Tinha se passado mais de uma semana desde o incidente com Mikah, eu havia guardado meu luto e meu irmão havia voltado a Tsag, no fim, contra todas as probabilidades, minha prova seguiria.
Eu estava caminhando pelos corredores, procurando a senhora Tanizake quando passei próximo a sala de Yukio e então escutei a voz de Saito, Yukio e Isao discutindo. Embora soubesse que não deveria escutar conversas alheias, percebi que o assunto dizia respeito a mim.
– Deveríamos mandar somente nossos homens para investigar esses ataques – Yukio disse enfaticamente.
– Mas essa luta é deles. Eles deveriam resolver – Isao respondeu friamente. Ele havia se mantido distante desde o incidente de Mikah e eu não podia julgá-lo por isso.
– Essa luta é nossa – Saito parecia acalorado com a discussão, algo que eu nunca havia visto nele – Afinal, estamos defendendo o nosso país que foi invadido.
– Invadido pelo povo deles, vale ressaltar – Yukio mantinha sua voz de ferro costumeira.
– Mas ela está do nosso lado – Saito retrucou – Mandar somente nossos homens, mesmo sem ter certeza de que seja um wendigo, poderia ser suicídio. Se for o país vizinho, podemos lidar com isso, mas e se não for?
– Você quer jogar um fardo desnecessário nas nossas costas, Saito – Isao disse com a voz já controlada – Não temos como cuidar dela.
– Então tenho entendido, que se ela não for um fardo, ela poderá ir? – Saito disse agora com seu tom habitual.
– Você não pode estar falando sério – Isao disse um tanto surpreso.
Eu estava admirada por Saito se colocar do meu lado. Ele estava realmente me surpreendendo cada vez mais.
– Ela dificilmente se mostrou um fardo durante todo este tempo. Além do mais, ela segue sendo subordinada da minha divisão – Saito continuou com sua defesa.
– Como você pode dizer que Ambar não foi um fardo depois do ocorrido com Mikah? – Isao retrucou.
Imaginei o rosto sério de Saito e imaginei ele apertando os olhos, como costumava fazer sempre.
– Mikah estava sob nossa responsabilidade, falhamos em proteger uma criança. O que aconteceu também foi nossa culpa, e como pode só culpá-la? Afinal, Yukio sabia de tudo isso desde o dia em que a trouxemos e mesmo assim não fez objeções ao mantê-la prisioneira.
– Você tem razão, Saito – Yukio disse, deixando Isao perplexo – Tenho parte da culpa. Eu soube o que ela era desde o primeiro dia. Não posso julgá-la pelo que aconteceu. Ela vem deixando isso claro para mim desde que a fizemos prisioneira. Ela disse mais de uma vez que nossa sorte havia acabado no momento que a encontramos. Parece que você tem grande estima pela moça, Saito.
– Não interprete minhas palavras de maneira equívoca, Yukio. Estou apenas apresentando os fatos. Ela não descumpriu a promessa em nenhum momento. Nós ainda temos o dever de protegê-la, porém, necessitamos do conhecimento dela para seguir com a investigação.
– Muito bem, que assim seja feito – Yukio disse se dando por vencido.
– Mas, e se ela sair do controle de novo? – Isao disse tentando fazer com que Yukio repensasse na decisão.
– Na pior das hipóteses, a matamos – ele falou encerrando o assunto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fendas
Fantasy"Dizem que o universo é extenso, que não tem fim, mas eu discordo. Todo universo tem um fim, e onde um termina, começa outro." Era apenas uma prova, ela deveria passá-la e voltar para casa, mas algo não saiu como o planejado e a situação a forçou fa...
