Três dias depois...
A casa inteira já estava mergulhada no silêncio, quando Dr. Araújo desistiu de tentar dormir.
Virou-se de um lado para o outro na cama por longos minutos, mas o sono simplesmente não vinha. Levantou-se devagar e saiu discretamente para o jardim. Caminhou sem rumo entre as árvores, até parar diante do gramado iluminado pelo luar.
Mantinha os olhos voltados para as estrelas, como se procurasse alguma resposta entre elas.
Desde que Claudinho lhe contara o sonho com a mãe, aquelas palavras não lhe saíam da cabeça.
" Vocês vão estar sempre juntos... "
— Fechou os olhos por alguns segundos, enquanto pensava em Anastácia. No carinho sincero por seu filho, na maneira como ela se preocupava com ele, e também no cuidado que sempre tivera com os dois...
Como seria difícil quando ela já não estivesse ali... Embora, seu coração já apertasse, com a distância, que começava a se formar entre eles.
Ao abrir os olhos novamente, percebeu que uma estrela brilhava intensamente, sob o céu escuro...
Ele a contemplou por longos minutos.
Tinha quase certeza de que era a mesma estrela que Claudinho costumava admirar da janela de seu quarto, convencido de que era sua mãe, que velava por ele lá do céu.
— Por que você nos deixou tão cedo? — Sussurrou, quase sem perceber. A voz embargada.
Havia muito tempo que não fazia aquela pergunta. Aprendera a conviver com a dor da perda porque precisava seguir em frente por Claudinho. Fora o filho quem lhe dera forças para continuar vivendo. Ainda assim, doía pensar que o menino crescera sem conhecer a própria mãe e carregava em seu coraçãozinho, o desejo de tê-la ao seu lado.
Uma lágrima escorreu por seu rosto, sem que se desse conta.
Naquele mesmo instante, Anastácia também permanecia acordada. Tentara fechar os olhos mais de uma vez, mas o sono insistia em não chegar. Resolveu então ir até à varanda do quarto, imaginando que o ar fresco da noite talvez lhe trouxesse algum descanso.
Ao olhar para o jardim, avistou uma figura imóvel sob o luar.
Reconheceu Dr. Araújo imediatamente e, sem poder evitar, uma pontada de preocupação invadiu seu peito.
Sem fazer barulho, vestiu um casaco leve sobre as roupas de dormir, e desceu as escadas com passos silenciosos. Quando já estava próxima, ele percebeu sua presença. Discretamente, passou a mão pelo rosto, e rapidamente tentou esconder a tristeza em seus olhos.
— Dona Anastácia... a senhora ainda está acordada? — Ela se aproximou devagar.
— Eu ia lhe fazer a mesma pergunta. Está tudo bem com o senhor? — Indagou calmamente, embora seus olhos demonstrassem preocupação.
— Está tudo bem, eu... só estava sem sono. —respondeu, um pouco desconcertado — Achei que um pouco de ar fresco me faria bem.
Anastácia o observou em silêncio, e embora aquela resposta não lhe fora tão convincente, decidiu não insistir.
— Peço desculpas se eu a acordei... não foi minha intenção...
— Não, o senhor não acordou-me — Ela balançou a cabeça ao responder suavemente. — na verdade, eu também não estava conseguindo dormir.
Ele a olhou com atenção.
— Aconteceu alguma coisa? — Havia uma preocupação sincera em sua voz.
Anastácia baixou os olhos por um instante.
— Sim... quer dizer... na verdade... há algo que tem me preocupado, e eu não posso esconder do senhor. — Dr. Araújo esperou pacientemente.
— O que está lhe preocupando? — Anastácia respirou fundo.
