitando a bandeja naturalmente, de forma cuidadosa e quase maternal, para lhe roubar mais um sorriso discreto.

— Mesmo assim, precisa comer um pouco... se ficar de estômago vazio, só aumentará mais esse enjoo... — disse com suavidade. — Dr. Lauro foi muito claro sobre isso...

O PerdãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora