17 [ Choro asfixiante]

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Sexta

Avisto o cabelo colorido do Michael e caminho até ele.
Ele olha para mim rapidamente mas logo me vira a cara sem nenhum sorriso ou aceno.

Fico petrificada no meio do recinto a olhar para ele de costas.
Ele virou-me a cara?

Recomponho-me e agarro os alças da mochila fortemente enquanto olho para o chão.

Então é assim o Luke se sente quando o ignoro?

Sou a 1° a entrar na sala e na verdade, é algo descontraído visto que posso estar sozinha e não há barulho.

Contudo, uma senhora loira, que presumo ser minha professora, entra com várias pastas e papeis nas mãos. Tropeça nos seus próprios pés e acaba por deixar cair tudo.
Ela não tinha dado pela minha presença ficando um pouco surpresa quando me vê a apanhar todos os seus pertences espalhados pelo chão.

"Aqui tem."

"Oh querida, muito obrigado. Você é a..."

Ela pára um pouco para pensar e olha-me fixamente.

"Sadie."

"Sadie! Exatamente! O meu nome é Sophia Milward. Sou a professora de história."

Ela sorri enquanto organiza a sua secretária.
Eu assinto e volto para o lugar esperando pelo toque.

Deito a cabeça nos meus braços em cima da mesa.

Eu não queria mesmo acordar hoje.

Como é que eu vou fazer para o ir ver? Terei que faltar ás aulas evidentemente.

A campainha dá inicio ás aulas e em poucos segundos as pessoas começam a entrar.

Eu continuo com a cabeça em cima da mesa mas eu consigo ouvir os seus passos.
Os óculos estão a magoar-me a cana do nariz devido á força que a minha cabeça está a exercer.

Mas a dor sabe bem. Eu mereço a dor. Eu mereço toda a dor do mundo, hoje.

Sinto um toque no meu ombro esquerdo mas não vejo quem é.

Grunhi um hum para quem quer que fosse e esse riu-se.
Michael?

"Está tudo b-" Os olhos dele arregalam-se quando eu ergo a minha cabeça. "Tu usas óculos?"

Ele olhou para mim de manhã, ele viu que eu tinha óculos e...oh espera. Ele não me reconheceu.

"Sim." Ri-o levemente devido á sua expressão facial que continua surpresa e também porque estou mais descansada sabendo que ele não me ignorou como eu pensei.

"Uau." Meteu a mão no coração sorrindo-me. "Adoro!" Piscou o olho e sentou-se no seu lugar habitual.

Olho para a porta e vejo Luke entrar com Arabella de braço dado enquanto ela se ri de algo que ele disse.
Bem, parece que está tudo a correr como previsto.

Luke senta-se ao meu lado tirando o material.

"Vejo que os trouxeste." Fala enquanto começa a escrever e eu assinto. "Linda menina!"

Cala-te Luke e não me chateies.  Este era o tipo de resposta que eu lhe daria mas estou tão em baixo que nem forças para o insultar tenho.

Deito de novo a cabeça na mesa. Quero chorar.

Fecho os olhos de força por um minuto mas alguém me dá uma cotovelada e ergo rapidamente a cabeça.

"Sadie, a menina está bem?" A professora pergunta.

Não. Eu não estou bem. Eu só quero sair daqui, quero voltar ao dia de hoje do ano passado, quero fazer tudo diferente, quero voltar atrás e não ter aquela estúpida ideia. Quero-o de volta.

"Sim...quer dizer... não..." Acabo por assumir e levanto-me rápido e saio da sala a correr até á w.c.

Oiço uns pés atrás de mim mas não me digno a olhar para trás até entrar numa cabine.

Fecho a porta com força e oiço uma outra a abrir.

"Sadie? Posso entrar...?"

Não respondo e permaneço sentada sob o tampo da sanita com a cabeça entre as pernas.
E choro silenciosamente.

Ouço a porta abrir devagarinho.

"Não ouvi nenhum não..." Sussurrou enquanto espreitava para baixo das cabines para me encontrar.

"Estou...aqui." Sussurro também batendo na porta da cabine.

Ele arrasta as costas pela porta e senta-se.

"Queres...falar?"

"Não."
Fungo levemente e limpo o excesso de lágrimas no meu queixo.

"Falar vai-te fazer sentir melhor. Eu também pensava que não, e que guardar para mim ia ser o melhor mas enganei-me redondamente! Quando falei com os rapazes um peso enorme saiu de cima de mim. Talvez venhas a sentir o mesmo caso fales comigo."
Suspiro e deito a cabeça de novo nas pernas.

"Faz hoje um ano." Murmuro.

"Um ano?"

"Sim...Desde que ele...morreu."

Ele não diz nada por alguns momentos e presumo que esteja a interiorizar as minhas palavras.

Eu nunca imaginei que fosse tão difícil perder uma pessoa. Isso nunca me tinha acontecido. 

"Oh Sadie..." ele murmura levantando-se. "Deixa-me abraçar-te. Por favor."

Eu quero um abraço, mas não me quero levantar.
O meu estado é lastimável.

"Se não saíres dessa cabine agora mesmo, nem que eu tenha que a avançar mas eu entro aí!" Sussurra ameaçadoramente fazendo-me rir levemente.

Ergo-me, e retiro os óculos da minha cara e ajeito as minhas roupas.

Abro vagarosamente a porta vendo Luke encostado ao lavatório.

Ele corre até mim abraçando-me nem me dando hipóteses de limpar as minhas bochechas encharcadas.

"Eu estava preocupadíssimo!" Fala contra o meu cabelo que decerto está uma bagunça.

"Não é que eu me fosse matar ou algo assim."

"Porra, não me digas essas coisas! Tu ..." Abraça-me ainda mais de força mas não acaba a frase.

"Eu..." Incentivo e fecho os olhos com força. Assim é mais difícil para as lágrimas caírem.

Ele pega no meu rosto com ambas as mãos e obriga-me a olha-lo nos olhos.

"Até podemos andar sempre como o cão e o gato Sadie, mas tu és importante para mim. Olha para ti! És tão diferente dos outros. Tão única, tão genuína, tão perfeita."

Arrependo-me brutalmente de ter travado lágrimas á segundos atrás porque agora elas saem livremente e em maior quantidade.

Honestamente, acho que nunca chorei tanto na minha vida.

Luke olha para as minhas bochechas preocupado, e leva os seus lábios a ambas.
Beija cada uma delas e cada lágrima que cai ou teima em cair.

Eu poderia passar a minha vida nisto.

Eu quero que alguém me dê apoio, me dê um forte abraço, me limpe as lágrimas e me diga que fui esplêndidas nas palavras ditas.

E esse alguém é o Luke.

"Vem comigo." Sussurro enquanto ele ainda segura o meu rosto. "Falar com ele."

Ele olha-me por momentos pensativo, prende-me o cabelo num rabo-de-cavalo que tinha sido desfeito outrora, e leva a sua mão á minha retirando-me os óculos e pondo-mos.

Luke sorri suspirando e põe ambas as suas mãos nos meus ombros.

"Claro que vou. Faço tudo para te ver sorrir de novo."

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