O corredor da UTI parecia mais silencioso do que de costume. Celso permanecia imóvel diante da porta por alguns segundos. Sentia as pernas vacilarem. Nunca imaginara que pisaria naquele hospital para se despedir da própria irmã.
Respirou fundo e entrou.
Assim que seus olhos encontraram Sandra, o mundo pareceu parar. Ela estava deitada, cercada por aparelhos. O rosto, antes marcado pela vaidade, agora trazia as profundas marcas das queimaduras. Grande parte dele estava coberta por curativos, deixando apenas alguns traços reconhecíveis.
Celso sentiu um nó apertar-lhe a garganta, enquanto aproximava- se lentamente do leito.
Com extremo cuidado, envolveu a mão da irmã entre as suas.
— Sandra... — A voz quase não saiu.
Precisou respirar outra vez para conter as lágrimas. Não queria que ela o visse chorando.
Após alguns instantes, Sandra moveu levemente as pálpebras. Ao reconhecer aquela voz tão familiar, abriu os olhos com dificuldade.
— M-meu... irmãozinho... — Um fraco sorriso surgiu em seus lábios.
Celso sorriu entre as lágrimas.
— Estou aqui... minha irmã. — Sandra respirava com esforço.
Cada palavra parecia exigir dela uma força que já não possuía.
— Titia... ela... não veio?
— Veio, sim. Ela está aqui no hospital. Só não pôde entrar comigo. Daqui a pouco estará ao seu lado.
Sandra fechou os olhos por um instante, como se aquela resposta lhe trouxesse um pouco de tranquilidade. Quando tornou a abri-los, fitou o irmão demoradamente.
— Celso... me escute... — Ele apertou delicadamente sua mão.
— Estou ouvindo.
— E-eu... não tenho... muito tempo...
— Não fale assim...
Ela fez um leve movimento negativo com a cabeça. Já não havia mais espaço para ilusões.
— E-eu... só queria que você soubesse... que eu nunca deixei de te amar... — As lágrimas finalmente venceram Celso. Ele aproximou ainda mais o rosto.
— Eu sempre soube disso, Sandra. — Ela respirou fundo, com dificuldade.
— Mesmo... quando eu errava... você nunca deixou... de ser meu irmão... Eu fui egoísta... orgulhosa... m-mas... nunca deixei de amar você...
Celso acariciou seus cabelos com extremo cuidado.
— Não precisa falar mais nada. — Sandra insistiu.
— Preciso... — Sua voz saiu quase num sussurro.
— Preciso... lhe pedir perdão...
Ela fechou os olhos por alguns segundos antes de continuar.
— Perdoe-me... por tantas vezes... tentar destruir... a sua felicidade ao lado de Maria...
Uma lágrima escorreu pelo canto de seus olhos.
— Hoje vejo... o quanto fui egoísta... — Celso chorava em silêncio.
Jamais imaginara ouvir aquelas palavras.
— Agora... eu só desejo... que vocês sejam felizes... — Por um instante, mesmo em meio à dor, seu coração encontrou algum consolo.
Sandra finalmente estava em paz consigo mesma.
— Pode descansar, minha irmã — Ele sorriu entre as lágrimas. Sua voz saiu embargada.
— Não há mais nada para perdoar.
Aproximou-se cuidadosamente e beijou-lhe a testa.
— Eu também nunca deixei de amar você. — Fez uma breve pausa. — E vou amá-la para sempre... minha irmãzinha.
Sandra fechou os olhos, emocionada. Um discreto sorriso iluminou seu rosto marcado pelo sofrimento. Pouco depois, tornou a chamá-lo.
