Capítulo 6 - Quatro vielas e compras à granel

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Uma coisa legal de se morar no subúrbio é que a gente acabava inventando as brincadeiras. No nosso quarteirão, a Rua Caracaxá tinha, e ainda tem, quatro vielas. A primeira, próxima da esquina da Major, é a que fazia fundos com a fabriquinha de plásticos, onde a gente ia pegar as rodinhas para os carrinhos de lata de sardinha. Na esquina dessa viela, morava a Dona Inês, japonesa, que tinha um armazém na esquina com a Major Dantas. Em frente ao seu armazém, do outro lado da Major Dantas, havia o açougue do Sr. Julio. Descendo a Caracaxá, a segunda viela do lado esquerdo, fazia um "L", e no final, se comunicava com a quarta viela, que ficava mais no final do quarteirão, e eram separadas por um muro. Na terceira, à direita, era onde a gente morava. Nossa viela fazia fundos com um terrenão que invariavelmente servia de esconderijo nas brincadeiras de esconde-esconde. A gente subia no muro da última casa, e pulava pro lado de lá. Poucas vezes fiz isso, porque o mato geralmente era alto. Logo alguém descobriu o valor do imóvel, e construiu um conjunto de sobrados que acabou com nossa diversão. Depois de vendidos, a primeira coisa que o proprietário fez foi aumentar a altura do muro, e isso tornou a até então difícil tarefa de pular o muro, impossível. A primeira viela era de terra, a segunda era cimentada e a nossa era de terra, e tinha grama na parte mais no final. Era nosso campinho de futebol. Mas a quarta viela era de paralelepípedos. Acho que ainda é, até hoje. E é uma descida bem acentuada. Então, alguém inventou uma nova brincadeira: a gente pegava uma tábua, de preferência uma frente de gaveta que fosse curvada, ou que tivesse a frente curvada, ia no açougue do Seu Júlio, pegava sebo, que ele jogaria fora, passava na parte de baixo da tábua e descia a viela escorregando em alta velocidade. Quando chegava lá embaixo, a tábua "travava" na terra da rua e a gente saía deslizando, rolando e se ralando no chão. Mas ainda assim era muito divertido. Quando a gente não achava uma tábua com a curva na frente, corríamos o risco da tábua reta enroscar em algum paralelepípedo mal encaixado que estivesse mais alto, e a tábua travava do mesmo jeito. A gente vivia com a bunda raspada e era um "short" por dia. Chegava em casa quase todo dia com o short rasgado, e a mãe, lógico, ficava P da vida. Essa brincadeira também não durou muito, porque o sebo que a gente usava nas tábuas deixava as pedras da rua muito escorregadias e a mulherada reclamava, porque era perigoso, já tendo havido inclusive casos de escorregarem e caírem de bunda no chão. Fomos intimados a parar. Essa viela fazia um "L" na parte final, e se comunicava com a outra, do mesmo lado da rua, sendo separadas por um muro. Usávamos essa comunicação entre as duas nas brincadeiras de esconde-esconde, usando como rota de fuga para não sermos encontrados.

Como disse, nossa viela era de terra. No final havia uma parte gramada, que era nosso campo de futebol. A foto que ilustra esse capítulo é de lá, daquela época (inclusive comigo no gol). Apesar de sermos todos os vizinhos amigos e conhecidos, havia, na penúltima casa, a dona Belinha: uma senhorinha já velhinha, que eu me lembre sempre mal humorada, que tinha um milhão de cachorros trancados dentro de casa e que tinha a mania de furar todas as bolas que porventura caíssem no seu quintal. Então, a gente tinha que tomar o maior cuidado ao chutar a bola. Se caísse na casa dela, e desse o azar de ela ver, já era. Uma bola a menos no mundo. Se a gente desse sorte, e ela não estivesse em casa, alguém tinha que pular lá pra pegar a bola. Como ela era uma pessoa muito reservada, a gente nunca sabia se ela estava em casa ou não, daí o medo de pular lá e ser pego no flagra. Um pouquinho mais pra cima da casa da dona Belinha, perto do muro, moravam o Ché e o Bigode, e em frente à casa deles tinha uma parte de terra batida que era nosso campinho de bolinha de gude. A gente passava as tardes jogando, depois de ter feito os buracos do "campo", cuja distância era medida em palmos. Ainda hoje lembro das regras do jogo e dos nomes das jogadas, como "bólus", "estecar" e assim por diante. Depois de um tempo, os vizinhos se reuniram e decidiram cimentar a viela. Fizeram um mutirão, e cada um comprou uma parte do material que fosse suficiente para cimentar a frente de sua casa. Lembro que a obra foi encabeçada pelo Tico, que era irmão do Ché e do Bigode, e trabalhava com obras. Em um final de semana, conseguiram cimentar a viela e assim nossos campinhos, tanto o de futebol como o de bolinha de gude, desapareceram.

No empório da Dona Inês, a gente achava de tudo um pouco. Haviam aqueles expositores onde ficavam os grãos: milho, feijão, arroz, tudo à granel, que ela pegava com uma concha de alumínio e pesava, colocando num saco de papel, na frente do cliente. Havia também batata, cebola e outros vegetais, vendidos por quilo. Vendia também pão e leite, e era comum agente ir lá de manhã comprar as "bengalas" de pão. Na parte lateral esquerda do empório, um balcão que servia bebidas. Lembro que, anos mais tarde, quando já não era da Dona Inês, a gente voltando da escola passava lá para tomar tubaína. Naqueles tempos, não haviam, como hoje,supermercados. Lembro que o primeiro a ser inaugurado foi um que ficava na Julio Buono, e lembro também a primeira vez que fomos fazer compras lá. A gente fazia a compra, e o carro do mercado ia, mais tarde, entregar em casa. Pra falar a verdade, aqui, hoje, na cidade onde moro, os supermercados ainda fazem essa "cortesia". Mas antes dos mercados, as compras para a semana eram feitas na feira. Legumes, vegetais, arroz, feijão, carne, peixe, frango, era tudo comprado na feira. Óleo, me lembro, era comprado a granel. A gente levava o garrafão, e o dono do estabelecimento enchia com um dispositivo que hoje lembra um desses que há em oficinas para colocar óleo no câmbio dos carros. Uma manivela,em cima de um barril ou tambor, que jogava o óleo para um bico embaixo do qual ficava o garrafão. Contando as voltas da manivela, ele sabia quantos litros haviam sido colocados no garrafão. Na feira, além dos víveres básicos, tinha abarraca que eu mais gostava: doces e bolachas. Meu pai, quando estava de bom humor, deixava a gente escolher as bolachas, que eram pagas por quilo. Adorava os pés-de-moleque e doces de leite, e fazia a festa nessa barraca. No final da feira, tinha uns moleques que faziam carretos: Quem não tinha carro (a maioria das pessoas) e não queria carregar as sacolas (de lona, que a gente levava de casa) contratava esses meninos que, com seus carrinhos – geralmente uma caixa grande de madeira com rodinhas de rolimã – levavam as compras pra gente até em casa. Normalmente, a gente ia em três na feira, então, apesar do peso, dava pra trazer as compras na mão. Mas lembro de uma vez em que o Beto, meu outro irmão,trazia uma das sacola com as compras. Diferentemente de hoje que é comprado em embalagens de 5 quilos, o arroz era comprado à granel, e embalado num saco de papel. E naquele dia, o Beto deixou cair da sacola um saco de arroz, que ao cair no chão, se rasgou espalhando arroz pela rua toda. Tomou uma bronca tão grande do meu pai, ali mesmo, no meio da rua, que naquele domingo não quis almoçar nem jantar, de tão chateado que tinha ficado. Anos mais tarde, passei a frequentar outra feira, a da Tanque Velho às quartas-feiras, pra comprar pastel para almoçar, na época em que eu trabalhava com o André, num estúdio que agente montou na casa dele. Era na feira que os vizinhos se encontravam e colocavam um pouco da proza em dia. Coisa difícil de se fazer hoje, com essa infinidade de supermercados que existem.  

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