Qualquer menino normal, nos anos 60 e início dos 70, sonhava em ter um "forte-apache". Havia, naquela época, a Gulliver, uma indústria de brinquedos que rivalizava com a Estrela. Enquanto a Estrela fazia brinquedos mais "elaborados", a Gulliver fazia os brinquedos mais simples, e o Forte-apache era um deles. Um monte de bonequinhos de plástico, representando índios e cowboys, alguns cavalos e carroças, embalados numa caixa de papelão. Se me lembro, vinha também, no kit, um (como chamar??) tipo uma cerca(?) de madeira, que representava as paredes do forte. Preço estratosférico, já que era febre no momento. Era montar e deixar a imaginação rolar. Bem diferente dos brinquedos que vieram a seguir, movidos à pilha e que só permitiam a gente ficar vendo ele se mover. Mas o forte apache não... Era a gente quem determinava qual índio ia morrer, qual cavalo ia puxar a carroça, qual era o mais bonito, o mais veloz... E Como lembrou o Rafael, meu irmão caçula, o jardim de casa, apesar de pequeno, era nosso far-west, nosso rincão desconhecido, onde a gente vivia as mais incríveis aventuras de cowboys. Porém, nosso forte-apache era diferente. Não era um forte-apache, como os normais. Na verdade, nunca tivemos um. Tínhamos, isso sim, um outro conjunto, também da Gulliver, comprado aos pouquinhos, e que era composto por nativos africanos, diferente do outro, onde os índios eram apaches norte-americanos. Eram representativos de alguma nação africana pré-colonialismo, e contava com vários tipos diferentes de biótipos. Havia uma lojinha que vendia esses itens separadamente, na Av. Guapira, quase esquina com a Av. Tucuruvi. Essa sim era um verdadeiro paraíso. Tudo o que você pudesse imaginar, encontrava nessa loja, que tinha estoque abarrotado de bugigangas até o teto. Literalmente. Desde cadernos escolares até radinhos de pilha, passando por tintas, brinquedos, artigos de costura e o que mais pudesse imaginar. Sempre que dava, a gente aumentava nosso plantel de índios, cavalos e carruagens adquirindo-os nessa lojinha. E, como as peças eram compradas separadamente, haviam também elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes e mais uma porção de bichos. Como eram todos nativos africanos, nosso jardim era a "savana", e me lembro que, para fazer as cabanas mais reais, eu pegava alpiste das gaiolas de canários da minha mãe e plantava no jardim, observando o formato circular de mais ou menos uns 15 cms de diâmetro. Alguns dias depois, o alpiste brotava, e quando já tivesse uma altura suficiente, amarrava os tufos na parte de cima, formando uma "oca", dentro da qual os índiozinhos habitavam. Coisa de gênio, desde pequenininho. Invariavelmente, a gente fazia também buracos no jardim, que serviam de lago para os cavalos beberem água e os hipopótamos nadarem, além de outros, mais fundos, que serviam como caverna, na qual os índios se escondiam dos cowboys. ... o que, óbvio, deixava a mãe um tanto quanto brava...
Nesse jardim também, a gente fazia nosso "circo de abelhas". Hoje reconheço que era uma judiação, mas naquela época, a gente não se preocupava com isso. Pegávamos abelhas, dessas comuns, com a mão mesmo. Nunca tomei uma ferroada... O segredo (hoje nem me arrisco) era o seguinte: a gente pegava a abelha com as mãos em forma de concha, e uma vez capturada, chacoalhava muito, com a abelha se batendo lá dentro, até que ela soltasse um negócio branco, que a gente julgava ser o ferrão. Não devia ser, mas quem se importava? Depois, arrancávamos as asas da bichinha, e ficávamos brincando com elas o dia inteiro, fazendo-as andar num pedaço de linha esticado em dois palitos, se equilibrar em bolinha de gude, essas coisas...
Tinha também o "circo de formigas", que era basicamente uma bacia cheia de água, umas pedras no meio, em formato de ilha, alguns gravetos unindo uma ilha à outra, e um monte de formigas pretas, circulando por alí... Qual a graça? Hoje, nenhuma. Mas naquele tempo, essas coisas preenchiam as tardes e aguçavam a imaginação.
O Rafael tinha um amigo cujos pais eram donos de uma loja de materiais de construção, na Júlio Buono e, para nossos padrões da época, poderia ser considerado "rico"... Esse cara tinha uma incrível quantidade de brinquedos, e mais incrível ainda era a quantidade de carrinhos Matchbox, outro sonho de consumo da molecada na época. Sempre que possível, a gente ia na casa dele, brincar com seus carrinhos. Acabei gostando tanto dessas miniaturas, que depois de um tempo e por um curto período, acabei virando colecionador. Tive muitos, dos mais variados tipos. Com a idade, acabei dando-os, alguns, aos meus sobrinhos, outros se perderam com o tempo, e daquela época, restaram-me somente dois, que eu guardo com especial carinho. Depois que conhecemos os Matchbox, a febre deixou de ser os forte-apaches, e passou a ser os tais "carrinhos de ferro". Todo moleque queria ganhar um, em qualquer ocasião, de presente. Nada de meias, cuecas ou camisetas. O negócio era os Matchbox. Pra quem não conhece, os Matchbox eram miniaturas super fiéis, geralmente importadas, feitas de metal, dos mais variados modelos de automóveis. Hoje a molecada conhece-os como "Hot Weels". Mas os Matchbox superavam em muito esses últimos, principalmente por serem "diecast metal", ou seja, eram de metal, diferente dos atuais Hot weels que são de plástico. Na nossa casa tinha uma calçadinha, bem lisa e estreita, que servia como pista de competições, o onde a gente fazia torneios com os Matchbox: qual ia mais rápido, qual ia mais longe, qual ia mais reto... Um dos grandes campeões de todas as modalidades foi um carrinho azul, de polícia, esse da foto: tenho ainda hoje.
Vivi também a febre de modelismo. Como citei anteriormente, meu irmão comprava Kits de aeromodelo na Casa Aero-Bras e trazia pra eu montar. Tempos depois, já mais crescidinho e me virando com a grana, descobri os modelos de plastimodelismo da Revell, que tinha de tudo: aviões, helicópteros, carros, tanques de guerra e até personagens dos quadrinhos americanos da época. Fiquei apaixonado pelos aviões da Segunda guerra, e em pouco tempo consegui uma coleção respeitável: Stukas, Zeros, Hurricanes, todos pendurados no teto do meu quarto, com linha de nylon, além de alguns tanques de guerra americanos e alemães. Bem... eu era muito bom em fazer rolos. Boa parte do meu acervo foi conseguido assim: trocava um disco por um kit, um brinquedo por outro, ou algo que eu havia enjoado por dois outros que eu queria... Um dos últimos rolos que fiz acho que foi aquele que marcou minha passagem da adolescência para a vida pré-adulta: troquei minha tão estimada bike por uma coleção de discos... O fim de uma fase e o início de outra. E isso também é outro capítulo.
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Lembranças
No FicciónUM APANHADO DE ALGUMAS LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Escrever essas lembranças tem me dado uma enorme alegria. Fazendo isso, relembro dos áureos tempos de criança, quando a maior preocupação era de que modo e com qual brincadeira gastaria me...