Antes da febre dos rolimãs e skates, haviam as pipas. Uns chamam de pipa, outros chamam de quadrado, maranhão, papagaio, pandorga, peixinho... enfim. Cada um dá um nome diferente. O que não muda é que ainda hoje a gente vê muitos no céu, especialmente na temporada de férias escolares. Também já fui, como muitos que conheço, viciado em empinar pipa. Naquela época, a gente fazia nós mesmos nossos "peixinhos" e "raias". Maranhão era mais complicado de se fazer, mas a gente fazia também. Era complicado, porque o maranhão de verdade, aquele raiz, tem que ser feito com varetas de bambu, e não havia bambu na região. Acho que tinha um bambuzal no terreno onde morava o Ronaldo, mas não tenho certeza. Eu era craque mesmo em fazer peixinho. Comprávamos o papel de seda e as varetas japonesas na lojinha da dona Marisa, na Rua da Esperança, e fazíamos as mais bonitas raias do mundo. Lembro que eu colocava até barbatanas nelas. A linha era da marca "Corrente", numero 10, e a gente comprava carretéis com 500 jardas, acho. Nem sei quanto vale uma jarda, mas era linha pra caramba... Arrumávamos uma lata de óleo Maria, daquelas quadradas, ou de Nescau, maiorzinha, encapávamos com jornal, pra não enferrujar, e passávamos a linha do carretel pra lata, lembrando de dar um nó antes de começar a enrolar, porque senão, em algum momento, quando a gente "batizasse" o pipa, ou seja, descarregasse toda a linha da lata, se ela não estivesse amarrada, ia tudo embora... Vale lembrar que, naquela época, não existia, como hoje, a tal "linha Chilena" (que, pra falar a verdade, nem sei como é). Então, fazíamos nós mesmos o tal "cortante". Era uma busca constante por cacos de vidro, e quem dava sorte achava alguma lâmpada fluorescente queimada. A gente pegava os cacos, moía numa lata, peneirava numa meia de seda e adicionava água e cola de madeira, levava ao fogo pra cola derreter e passava na linha. Na viela tinha um poste, e a gente usava-o como varal pra secar a linha, depois de aplicada a cortante. Desnecessário dizer que eu vivia com as dobras do dedo indicador da mão direita totalmente cortados, de tanto usar o tal cortante na linha. Quando a gente descarregava, e a pipa estava com força, ou na hora de enrolar, o troço cortava mesmo. Impressionante nunca ter infeccionado.
Bem, a rua era uma festa de pipas, principalmente nas férias e finais de semana. Todo mundo empinando ao mesmo tempo. E tinha os fios de energia, que atravessavam a rua e a gente tinha que evitar a todo custo, com o risco de perder a pipa enroscada num fio. Então, enquanto alguém segurava a pipa numa ponta da rua, a gente jogava a lata por cima dos fios, até chegar na outra ponta da rua. Era só esperar um vento, e puxar ou correr pra pipa, lá do outro lado, levantar. Mas eu achava que isso dava muito trabalho. Gostava mesmo de empinar em cima dos telhados, onde geralmente havia vento mais constante, e não precisava ficar correndo nem dando puxão na linha pra pipa subir. Era só descarregar que o vento fazia o serviço. Numa dessas ocasiões, eu estava em cima da laje da casa do Nilton, acho que era o nome do japonês, cujo irmão mais velho se chamava George, na esquina da vilinha onde a gente morava, tentando fazer a pipa subir. Não havia vento, naquele dia, por isso, eu ia puxando a linha e andando para trás. Puxando a linha e andando para trás, até que a laje acabou. Enrosquei meu pé na calha e, meio que virando uma semi-cambalhota sem querer, acabei caindo de cabeça num ferro em forma de "T" que segurava o varal da casa, no quintal abaixo. Fiquei pendurado nesse "T" pelas dobras dos joelhos, pingando sangue do topo da cabeça, como se fosse uma peça de carne pendurada no açougue. Quando consegui me desenroscar dos arames dos varais, o Nilton já estava lá embaixo, do meu lado. Corri pra casa segurando o cucuruto com a mão, pois estava sangrando muito. Não podia chorar. Era a regra da minha mãe. Se chorar, apanha. Chegando em casa, com a roupa e o cabelo cobertos de sangue, ela olhou, abriu o ferimento entre os cabelos com a mão e tacou o temido mertiolate, o supra-sumo das torturas infantis da época. Quem conheceu, não esquece. Quem não conheceu, melhor assim, não perdeu nada: Um antisséptico que ardia tanto que era pior que suco de limão. Ai de mim se chorasse. Vontade não faltava. Não pelo rasgo na cabeça, mas pelo tratamento - pior que a ferida. Hospital? Raio X? Nem sabia o que era isso. O tratamento usual era esse: Mertiolate e curativo. Se não morresse, tava bom. Num dos capítulos anteriores, eu havia dito que o vizinho, Sr João, era o médico da vila. Lembro que nesse dia ele fez um curativo na minha cabeça. Lembro dele dando pontos, mas não sei dizer se foi em mim nessa ocasião ou essa é uma outra memória confusa em minha mente. Sei que nos dias seguintes, continuou trocando o curativo até que o machucado "criasse casquinha". Aí não precisava mais de curativo. E assim foi. A cicatriz tenho até hoje. Quando corto o cabelo muito curto, acho que dá pra ver...
Nessa época, também, o Ciso, meu irmão mais velho cismou de fazer um aquário. Mas a gente não tinha a tecnologia que temos hoje: borracha de silicone, colas especias, nada disso. Lembro que usamos (digo usamos pra não ficar chato – quem fez foi ele) massa de calafetar nas junções dos vidros. Para dar estabilidade e sustentação, já que não era colado, ele fez – ou mandou fazer – uma armação com cantoneiras de alumínio dentro da qual os vidros se encaixavam e conferia estabilidade no negócio todo. Fez também uma "mesa", um suporte com armação de ferro e tampo de madeira, forte o bastante para aguentar. Lembro inclusive que era pintado de preto. Aquário montado, calafetado, hora de encher. Como lá em casa ninguém era bobo, resolvemos fazer os primeiros testes na varanda, do lado de fora, e não na sala. Areia, pedras, e finalmente, água. Enchemos, e o comportamento foi até que satisfatório. Por alguns minutos. De repente, o troço começou a vazar pela parte de baixo, e virou uma bica. Logo percebemos que aquela massa de calafetação não havia sido a melhor escolha. Lembro também que eu estava tão ansioso para ver o troço pronto, bonito, que quando o aquário começou a vazar, eu chorei. Um choro que era uma mistura de um pouco de raiva, um pouco de decepção. No final, o vizinho da frente, aquele das sardinhas na brasa, acabou nos dando uma pequena aula sobre pressão hidráulica e suas consequências. Meu irmão corrigiu o material usado, trocou o tipo de massa, remontamos a coisa toda e desta vez, funcionou. Deixamos ele lá fora por uns dias, para ter certeza que não teríamos nenhuma surpresa. Passado no teste, foi colocado na sala, num lugar de destaque.
Acontece que, naquela época, não era fácil encontrar lojas de peixes ornamentais. Então, minhas compras eram feitas nas Lojas Americanas (acredite – naquela época, vendiam até insumos para aquário) da Rua Direita, no Centro de São Paulo. Lembro que havia um monte de aquários, cada um com um tipo diferente de peixe, logo na entrada, e tudo o que eu precisava, trazia de lá. Pegava um ônibus até o Carandiru, depois o metrô até a estação Sé, e de lá ia vendo as vitrines e aproveitando o passeio. Sempre gostei de andar no centro. Numa dessas viagens, acho que num sábado de manhã, indo buscar mais peixes para aumentar meu plantel, passando em frente a uma loja de discos, também na Rua Direita, eis que ouço uma música vindo de lá de dentro. Acho que era lançamento, sei lá... Mas sei que adorei a música, e acabei usando um pouco da grana dos peixes para comprar meu primeiro disco, um compacto simples com a música How Deep is Your Love, dos Bee Gees. Sem imaginar, começava aí uma nova paixão: música. E toda vez que ouço essa música, lembro desse dia. Posso afirmar que foi a partir daí que comecei a associar músicas com lembranças. Tenho essa coisa: uma determinada música me remete a algum lugar, alguma lembrança. Com relação ao tema "música", tenho também uma grande decepção: nunca, apesar de inúmeras tentativas, a mais recente há uns três anos, consegui aprender a tocar um instrumento. E isso, com certeza, será abordado em outro capítulo.
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Lembranças
Документальная прозаUM APANHADO DE ALGUMAS LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Escrever essas lembranças tem me dado uma enorme alegria. Fazendo isso, relembro dos áureos tempos de criança, quando a maior preocupação era de que modo e com qual brincadeira gastaria me...