quarenta e dois.

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Marília POV

Passaram 3 semanas, e eu e Maraisa estávamos bem e felizes. Não faltava muito para o Natal, e nesse ano a minha mãe e o meu irmão, em princípio, não conseguiam vir para estar comigo, provavelmente ia passar essa quadra sozinha, mas já estava um pouco habituada.

Chamada on

Marília: olha só, o João Gustavo lembrou-se que tem irmã

João: a doutora Mendonça também nao se lembra que tem irmão- riu

Marília: respeito à sua irmã mais velha - brinquei - como estás?

João: estou bem, irmãzinha e tu?

Marília: bem, a trabalhar

João: para variar um pouco - deu uma risada - preciso de falar contigo

Marília: estás com algum problema?

João: não, mas tenho uma coisa para te contar

Marilia: estás a deixar-me preocupada, diz de uma vez

João: então, a mãe, ela...

Marília: o que tem a mãe?

João: a mãe tem um namorado

Marília: o quê?

João: sim, e... bom, ela planeou irmos passar o Natal contigo, e levá-lo, eu não queria que fosses apanhada de surpresa

Marília: eu não acredito que ela ia trazer um homem qualquer para minha casa, e não me dizia nada

João: estás bem?

Marília: estou, preciso de voltar ao trabalho. Obrigada por me teres contado. Falamos depois. Te amo

João: beijo, te amo

Chamada off

Eu não estava a acreditar no que estava a ouvir, a minha mãe tinha um namorado, que meu irmão já conhecia, e pretendia trazê-lo a Portugal, para passar o natal em minha casa, sem me avisar. Era informação a mais. Precisava de sair da empresa e respirar. Sai feita um furacão da minha sala, disse a Bárbara que não sabia se voltava, e segui até à garagem. Assim que entrei no carro, o meu telemóvel tocou.

Chamada on

Maraisa: Marilia?

Marília: olá princesa - tentei disfarçar o choro

Maraisa: a Mai disse-me que saíste da tua sala feita um furacão e com olhos de choro, estás bem?

Marília: na realidade, não

Maraisa: onde estás?

Marília: no carro, na garagem. Podes vir ter comigo? - ouvi a respiração funda dela, por estar a ponderar encontrar-se comigo dentro da empresa

Maraisa: sim, eu vou. Dá-me 5 minutos e chego aí

Chamada off

Fiquei no carro, enquanto Maraisa não chegou, e permiti-me chorar ali, eu não estava a acreditar naquilo. Até que ouvi batidas leves no vidro, e quando a vi destranquei as portas e ela entrou.

Maraisa: porque estás assim? O que aconteceu?
- abraçou-me forte - estou preocupada contigo

Chorei, enquanto a abraçava, e sentia os seus dedos no meu couro cabeludo, depois de me acalmar, consegui falar.

Marília: o João ligou-me a contar uma coisa

Maraisa: o João?

Marília: o meu irmão, ele ligou há pouco - deitei a cabeça no ombro de Maraisa - eles não deveriam vir a Portugal neste natal, mas afinal sim

Maraisa: ias passar o natal sozinha e não me dizias nada? - arqueou uma sobrancelha - falamos sobre isso depois, continua querida

Marília: pelos vistos, a dona Ruth queria fazer-me uma surpresa e preparou uma viagem para eles, para cá

Maraisa: isso não é bom?

Marília: seria, se ela não planeasse trazer o novo namorado com eles, sem me avisar que ele vinha, e sem eu sequer saber que ela tem um namorado. Ela quer trazê-lo para minha casa, sem me avisar

Maraisa: eu estou a entender - beijou-me na cabeça e nisto o meu telemóvel toca

Chamada on

Ruth: filha...

Marília: não quero falar contigo

Chamada off

Maraisa: Lila, sabes que não vais poder deixar de falar com ela, não sabes? Ela é tua mãe

Marília: como é que ela consegue? Como é que ela esqueceu o meu pai Isa? Como?

Maraisa: calma, tenta acalmar-te um pouco - sorriu delicadamente - eu vou avisar o meu chefe que estou indisposta, e vou para casa, e fico contigo à tarde, pode ser? - sorriu, eu assenti e ela pegou no telemóvel para fazer o que tinha dito

Enquanto Maraisa resolvia a sua questão, e avisava Maiara que não trabalhava à tarde, eu dei partida no carro e sai da empresa.

Durante o caminho, nenhuma de nós falou, Maraisa, colou a mão sobre a minha coxa e vez ou outra, secava algumas lágrimas que iam caindo. Parei numa praia, era isolada e não havia mais ninguém ali além de nós.

Marília: vamos? Preciso de caminhar - tentei um sorriso fraco para a morena que sorriu e saiu do carro

Caminhamos durante algum tempo na areia, Maraisa descalçou os sapatos e eu imitei-a, a sensação da areia fria era boa, caminhamos assim, de mão dada. Maraisa respeitou o meu silêncio, e os meus pensamentos, dando-me tempo e espaço.

Marília: dói-me muito a ausência dele - falei depois de nos sentarmos na areia, eu estava no meio das pernas de Maraisa, encostada ao seu peito e os seus braços em minha volta - não sei lidar com ela, nem com a falta que ele me faz. Não me esqueço nunca dele

Maraisa: eu sei que sentes muito a falta do teu pai - beijou-me na cabeça - e acredito que a tua mãe também sinta, afinal de contas, Foram casados muitos, passaram por muito juntos, construíram um império e tiveram 2 filhos. Não se esquece uma pessoa que com quem se passou tanto, Lila. Ela apenas está a tentar seguir a vida dela, com outra pessoa, isso não implica que se esqueça do teu pai, além disso, existes sempre tu e o João, que a farão sempre lembrar dele e do que viveu com ele

Marília: tens razão - virei-me para abraçá-la e ficamos assim durante muito tempo, chorei muito até conseguir voltar a falar - pareço uma criança, eu sei - sorri fraco

Maraisa: sabes o que eu vejo? Uma menina mulher com uma grande ferida aberta pela morte do pai - sorriu e beijou-me a testa

Marília: não sei o que seria de mim sem ti, nem como te agradecer - abracei-a e aninhei a cabeça no seu ombro - eu costumava vir aqui, passear com o meu pai, depois da morte dele, foi sempre o meu refúgio, e nunca tinha trazido aqui ninguém, nem a minha mãe, o meu irmão ou a Luísa

Maraisa: assim fazes-me sentir especial - sorriu e beijou-me os lábios com amor - há uma coisa que podes fazer por mim, sabias?

Marília: o quê?

Maraisa: falares com a tua mãe - tentei afastar-me mas ela não deixou - não fiques assim, achas que é para te prejudicar? Eu só quero o teu bem

Marília: tens razão, outra vez, eu vou ligar - sorri de canto - posso pedir para ficares comigo?

Maraisa: claro, estou contigo sempre - sorriu e beijou-me na testa

Peguei no telemóvel e fiz uma videochamada com a minha mãe, quando dei o primeiro toque, Maraisa segurou-me uma mão, e não largou, apesar de estar mais afastada, para não aparecer, fazia-me sentir que estava ali.

IntençãoOnde histórias criam vida. Descubra agora