Assim que Quitéria saiu, Anastácia ajudou Araújo a se sentar devagar na cama.
— Tente respirar devagar... por favor...
Ele fechou os olhos por um instante, tentando obedecer. Anastácia observou o modo como o peito dele subia com dificuldade sob a camisa ainda fechada.
Hesitou por um momento antes de falar, visivelmente constrangida.
— Doutor Araújo... me perdoe a liberdade... mas talvez o senhor respire melhor se eu abrir um pouco sua camisa.
Os olhos dele tornaram a encontrá-la por um breve instante. Mesmo abatido, algo naquele olhar pareceu surpreso.
Mas ele apenas assentiu, sem forças para responder.
Anastácia aproximou-se devagar... As mãos trêmulas tocaram o primeiro botão da camisa dele com bastante cuidado, quase como se temesse ultrapassar algum limite que vinha tentando evitar a muitos dias... Depois o segundo. E então mais um.
O simples gesto acabou criando uma proximidade inesperadamente íntima entre eles...
Era a primeira vez que via uma parte de seu peito, tão de perto.
O calor do corpo dele tão próximo, a pele masculina exposta, bem diante de seus olhos... a respiração ainda irregular... tudo aquilo fez Anastácia prender a própria respiração por um instante, sentindo a bochecha esquentar levemente.
Araújo percebeu.
Mesmo naquela situação, não conseguira evitar sentir algo estremecer dentro de si ao vê-la tão próxima, tão delicada, cuidando dele daquela maneira. Mas disfarçou imediatamente, fechando os olhos por um instante e tentando recuperar o fôlego.
— Assim está melhor? — Perguntou ela baixinho.
Ele demorou um segundo antes de responder:
— Um pouco... — A voz rouca fez o coração dela apertar ainda mais.
Anastácia afastou as mãos devagar, embora por dentro tivesse a estranha sensação de que aquele breve toque permanecia entre os dois.
Depois de alguns minutos, Araújo finalmente começou a respirar um pouco melhor. Ainda assim, continuava abatido.
Anastácia olhou em direção à mala pronta, e ao encontrar seus olhos novamente, o silencio entre eles pesou mais uma vez.
Anastácia engoliu discretamente em seco, antes de falar.
— O senhor ia embora... — disse quase num sussurro.
Araújo fechou os olhos por um instante, cansado.
— Achei que fosse o melhor.
Aquelas palavras apertaram o coração dela.
Mas antes que pudesse responder, ouviram batidas na porta.
Doutor Lauro entrou no quarto. Para alívio de Anastácia, a casa do médico ficava a poucos minutos dali, e como o doutor Lauro era bastante atencioso com seus pacientes, assim que recebera a ligação de Quitéria, saíra imediatamente para atendê-los.
— Graças a Deus o senhor chegou... ele passou mal há poucos minutos — Disse Anastácia, nervosa.
O médico aproximou-se imediatamente e começou a examiná-lo. Depois de alguns instantes, suspirou pesadamente.
— Eu imaginei que isso pudesse acontecer.
Anastácia ergueu os olhos preocupada.
— O que ele tem?
— O senhor ainda está debilitado da cirurgia no pulmão — Respondeu doutor Lauro seriamente.
— E eu fui muito claro quando disse que
precisava evitar esforços e preocupações...
— Continuou, observando que havia uma mala arrumada sobre o elegante Recamier estofado.
