Após um longo período, eis que volto a escrever. Em Janeiro, passei por nova cirurgia de catarata (ah, a idade...) na qual houve complicações, e fiquei por um tempo quase cego de um olho, o que me tirou a disposição de escrever. Volto a escrever agora, neste começo de abril.
Depois de haver trabalhado na Copas por 4 anos e após a experiência com a fabricação de pulseiras, como comentei em capítulos anteriores, acabei indo trabalhar na gráfica do Cursinho Universitário. Não vou contar toda a história de novo, uma vez que já comentei em outro capítulo. Mas teve a ver com os grafites na parede do meu quarto. A gráfica do cursinho ficava na Bela Vista, no centro do Bixiga, bem em frente à quadra da Escola de Samba Vai-vai, num prédio anexo ao prédio principal do Cursinho Universitário, um dos maiores da época. Era uma época onde a concorrência para faculdades Federais era grande, e o mercado de cursinhos pré-vestibulares fervilhava. O Universitário era um dos maiores. E a gráfica do cursinho era realmente uma gráfica, com impressoras, encadernadoras, sala de gravação de chapas e fotolitos, enfim, todo o material necessário para que se fizessem as apostilas do cursinho, era feito lá. E havia também o departamento de arte, onde fui trabalhar como desenhista. Naquela época, muito antes do computador e da computação gráfica, era tudo feito à mão. A gente pegava as "laudas", que eram folhas de papel com texto impresso por uma "super moderna Composer", uma máquina de escrever metida a importante, e usando cola de benzina, aplicávamos esses textos numa prancha, processo que a gente chamava de Past-up. Essa prancha montada era então enviada à outra área, para que se gravasse o fotolito, e depois a chapa para impressão. Eventualmente, havia a necessidade de alguma ilustração nas apostilas, e aí entrava meu dom de desenhista. Na época, eu era viciado nas revistas Mad, e nos quadrinhos de Sergio Aragonés e Don Martin, e acabei meio que pegando um pouco do estilo deles. Mas o interessante dessa história toda vem a seguir: Apesar de desenhar relativamente bem, eu nunca havia trabalhado como desenhista antes. Não conhecia os materiais empregados na arte, como por exemplo os gabaritos, escalímetros, régua de composição e as canetas nanquim. Então, meu primeiro dia na gráfica foi muito complicado. Tive que enrolar o dia inteiro, inventando alguma coisa pra fazer, já que eu só conhecia a parte artística, e nada da parte técnica.
Nessa época, a minha conexão com a turma da Caracaxá já havia mudado. Através do Ché, nosso vizinho, conheci o Nando, e através dele, seu irmão, Nico. O Nico era um grande artista. Um cara talentoso, grande desenhista, pintor e companheiro de altos papos das madrugadas no Jonas Esfirras, na Júlio Buono. Foi um mestre em me ensinar a arte de explorar coisas novas, como por exemplo, a resina de poliéster. Lembro que a gente comprava resina numa loja na rua Cubatão, na Vila Mariana, e com essa resina ficávamos inventando coisas. Uma das coisas inventadas nessa época foi minha criação de aranhas caranguejeiras. Fiz uma caixa grande de madeira, e na parede frontal, ao invés da madeira, colei um vidro traseiro de uma Kombi, que era plano, e ficou um terrário muito legal. Adicionei uma decoração com terra, areia, uns pedaços de pau, e consegui uma aranha caranguejeira fêmea. Sempre gostei dessas coisas que todo mundo acha esquisito. Peguei a Jurema (esse era o nome dela) numa bananeira na casa do Ronaldo e levei-a para sua nova morada. Cuidava dela com muito carinho, até caçava umas baratas, moscas e grilos pra ela se alimentar. A caixa ficava em cima da laje, próxima à janela do meu quarto, e era bem fechada, com tampas de madeira articuladas com dobradiças. Assim, a Jurema não tinha como sair. Ficou um bom tempo comigo. Então, passados alguns meses, ela aparece com uma bola branca às costas, parecendo um chumaço de algodão. E eu na época não fazia idéia do que seria aquilo. Era uma bola de ovos, uma ovoteca. Talvez milhares de ovos, envoltos em teia, que ela não soltava por nada no mundo. Com o tempo, esses ovos eclodiram, e um milhão de aranhinhas saíram da bolinha e escaparam da caixa que, apesar de tampada, não havia sido projetada para as micro-aranhas recém-nascidas, que fugiram pelas frestas. Desnecessário mencionar que infestei a vizinhança de aranhas, e mais uma vez, tomei um ultimado do meu pai, para me livrar do meu passatempo. Aí então é que entra a resina de poliéster. Com muita dó, tive que sacrificar a Jurema. Mas para homenageá-la, uma aranhona quase do tamanho da minha mão, nada mais honroso que preserva-la em resina. E assim fiz. Ela ficou comigo, como "peso de papel" por um bom período de tempo – anos, acompanhando-me inclusive na minha mesa de trabalho, onde quer que eu fosse. Depois, com a experiência e fuçando as novidades da loja da Rua Cubatão, achei material para fabricar moldes de silicone, e comecei a fazer cópias de esculturas, peças de xadrez, essas coisas, tudo em resina. Mas sempre como passatempo, nunca comercialmente. Hoje vejo na internet pessoas fazendo agora o que eu já fazia em 1985.
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Lembranças
Phi Hư CấuUM APANHADO DE ALGUMAS LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Escrever essas lembranças tem me dado uma enorme alegria. Fazendo isso, relembro dos áureos tempos de criança, quando a maior preocupação era de que modo e com qual brincadeira gastaria me...