—A verdade é que... —Ela afastou as mãos devagar, e passou-as pelo rosto de forma tensa — eu estou a me sentir um tanto atormentada com as lembranças de Sandra, na noite em que ela esteve aqui...
—Suspirou, fechando os olhos com pesar.
—Só de pensar que o senhor quase morreu por minha causa, eu fico...
—Calma... —Sussurrou ele, tentando confortá-la, enquanto lhe oferecia um abraço.
— ...eu estou aqui... não aconteceu nada comigo, nem com a senhora... É isso que importa.
Anastácia deixou cair uma lágrima em seu ombro, e ficou ali por alguns minutos, sentindo o consolo daquele abraço.
Quando ela ergueu levemente o rosto, seus olhares se encontraram — próximos demais. No olhar dele, havia algo mais profundo, quase impossível de esconder, um sentimento que se revelava sem palavras.
O de Anastácia, porém, permaneceu sereno, ainda que levemente confuso — como se não quisesse enxergar além do que considerava permitido. Para ela, aquele momento não deveria ultrapassar os limites de uma amizade… e talvez por isso, desviou o olhar primeiro, buscando recompor-se.
—Eu vou tentar esquecer… —disse, em voz baixa.
Ele a observou por um segundo, ainda sério.
—Promete?
—Prometo —Ela respondeu com um leve sorriso, ainda tímido, mas sincero.
Ele assentiu, como se quisesse acreditar.
—Creio que já está tarde… —observou ela, olhando ao redor, retomando a compostura — As horas estão avançadas, e o senhor precisa descansar.
O tom trouxe um leve ar de repreensão carinhosa.
—A senhora também —retrucou ele, com um discreto sorriso, tentando aliviar a tensão que ainda pairava entre os dois.
Anastácia sorriu de volta e, com delicadeza, pousou a mão nas costas dele.
—Então vamos. Eu o acompanho.
E, lado a lado, seguiram em silêncio por alguns instantes, até que Anastácia, em busca de serenidade, passou a falar de Claudinho, desviando com delicadeza a tensão que aquele momento havia deixado no ar.
...
Após se despedirem com um simples "boa noite", recolheram-se aos seus aposentos. Araújo, porém, ainda permaneceu por um longo tempo entregue aos próprios pensamentos. Temia que Dona Anastácia viesse a adoecer, abalada pelo trauma que Sandra lhe causara. E ao considerar essa possibilidade, não pôde evitar um sentimento de culpa — arrependia-se profundamente de um dia ter se envolvido com Sandra.
Naquele mesmo instante, Anastácia também se encontrava perdida em seus devaneios. Recordou-se do abraço… e do olhar dele. Sabia que, naquele momento, não houvera segundas intenções — disso estava certa. Ainda assim, não podia ignorar a dúvida inquieta sobre o que poderia ter acontecido, caso tivessem permanecido tão próximos por mais tempo.
Esse pensamento a levou, inevitavelmente, à lembrança daquele último beijo.
Por mais que Maria — e o seu próprio coração — parecessem lhe sussurrar que Araújo nutria algo além de amizade, Anastácia recusava-se a admitir tal possibilidade. Preferia convencer-se de que tudo não passava de gratidão… apenas isso. Gratidão pelo cuidado que ela tivera com seu filho, enquanto ele estava na cadeia.
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—Sarita? Onde vai tão cedo?
—Falou Dona Paulina, adentrando sua sala privativa no dancig, vendo Sarita se arrumar apressada.
—Vou fazer uma "visitinha" ao Dr. Araújo... —Sorriu com malícia, virando-se para a avó, que parecia não ter gostado da ideia...
—Não faça isso.
