𝑺𝑻𝑬𝑳𝑳𝑨 𝑴𝑨𝑬𝑽𝑬
Após me despedir de Matt, voltei para o meu quarto, mas o sono simplesmente não chegava. O tempo foi passando e, com tempo, a luz do sol começou a adentrar pelas frestas da cortina branca, iluminando o ambiente. Já eram seis horas? Em minha mente ainda habitam lembranças da madrugada, recordações que eu queria desesperadamente apagar. Eu estava deitada sob um edredom que, de maneira estranha, me deixava tanto quente quanto fria, como se estivesse me preparando para um dia longo e agitado. Inquieta, estiquei meu corpo na cama e ouvi o leve estalo dos meus ossos contra o colchão. A sensação de desconforto físico e mental era intensa, criando a expectativa de um descanso que nunca chegava. Eu me sentia cada vez mais frustrada e angustiada, presa entre a exaustão do meu corpo e a agitação provocada pelas memórias insistentes que não me deixavam em paz.
O quê será de mim daqui algumas semanas ? Ou meses?
Meus olhos rolam pelo quarto, caçando por algo indescritível. Nostálgico talvez? Mas não havia nada lá; era apenas um quarto sem graça, uma penteadeira com um mural de fotos ao lado e nada além disso. Acho que esse é o resultado de crescer. Não havia brinquedos, desenhos, casinhas de bonecas, muito menos roupinhas cor de rosa espalhadas pelo chão. Meus lábios se erguem em um sorriso ao me lembrar do quão desorganizada eu sou, desde criança. Contudo, minha atenção é parada abruptamente para o armário de ursinhos. Onde havia apenas dois, e o amplo espaço que sobrava daquele armário me causa um aperto em meu peito que, se aguçava cada vez mais. Meu sorriso se desfaz. Como se eu conseguisse sentir aquele tempo retornar, me afogando com os turbilhões de sentimentos que se apossou em mim no passado. Aquela lembrança em questão era a que mais me doía em mim. Era quando eu realmente entendi que Alexander não voltaria a ser o mesmo, nunca mais.
Foi quando um ponto de interrogação enorme se estabeleceu em minha mente; se perguntando todos os dias o porquê dele ter feito isso comigo. Ele sabia que aqueles ursos eram minha vida. Eram as únicas coisas que me faziam sentir que meu pai ainda estava lá comigo. Era uma sensação boa, que agora só é lembrada de forma negativa a partir do momento que entrei no quarto e encarei Alexander rasgando a cabeça de cada um deles.
𝑆𝑇𝐸𝐿𝐿𝐴 𝑀𝐴𝐸𝑉𝐸
(ᴏɴᴢᴇ ᴀɴᴏs.)
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ᴘʀɪᴍᴇɪʀᴏ ᴅᴇ ᴊᴜɴʜᴏ ᴅᴇ 2018
ᴄᴀᴍʙʀɪᴅɢᴇ.
sᴇᴛᴇ ᴇ ᴠɪɴᴛᴇ ᴏɪᴛᴏ ᴅᴀ ɴᴏɪᴛᴇ
Finalmente em casa. Ao sair do carro e fechar a porta, um sorriso involuntário surgiu em meu rosto, quase impossível de conter. A lembrança do elogio que Senhor Vollmer ainda ecoava na minha mente.
"Você é esplêndida, querida. Você vai brilhar! Continue extraordinária, e verá o mundo em suas mãos." Sempre me perguntei se eu realmente era tão boa quanto ele dizia, era uma dúvida que me acompanhava mesmo em momentos de felicidade, como essa. Ao entrar em casa, eu e a Sra. Collin fomos recebidas por um silêncio profundo. A casa parecia vazia. Observei que a Sra. Collin deu uma rápida olhada pela sala, seu olhar curioso captou minha atenção.
— Querida, sabe onde os meninos possam estar? — Indaga
— Talvez eles estejam no quarto, tia. — Comentei, ela assentiu, concordando. – Já desço para o jantar, irei tomar um banho.
Subi as escadas rapidamente, sentindo uma mistura de expectativa e ansiedade. Não podia esconder de mim mesma; eu estava muito feliz com o dia de hoje. Não vejo a hora de contar para Sophie amanhã, no colégio. Me direcionei até o meu quarto, meus olhos notam a porta entreaberta, quase fechada. Franzi a testa ao me lembrar que ao sair havia fechado a porta. O corredor por sinal estava silencioso, o que algo me dizia que os meninos não estavam no quarto. Me aproximando o suficiente da minha porta, um som cortante rompe a tranquilidade; o rasgar de um tecido macio e familiar. Meu coração para. Empurro a porta, revelando o motivo desse ruído. Meus olhos se arregalaram. Minha pequena mochila escorrega da minha mão, sinto meu corpo congelar por inteiro e o desespero crescer dentro do meu peito. Meus olhos pousaram em Alexander que agora me olhava friamente, segurando uma das minhas pelúcias que meu pai havia me dado. Contudo, não era essa a minha maior confusão.
— O... O quê você está fazendo? — Murmurei, meu tom entrecortado, falho e trêmulo.
Em mim, foi um choque, estava em transe. Meus olhos percorrem pelo chão espalhado por algodão e outras pelúcias rasgadas; sem cabeças, braços, pernas. Olhei para o mesmo uma outra vez.
— Por tudo que me fizeram por sua culpa. — Diz, sua voz carregada de um tom enojado e cheio de raiva. Era como se cada palavra estivesse impregnada de descontentamento, uma mistura explosiva de frustração e indignação.
De repente, sua mão firme agarrou o urso de pelúcia e o puxou com força. O barulho se transformou em um rasgado mais agressivo, um ruído doloroso que ecoou no ar, trazendo consigo uma sensação de perda e dor. Meus olhos transbordaram com as lágrimas repentinas. Observo os fios do tecido se separarem e o enchimento fofo começar a sair, flutuando lentamente.
Gritei. Era o grito mais alto que dei em toda minha vida. Corri em direção a Alexander que já agarrava uma outra pelúcia, sobrando apenas três no armário que meu pai comprou. Bati em seu braço, com toda a força que eu tinha, chutei, puxei sua blusa, agarrei seus braços, mordi, belisquei; tudo em vão, ele rasgou da mesma forma. Gritei uma outra vez, desesperada em meio às lágrimas com o sentimento que me destruirá para sempre. O barulho de passos pesados se aproximava, acompanhado com outros passos vindo da escada de madeira
— ME AJUDEM, POR FAVOR ! — Berrei.
Matt e Jasper apareceram em frente a porta, seus olhos arregalados, confusos.
— Por favor, pare Alexander. — Implorei, quase em um sussurro. Engasgada com o choro em minha garganta. Eu tentava o segurar com toda a força que eu tinha.
Ele rasgou outra. Havia apenas duas agora. O ruído era cada vez mais forte e mais desesperado a cada pelúcia. Os ursos estavam irreversivelmente danificados, havia vários espalhados pelo chão, o algodão roçava nas costas dos meus pés, me fazendo acreditar que aquele pesadelo era real. Por favor, pare. Matt correu em nossa direção; pulando em cima de Alexander, que cambaleou para trás, mas em seguida, o mesmo empurrou para o chão brutalmente. Outros passos fortes viam em direção ao meu quarto e eu orava para que fosse os Senhores Collins.
— PARE ALEXANDER! — Pedi uma outra vez, ao vê-lo se dirigir para mais uma pelúcia.
— O quê está acontecendo aqui!?
Uma voz grave, bruta e ríspida sondou pelo meu quarto. Aquela voz tirou a atenção de Alexander e seu olhar mudou bruscamente. Era notável. Contudo, meu choro ainda ecoava mais alto que tudo naquele cômodo.
— Pai, o Alexander tá rasgando as pelúcias que o pai de Stella deu a ela quando era vivo.
Comentou Samuel, no canto do quarto ao lado de Jasper, que lançava um olhar tristonho para Alexander e para mim.
Senhor Collin avançou em cima de Alexander com uma velocidade que só podia significar violência, rapidamente Matt me puxa para o lado e me envolve em seus pequenos braços. E então, o som estridente do punho do Senhor Collin que acabara de colidir no rosto de Alexander, sondou pelo cômodo inteiro. Meu corpo reage com um pulo leve, despreparado com o susto.
— QUEM VOCÊ PENSA QUE É, ALEXANDER? — Exclamou Sr.Collin, que agarrava a gola da camisa de Alexander para perto de si. — TÁ ACHANDO BONITO, GAROTO? TA SE ACHANDO O QUÊ? DELINQUENTE!?
— Amor, calma. — Comentou a senhora Collin, que até aquele momento não havia dito nada.
— CALMA, MULHER? SEU FILHO ESTÁ NA MINHA CASA, COME DA NOSSA COMIDA, USA DO NOSSO DINHEIRO E ACHA QUE TEM DIREITO DE FAZER O QUÊ QUER E COM QUEM QUISER. AGINDO IGUAL A CRIANÇA BIRRENTA.
— Igual como você ficou quando soube que eu era filho de outro cara?
Alexander recebeu outro tapa. Fechei os olhos depressa, me negando a ver.
— MARIDO! — Exclamou Sra. Collin
— ME RESPEITA MOLEQUE! SE NÃO VOCÊ VAI PARA O OLHO DA RUA. JÁ DISSE QUE VOCÊ NÃO É UMA CRIANÇA MAIS. MAS TAMBÉM NÃO É UM HOMEM, SÓ TEM DEZESSEIS ANO E ACHA QUE É O QUÊ?
— Me bota no olho da rua então.
Disse Alexander com um sorriso irônico crescente em seus lábios. O silêncio ensurdecedor se estabeleceu. Senhorita Collin levou a sua mão direita até sua boca, seus olhos enormes e marejados. Jasper não estava mais lá, não percebi a hora que o mesmo se retirou do quarto.
— Ótimo, daqui uma semana você vai para um internato, bem longe daqui.
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𝐎𝐬 𝐐𝐮𝐚𝐭𝐫𝐨𝐬 𝐈𝐫𝐦𝐚̃𝐨𝐬
RomanceStella convive na casa dos Collin's desde quando nasceu, por causa da sua mãe, Ellie Maeve, que é amiga de longa data da Sr. Collin, a Natasha. Stella Maeve, uma garota de 17 anos, tem uma história longa na casa dos Collin's. A mesma convive desde...
