Capítulo 7 - Sinca Chambord e torta de gasolina

34 1 0
                                    

Antes de vir para o Brasil, meu pai era frei em Portugal. Por algum motivo que ele nunca revelou, ele largou a ordem, saiu do convento e veio para o Brasil, onde conheceu minha mãe, se casaram, e o tiveram quatro filhos. Pelo fato de ter sido religioso em sua terra natal, a gente meio que foi criado "dentro" da igreja. Fazíamos parte da Paróquia Nossa Senhora da Luz, perto de casa, na Vila Gustavo. Fiz o catecismo, a primeira comunhão, fui crismado e me casei nessa paróquia. A Daniela e a Isabela, minhas duas filhas, foram batizadas lá, apesar de a Isabela ter nascido em Jundiaí, e a gente já estar morando fora de São Paulo. Se me lembro, meus sobrinhos também foram. Meus pais eram membros atuantes na igreja, faziam parte de todo tipo de movimento, e tiveram passagem marcante por lá, tanto que há alguns dias, receberam homenagem póstuma da comunidade. Lembro dos sábados em que eu ia para as aulas de catecismo, da minha catequista, dona Desidéria, que era também a "vocal-leader" das missas matinais do domingo. Tinha uma voz poderosa, e penso que gostava muito de cantar. Depois das aulas, sábado à tarde, a gente passava no barzinho que havia ao lado da igreja, e comprava "amendoins japoneses", que ficavam num baleiro, daqueles que giram, em cima do balcão. Era vendido por peso, e lembro que um saquinho de papel custava uma moeda. Voltava pra casa comendo amendoim. As quermesses nessa igreja também eram memoráveis: a rua era fechada em toda a extensão do quarteirão, e a galera de vários bairros vizinhos ia lá para participar. Como toda quermesse, havia quentão, vinho quente, doces e comidas típicas da época de festas juninas. Com sempre, meus pais trabalhavam nessas festas também. Fato curioso que me vem à memória com relação à igreja, é que um domingo fui escalado, pela primeira vez, para fazer a leitura na missa da manhã. Dona Desidéria escolhia os leitores na hora, entre os catequizandos e naquele dia, fui escolhido. Apesar de ser frequentador assíduo das missa e já conhecer o ritual, naquele dia fiquei super-hiper-mega-tetra nervoso, pois seria a primeira vez que encararia uma platéia. Subi ao altar, cheguei no ambão e, com as pernas tremendo, comecei a ler. Mas de tão nervoso, chegou uma hora, no meio da leitura, que me deu um branco, um apagão: empaquei na leitura. Me perdi no texto, não conseguia prosseguir, não achava onde havia parado, e a Dona Desidéria, embaixo, soprando as falas para mim. Mas não evolui. Tive que ser substituído, no meio da leitura, pois não consegui seguir adiante. Ainda bem que não fiquei traumatizado: hoje adoro ler, adoro falar em público e sou apaixonado por um microfone... 

Devido também ao fato de meu pai ter sido religioso em sua terra natal, seu sonho, assim como o da minha mãe, era que todos os quatro filhos fossem padres. Por isso, todos meus irmãos frequentaram seminários. Uns por mais tempo, outros por menos, mas eu não frequentei nenhum. O máximo que fiz, ao ter dúvidas com relação se era esse meu destino, foi ir morar na casa paroquial, onde pude travar mais contato com as rotinas religiosas. Acho que essa experiência durou uns dois meses, mais ou menos. Foi o que eu consegui aguentar, e não era, definitivamente, para mim. Talvez tenha sido pego numa época pouco favorável, já que eu havia começado a descobrir o mundo, com baladas, bailinhos, namoricos, essas coisas. Provavelmente num capítulo mais à frente eu volte a esse assunto. Mas meus irmãos foram mais firmes: O Ciso estudou um par de anos (acho) num seminário em Pindamonhangaba; o Rafa, acho que três anos em Jundiaí. Hoje são casados e constituíram família. O único que vingou foi o Beto: hoje é Padre e vigário na paróquia Nossa Senhora das Neves, no Tucuruvi. Em sua jornada, ficou um tempo num seminário em Itaipava, perto de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Nessa época, o Ciso tinha um fusca verde. Meu pai nunca dirigiu, e cismou de ir visitar, com a família toda, o Beto, em Itaipava. E não é que fomos? De fusca! Claro que há mais de 50 anos, eram outros tempos, a Via Dutra era outra estrada, certamente não havia tanto trânsito, os carros eram diferentes, então fomos para o Rio de Janeiro de Fusca, mesmo. Mais ou menos 460km de distância.

Preparação para a viagem, minha mãe fez uma torta de frango, que o Beto gostava, para levar de presente. Geladeira de isopor, não sei se tinha. Mas tinha lanches de pão de forma com presunto e queijo além do recente lançamento: guaraná em lata, da Brahma. E tome estrada. Saímos de manhã, e lembro que fizemos uma parada em Aparecida do Norte. Depois de Aparecida, fizemos ainda uma outra parada, na beira da estrada, para comer e fazer xixi. Não sei ao certo onde exatamente foi essa parada, mas do acostamento da estrada, a gente via o Rio Paraíba do Sul. As fotos abaixo são desta viagem. 

LembrançasOnde histórias criam vida. Descubra agora