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𝐃𝐄𝐙𝐄𝐒𝐒𝐄𝐓𝐄 𝐀𝐍𝐎𝐒 𝐀𝐓𝐑𝐀́𝐒
ᴇsᴛᴀᴅᴏs ᴜɴɪᴅᴏs, ᴄᴀᴍʙʀɪᴅɢᴇ
28 ᴅᴇ ᴊᴜɴʜᴏ / 16:16

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𝗔𝗟𝗘𝗫𝗔𝗡𝗗𝗘𝗥 𝗖𝗢𝗟𝗟𝗜𝗡.
(cinco anos)

Ela era pequena.
Muito pequena.

Tão pequena que parecia não caber no mundo ainda, como se tivesse chegado cedo demais. Enrolada em cobertas brancas, quase desaparecia ali dentro, e eu precisei olhar com atenção para ter certeza de que ela estava mesmo ali.

Jasper e eu ficamos parados diante do berço, quietos como nunca ficávamos. O silêncio parecia importante, como se o quarto tivesse regras próprias. Tive medo de respirar mais fundo e fazer barulho, medo de qualquer coisa assustar aquela coisinha que mal sabia existir.

Stella.
O nome dela era curto. Bonito.
Combinava com ela.

O berço era pequeno. O quarto era pequeno. A luz fraca deixava tudo mais lento, mais suave, como se o mundo tivesse decidido falar baixo só para ela.

Mas o que eu sentia dentro do peito não era pequeno.

Era grande demais para o meu corpo de cinco anos. Um aperto estranho, misturado com curiosidade e cuidado, como quando a gente segura algo importante sem saber direito o porquê.

Eu não sabia explicar o que era aquilo.
Só sabia que precisava ficar ali.
Parado.
Olhando.

A tia Ellie tinha dado à luz na semana passada, e hoje finalmente podíamos vê-la. Mamãe avisou antes mesmo de entrarmos no quarto:
— Nada de falar alto. E nada de tocar nela sem permissão.

Eu concordei com a cabeça várias vezes. Não porque fosse obediente — mas porque eu estava com medo. Medo de encostar e ela se partir. Como se fosse feita de vidro.

O quarto estava meio escuro, mas a luminária em formato de lua deixava tudo dourado, macio. A luz desenhava sombras suaves nas paredes, e aquilo fazia o lugar parecer um sonho.

Stella dormia.
Ela era delicada. As mãos minúsculas pareciam de brinquedo, os pés quase invisíveis dentro de uma meia ainda menor. A boca era pequenina, levemente arqueada, como se estivesse guardando um sorriso só para ela. O nariz era empinadinho, e as bochechas… fofas demais. Dava vontade de apertar — mas eu não apertei.

Os poucos fios de cabelo eram escuros. Estranhei, porque a tia Ellie e o tio tinham cabelos claros. Pensei que talvez o cabelo dela estivesse “enganando” agora e que, quando crescesse, ficaria loiro também. Crianças pensam assim.

Ela estava avermelhada.
Inclinei a cabeça, confuso.

— Mamãe… — sussurrei. — Por que ela tá com batom vermelho no corpo todo?

Mamãe e tia Ellie riram baixinho. Não entendi de primeira, mas elas explicaram que era normal. Temporário.

Temporário.

Tudo nela parecia temporário. O tamanho. A cor. O silêncio.
Um dia ela ia falar. Andar. Correr. Talvez correr comigo.

Meu coração deu um pulinho com essa ideia.
Eu nunca tive uma amiga menina. Só irmãos. Só bagunça. Só gritos.

𝐎𝐬 𝐐𝐮𝐚𝐭𝐫𝐨𝐬 𝐈𝐫𝐦𝐚̃𝐨𝐬Onde histórias criam vida. Descubra agora