Entre papéis e silêncio

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Após a última conversa que tivera com Araújo em seu escritório, Anastácia mergulhara ainda mais no trabalho, como se a rotina pudesse silenciar os sentimentos que insistiam em ocupar seu coração.

O que ela não imaginava era que, justamente naquela tarde, Araújo voltaria à Aroma.

Durante a consulta que fizera naquela manhã, depois de muita insistência, doutor Lauro finalmente autorizara o advogado a retomar suas atividades. A recomendação, porém, fora clara: deveria evitar qualquer esforço desnecessário e voltar à rotina com cautela.

Contudo, ele preferiu não avisar Anastácia com antecedência. Conhecendo-a como conhecia, sabia que sua preocupação falaria mais alto e que ela provavelmente insistiria para que permanecesse mais alguns dias em casa.
Melhor seria conversar pessoalmente quando chegasse à fábrica.

Depois de pegar sua pasta e conferir se não havia esquecido nenhum documento importante, Araújo aproximou-se do filho e beijou-lhe carinhosamente a testa.

— Comporte-se para Dona Antônia, meu filho.

— Pode deixar, papai!

Antônia fizera questão de permanecer com o menino. Aquilo dava a Araújo a tranquilidade necessária para voltar ao trabalho sem se preocupar com o filho, enquanto não encontrava uma babá de sua inteira confiança para cuidar de Claudinho durante sua ausência.

Após vestir o paletó, pegou a pasta e caminhou em direção à porta. Mas, antes que saísse, Sarita apressou o passo para alcançá-lo.

— Até logo, Araújo... E se cuide!
Ele apenas fez um breve aceno com a cabeça.

— Obrigado.

Sem lhe dirigir outro olhar, voltou sua atenção para Cláudio, e sorriu discretamente para o filho antes de deixar a casa.

Sarita acompanhou sua saída em silêncio. Para ela, aquele afastamento era apenas passageiro. Araújo estava aborrecido porque não esperava a gravidez, mas assim que aceitasse a ideia de formar uma família, ela tinha certeza de que voltaria a olhá-la como antes.

Um discreto sorriso surgiu em seus lábios.

Convencida de que era apenas uma questão de tempo, afastou de vez qualquer dúvida que pudesse ter sobre seus planos.

***

Pouco depois, o automóvel de Araújo cruzou os portões da Aroma e parou em seu lugar de costume. Ele estacionou, pegou a pasta e descera do carro com um discreto sorriso. Depois de tantos dias afastado, era uma alegria voltar à fábrica.

Assim que entrou, fora recebido com entusiasmo pelos funcionários. Muitos fizeram questão de cumprimentá-lo e dizer o quanto estavam felizes em vê-lo recuperado.

Araújo agradecera o carinho de todos e, depois de trocar algumas breves palavras, seguiu pelos corredores em direção ao escritório de Anastácia.

***

A porta estava entreaberta. Lá dentro, Anastácia analisava alguns relatórios de produção ao lado de Celso. Os dois conferiam os pedidos que seriam enviados aos distribuidores e discutiam os últimos detalhes de uma nova remessa de sabonetes. Apesar da confiança que depositava em seus funcionários, ela fazia questão de acompanhar de perto tudo o que dizia respeito à Aroma.

O PerdãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora