XXIX - Desatino

1.6K 107 230
                                        


Giro a chave na fechadura, mais força que o necessário diante de meus dedos trêmulos

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Giro a chave na fechadura, mais força que o necessário diante de meus dedos trêmulos.

O tremor se espalha, dominando o resto de meu corpo e mal percebo o instante em que estou correndo para o banheiro, tirando minhas roupas que parecem queimar a pele e me enfiando debaixo da água tão escaldante quanto, deixando que junto da água pelo ralo, me permita realmente que as lágrimas corram por ali.

Desde muito jovem, sempre soube que a vida toma rumos inesperados e que pode virar do avesso em uma curta fração de segundo.

Mas agora, no atual tempo e no desespero dentro de meu peito, eu nunca imaginei que a vida seria tanto o que dizem sobre uma faca afiada, que as vezes salva e as vezes fere. No meu caso, ela enterrou-se em meu peito, girando, girando e transformando meus maiores medos no maior pesadelo existente. E o pior, meus olhos seguiam abertos revivendo cada instante.

Mas não era um sonho ruim, ou um temor passageiro. Era real, real demais, e machucava muito mais que a metáfora.

Quando Alessandro saiu porta a fora em busca de nosso café, tomei um banho rápido e desci as escadas, pronta para arrumar a bancada para nosso desjejum e esperar por ele. Eram nossas últimas horas ali, e eu queria aproveitar delas tanto quanto o possível.

Queria nossa domesticidade, nossos carinhos sem pretensão, beijar sua boca entre sorrisos, provocar sua pele, sentir meu peito aquecer de amor antes que tivéssemos que voltar para Brasília, para nossa vida de compromissos e escapadas sorrateiras onde provavelmente agora juraríamos amor em cada uma delas, tanto quanto fizemos nas últimas horas.

Mas, o segundo perdido de tempo no bater do relógio, trás o som de meu celular por Bento inteiro.

O som do objeto barulhento me atinge com um arrepiar na espinha, sabendo que programado para emergências, apenas quatro pessoas poderiam me ligar: minhas filhas, minha mãe e minha assessora.

No ir de encontro ao som, pego o celular e vejo o nome de minha filha mais velha brilhando na tela.

—Filha, tudo bem? —pergunto já agoniada, mesmo sabendo que algo estava errado.

—Você está com Alessandro ainda? —Ela pergunta de uma vez.

—Sim, irei para Brasília hoje à noite. O que aconteceu?

—Mãe... —Ela suspira na chamada, posso sentir o tremular de sua voz. —Preciso que fique calma.

—Maria Fernanda, você está me deixando preocupada. —Falo em uma única respiração, segurando o telefone com força.

—Papai tem fotos. —Ela choraminga  —Muitas fotos.

—Fotos? Que tipo de fotos?

—Ele tentou ligar pra você, estava furioso. Eu nunca o vi tão bravo, mamãe, tão... Não ele.

Em Nome do Argumento - Simone e Alessandro - SimolonOnde histórias criam vida. Descubra agora