Capítulo- 21

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— Quinze dias, Hacker— E assim eu me levantei da cadeira, deixando algumas notas a mais para a atendente simpática.

Enquanto eu caminhava em direção a porta, vi a garota ruiva sorrir para mim. Eu retribuiria se não tivesse visto a marca alemã em seu pescoço. Sabia que estavam entrando no território de Hacker, mas não no meu. Ouvi histórias sobre o dono de lá estar enviando espiões para saber como são as coisas por aqui e também, que ele quer abrir caminho para suas vendas ilegais. Talvez uma possível guerra esteja vindo por aí e essa é outra das informações valiosas que eu tenho.

— Está chovendo demais para que você vá de moto— Não é possível que ele ainda esteja preocupado comigo— Entra no carro, Michel

Continuei caminhando até o estacionamento enquanto decidia internamente se iria ou não, entrar naquele jaguar preto. Não ficaria por muito tempo, considerando que o escritório do meu pai é logo a frente e realmente estava chovendo bastante agora, é até perigoso eu sair com a moto, e ainda mais, sem o capacete. Então fui até seu carro e parei diante da porta, não sabia se estava trancada.

— Esperando algum convite especial?—E assim ele entrou e se sentou no banco do motorista, o bom humor de Vinnie.

Puxei a porta e me sentei no banco ao seu lado.

Ao mesmo tempo de que sua presença podia dar conforto e segurança, eu também não conseguia deixar de me sentir insegura por estar tão perto de seu corpo quente. O mesmo corpo que segurou meu mundo enquanto ele estava desabando diante de seus olhos.

Vincent deu partida com o carro e a velocidade com que o caminho seguiu, me fez apertar as mãos nas coxas e o ritmo do meu coração se tornar mais acelerado. Mas o que eu estava sentindo não era medo, céus, esse sentimento nunca poderia ser comparado com o medo.

Olhei para o lado e vi que Vincent estava completamente focado na estrada, e mesmo assim, não pude evitar sorrir quando ouvi o barulho dos vidros descendo. Gotas finas de chuva tocaram o meu rosto e o vento gelado fez meus cabelos ficarem uma completa bagunça.

— Para o carro, Hacker— Pedi e ele sorriu, movendo sua cabeça para os lados— Por favor, para o carro.

Quando seus olhos encontraram os meus, mesmo que por apenas alguns mínimos segundos, eu vi que suas pupilas estavam dilatadas e Vincent tinha um brilho diferente no olhar, algo completamente apaixonante e vicioso.

Era lindo
Hacker era lindo.

Quando o loiro finalmente parou o carro, desci correndo para sentir a grama molhada nos pés e o cheiro da chuva fina que estava caindo. Fechei meus olhos e inclinei a cabeça, eu nem sabia ao certo o porque de estar tão feliz do nada. Apenas sentia que esse era um momento bom, um momento já vivido e que merecia ser lembrado de uma forma tão linda como ele um dia possa ter sido, mesmo que eu não consiga me lembrar.

Quando finalmente abri meus olhos, pude ver o homem a minha frente. Vê-lo de verdade, de uma forma que nunca enxerguei Hacker. E nesse momento eu soube, nós estávamos conectados de alguma forma. Pois o mesmo brilho nostálgico que estava em seu olhar, eu sabia que estava no meu.

Então eu sorri, apenas gargalhei como se meu fôlego nunca pudesse acabar e Vincent me acompanhou. Sua risada grossa e um pouco tímida me encantou de todas as maneira possíveis, mas então o seu sorriso começou a ir embora, mas eu agarrei a lembrança bem fundo para que nunca fosse tomada de mim como várias outras foram.

Uma lágrima escorreu em seu rosto e meu corpo ficou paralisado quando vi o homem menos vulnerável que eu conheço, cair de joelhos e deixar as lágrimas virem. Cada uma delas parecia como um soco na boca de seu estômago, eu via a dor em seu rosto, a pior delas.

— Eu perdi tudo que eu tinha— Me aproximei para poder ouvir a sua voz em meio aos seus soluços— Eu a amava tanto, e me tiraram a única razão que eu ainda tinha para sobreviver.

— Vincent, do que está falando?— Me ajoelhei em sua frente e toquei em seu rosto molhado, seus olhos se fecharam para aproveitar o carinho em sua pele macia.

— Acha mesmo que eu odiaria sua família atoa? Eles mataram o amor da minha vida! Tiraram ela de mim, e eu não tive nem a chance de me despedir dela, Alyson— Seus olhos permaneciam fechados, mas eu ainda conseguia sentir a sua dor e quando me dei conta, lágrimas também escorriam pelo meu rosto.

Eu não conseguia dizer absolutamente nada, por medo de falar algo errado. Então apenas abracei seu corpo trêmulo e de coração vulnerável, como se o homem em meus braços pudesse se quebrar a qualquer momento e eu fosse pegar cada um de seus pequenos pedaços. E eu faria isso, mesmo que pudesse me machucar no processo, cataria um por um.

Eu sabia qual era sensação de perder algo e não saber como continuar sem ele, eu também perdi a única pessoa que eu amei a anos atrás.

Quando tudo aquilo aconteceu, a última coisa que eu vi antes de ser levada, foi o garoto que eu amei, tomando um tiro que era para ter acertado em mim. Meus pais me dizem que ele nunca existiu, que nunca amei ninguém de uma forma romântica e que no dia do sequestro eu estava sozinha, mas é impossível. Me lembro da cor do seu sangue, pintei com esse mesmo tom de vermelho por anos e anos, lembro do tom grave de sua voz e da sua risada rouca e com um pouco de timidez.

Posso não me lembrar de seu rosto, mas eu sei que ele estava lá. Eu sei que o garoto existiu em minha vida e ainda estou determinada a encontrá-lo.

— Eu estou com você, Vincent. Estou aqui com você, eu prometo que vou ficar— Seus braços se apertaram ao meu redor, e suas lágrimas se intensificaram.

Nós iríamos superar o passado

Rose Dans Le CrâneOnde histórias criam vida. Descubra agora