Lá por volta de 1972 ou 73, não sei precisar o ano, a Rua Caracaxá, onde a gente morava, foi asfaltada. Que eu me lembre, era a única rua do bairro ainda sem asfalto, e quando este chegou, a alegria da molecada foi geral. A primeira coisa que nos veio à mente foi, sem dúvida, carrinhos de rolimã. Correria geral nas oficinas do bairro pra conseguir os rolamentos para os carrinhos. Ainda bem que haviam muitas. Todo mundo fez seu carrinho: alguns em formato tradicional, com bico, uma roda na frente no centro do eixo móvel e duas no eixo fixo traseiro; outros, mais arrojados, com um eixo traseiro mais encorpado (dependia do tamanho do rolamento que a gente achava era preciso usar um caibro como eixo) e quatro rodas, com o eixo dianteiro móvel. Passamos então a infernizar a vida das vizinhas mais velhas, especialmente a dona "Aina", que a gente chamava de "alemoa". Ela tinha todo o jeito de alemã, não falava português corretamente, e tinha um sotaque que, agora, percebo ser espanhol; talvez fossem argentinos. Era um casal de velhinhos, cabeça branca, ela encorpada, grandona, forte e explosiva; ele, magrinho e calmo. Acho que nunca ouvi a voz dele. Outra coisa que me marcou é que eles tinham um "Carman-guia" vermelho, coisa mais linda do mundo, que pra ser mais bonito, só se fosse conversível. Mas não era, e mesmo assim, era lindo. Super conservado e sempre encerado e brilhando. Ela era tão grandona que até hoje não sei como entrava naquele carrinho...
Porque lembrei dela? Porque é a que mais reclamava do barulho. Quem conhece carrinhos de rolimã sabe muito bem o barulho infernal que ele faz. Imagine agora 5, 10 ou 15 carrinhos, descendo a rua ao mesmo tempo, apostando corrida. A alemoa morava mais ou menos na metade do quarteirão, e quando a gente passava em frente à casa dela, o carrinho já não ia tão veloz. Alguns até nem chegavam até lá, pois a rua tinha uma descida no começo do quarteirão, e depois ia suavizando, até ficar plana, próximo à casa dela. Ela então aproveitava essa redução de velocidade e mandava baldes dágua na molecada. Algumas vezes, com "cândida", que era pra estragar as calças jeans dos mais velhos. Nós, menores, nem calça jeans tínhamos. A gente andava de bermuda, mesmo. Naquela época, nem bermudas: eram "Shorts".
Quanto aos carrinhos, o que os mais "ousados" faziam era descer um pedaço da Major Dantas, pra pegar ainda mais embalo, e entrar à direita na Caracaxá, já com uma boa velocidade. Mas era importante calcular corretamente, pois cansei de ver gente se espatifar na calçada, sem conseguir fazer a curva de entrada. Até onde sei, todos os carrinhos tinham um parafuso central na frente, que era o ponto de apoio do eixo dianteiro. Tinham que ter esse parafuso, e um só, pois era ele que propiciava a rotação do eixo dianteiro e, por conseguinte, a direção do carrinho. Alguns, então, tinham esse parafuso bem saliente, e se você batesse de frente em algum lugar, provavelmente iria deslizar pela tábua, batendo alguma parte do corpo – geralmente o saco – nesse parafuso. Quem descia deitado, rasgava o peito. Com o tempo, aprendemos a "embutir" esse parafuso na tábua, para evitar acidentes. Depois de algum tempo – meses, talvez - a coisa foi perdendo a graça: primeiro porque a vizinhança reclamava demais; depois, porque haviam finalizado a construção da "Avenida Nova", no Tucuruvi, onde hoje é a linha do metrô. Antes da inauguração, essa avenida ficou lá, prontinha, mas fechada para o trânsito por um bom período de meses. Conclusão: virou "point" dos carrinhos de rolimã, a ponto de ser até organizado campeonato onde ia gente de toda a região. Com a inauguração e consequente liberação do trânsito para os carros, os carrinhos de rolimã perderam seu espaço.
Mas ainda tínhamos o asfalto novo na Caracaxá. Sem os carrinhos de rolimã, a nova onda, pelo menos para mim, era o skate. Lembro que meu primeiro foi comprado na Mesbla, no Jabaquara, ou seja, do outro lado da cidade. Até hoje não sei por que tão longe, nem como descobrimos essa lonjura de loja. Mas lembro que fomos eu, Rafa e o Kazuo, de metrô, até lá para comprar. Era bem tosco, com rodinhas de plástico, e não durou muito tempo. Fui então me atualizando, e conseguia shapes e rodas mais profissionais, e acabei construindo um skate bem legal, com tudo – rodas e rolamentos - mais moderno. Nessa época, conheci o Lincoln, com quem fazia meus rolos e escambos e provavelmente consegui esse meu skate por obra dele: acabei pegando numa troca com alguma coisa. Esse "japonês" acabou se tornando um grande parceiro, tanto nos rolos como nas manobras, e a gente ficava andando de skate na rua até o anoitecer. Posso dizer sem medo de errar que fomos os percussores do skate no bairro. Mas chegou uma época em que andar só na rua não tinha mais graça. Começamos a alçar vôos mais altos. Ibirapuera. Mais especificamente, Marquise do Ibirapuera. Aquele cimento lizinho era ideal para os skates, e passamos a frequentar assiduamente, aos finais de semana. Como sempre, só isso não bastava. A gente gostava de adrenalina. Então, íamos de ônibus até a praça da bandeira, depois pegávamos outro ônibus que fosse pela 23 de maio. Íamos de ônibus até o viaduto da Rua Vergueiro ou Rua Tutóia, não lembro exatamente, mas sei que era quando começava a descida da 23 de Maio. De lá, no meio dos carros, a gente descia de skate até o Ibirapuera. Naquela época, há 45 anos atrás, era bem menos complicado fazer isso, pois o movimento de carros era infinitamente menor, o asfalto, infinitamente melhor e a coragem, infinitamente maior...
Na Caracaxá, asfalto novo pedia também futebol de rua! Na parte de baixo da rua, que era plana, em frente à oficina do Ferreirinha, a gente marcava os gols, geralmente com pedaços de tijolo, pedras ou chinelos, e a galera passava o domingo jogando bola. Logo começaram a aparecer os craques da rua, e a se formar um time mais "oficial". Com isso, os times das outras ruas começaram a aparecer para disputar com o time da Caracaxá. Confesso que nunca fui um bom jogador de futebol. Diria até que medíocre. Desse time "oficial", nem cheguei a participar. Devido à minha absoluta falta de habilidade com a bola, sempre que ia jogar – ou na maioria das vezes – acabava escalado para jogar no gol. Como goleiro não era ruim (ou não me considerava ruim), e cheguei até a ser goleiro do time da classe no colégio. Até o dia em que, numa semi-final de campeonato, tomei dois frangos e fui substituído. Depois disso, aprendi a lição: futebol definitivamente não era minha praia.
Há uns dois anos, estive novamente na Caracaxá. Prestei muita atenção no estado de conservação daquele asfalto, que fez muita gente feliz e fiquei triste: sofreu muito com o passar dos anos. Cada obra, um buraco. A cada buraco, um remendo. E de remendo em remendo, o asfalto foi perdendo aquela lizura dos áureos tempos. Daquela época, ficou só a lembrança, mesmo.
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Lembranças
No FicciónUM APANHADO DE ALGUMAS LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Escrever essas lembranças tem me dado uma enorme alegria. Fazendo isso, relembro dos áureos tempos de criança, quando a maior preocupação era de que modo e com qual brincadeira gastaria me...