UM APANHADO DE ALGUMAS LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA
Escrever essas lembranças tem me dado uma enorme alegria. Fazendo isso, relembro dos áureos tempos de criança, quando a maior preocupação era de que modo e com qual brincadeira gastaria me...
Com a mudança de colégio, a mudança de período e a consequente mudança de turma, novas amizades foram surgindo. O Nico e o Nando viraram meio que parceiros de aventuras. Mas a gente já estava mais velho, então as aventuras juvenis agora envolviam carros e motos. O Nando tinha uma irmã, que namorava o Zé. Esse passou a fazer parte da nova gangue, com sua Honda XL 250, a tal xizelona, uma moto gigante que todo mundo adorava. Tinha também o Salgado, que tinha uma Honda ML, a qual ele incrementou com carenagem, escapamento especial, e ficou interessante. O Nando tinha um CG, em "sociedade" comigo. Compramos a moto zero, na época das correntinhas, e a gente tinha um acordo: Um final de semana de cada um, para usar a moto. Mas eu era doido por uma Turuna, a esportiva da época. Achei uma à venda. Fiz a proposta pro vendedor, pra gente fazer um rolo (eu era especialista em rolos) no meu som. O cara topou, estava em Santo Amaro. Num sábado à tarde, reuni a galera pra ir junto comigo ver a moto, mas quando eu estava saindo de casa, meu pai, que nunca foi muito com a ideia de eu ter moto, não deixou. Disse que o som não sairia de casa. Viola no saco, fiquei com a cegezinha, dividindo com o Nando. Com o tempo, alguém apareceu com uma Yamaha cinquentinha que era de corrida, com um motor envenenado. Dei-lhe o nome de Total. E eu adotei a motinho como minha; dei um talento nela, e apesar de desproporcional – ela pequenininha e eu grandão – usava-a pra sair nas baladas com a turma. A gente ia quase todos os sábados à noite para o Ibirapuera, nas cercanias do shopping, "azarar" as meninas. Nunca conseguimos nada, mas a bagunça valia apena. A Total, por ser de pista, andava muito, tinha o escapamento aberto, e fazia um barulho infernal. Lembro que numa saída dessas, como a gente não usava capacete (não era obrigatório, na época) certa vez entrou uma mosca no meu olho, em plena 23 de Maio, a sei lá quantos quilômetros por hora. Na hora, achei que fosse uma pedra, e até conseguir parar, andei uns bons metros às cegas. A gente voltava para o bairro de madrugada, e hoje, como pai, imagino como ficava o coração das nossas mães, com um bando de moleques na rua, de moto, sem dar notícias. Não sei que fim levou a motinho. Provavelmente o Nando tenha feito algum rolo com ela. Quando comecei a namorar com a dona Rosangela, a gente achava melhor sair de carro, pois era muito mais confortável – apesar de ser um fusca – e a moto ficava na garagem, mesmo sendo o "meu" final de semana de usá-la. Eventualmente, quando chegava em casa, o Nando tinha ido lá e pegado a moto na minha vez. Ele fazia muito isso, e eu não me importava. Até o dia em que, tentando ensinar a namorada a pilotar, ela entrou com a moto numa casa, derrubando o portão e amassando o garfo e a roda dianteira. Somado à experiência dos ganchos do caminhão, quando quase morri, acabei desistindo de motos e desfizemos a "sociedade". Ele assumiu os custos do conserto e o restante da dívida da moto.
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Ainda na fase das motos, um belo dia o Salgado inventou de ir à praia de moto. Ele pilotando, e eu na garupa. Ele tinha um primo no litoral, e a gente ia na casa desse primo dele. Acho que era em São Vicente, se não me falha a memória. Na época, ele tinha um walkman que, além da saída para fones de ouvido, tinha também entrada para microfones. Lembro que fiz um dispositivo embutindo os fones de ouvido nos forros dos capacetes, de modo que a gente pudesse ir conversando durante a viagem. Depois, ele passou a usar o dispositivo quando saía com a namorada. No dia programado para a viagem, um sábado de manhã, chovia muito. Pegamos chuva no caminho todo, e quando chegamos no litoral minha jaqueta – de lã – estava ensopada. Antes de irmos à casa do primo, resolvemos dar uma volta pela praia, e acabamos conhecendo uma galera no litoral que também era aficionada por motos. Acabamos ganhando um almoço grátis de um cara dessa turma. O primo do Salgado tinha uma CB 400, um ícone na época, e uma das mais esportivas acessíveis no Brasil daqueles tempos de importações proibidas. Lembro que o primo deixou a gente dar uma volta e a sensação foi incrível: estávamos acostumados com motinhos pequenas, e pilotar uma CB foi instigar o desejo de ter uma moto mais potente. O Salgado morava na Julio Buono, num sobrado de esquina, e lembro que na parte de baixo tinha uma oficina, uma pequena indústria, com prensas e outras máquinas. Acho que faziam dobradiças, lá. Mas nesta época, estava desativada. E a gente usava esse espaço para fazer nossos "reparos" nas motos. Certa vez, o Katá apareceu com uma mobilete, falhando muito. Resolvemos, numa noite de sábado para domingo, desmontar o motorzinho dela para limpeza. Ficamos a noite toda nisso, e no domingo de manhã, após montado, ele saiu com a motinho na rua. Devia ser umas 6 da manhã, a motinho estava sem escapamento, soltava fumaça até pelo guidão, e ele indo pra casa acordando toda a vizinhança com o barulho.
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Aos finais de semana, quando a gente não ia para o Ibirapuera ou outro lugar inventado na hora, a balada era no Jonas Esfihas, na Julio Buono. Juntava a galera das motos e eventualmente a dos PX para comer duas esfihas de queijo, que eu particularmente achava sensacional, e o pessoal tirava sarro, porque eu comia com garfo e faca. Sempre fui chique... Comia só duas, porque era o que o dinheiro dava, principalmente no final do mês. Esses encontros foram ficando cada vez menos frequentes, pois eu já estava namorando a dona Rosangela. O pai dela exigia que ela estivesse em casa antes da meia noite. Então, a gente saía pra namorar e perto do horário, eu a levava pra casa. Na volta, parava no Jonas, encontrava a galera e emendava a noite até o dia seguinte na bagunça. Lembro que a "bagunça", naquela época, era diferente da bagunça de hoje. Atualmente vejo jovens que não conseguem se divertir sem bebida alcoólica ou uso de drogas. Naquele tempo, a gente se divertia com coca-cola e, no máximo, cigarros. O que importava era quem estava com a gente.