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Já era manhã quando meus olhos se abriram, e logo percebi a ausência de Tom ao meu lado. O lençol do lado dele estava amassado e ainda quente. Suspirei fundo, me sentando na cama, passando as mãos pelo rosto cansado. Me levantei devagar e caminhei até o banheiro. No caminho, avistei as roupas dele jogadas pelo chão. Nenhuma surpresa — Tom sempre teve esse hábito relaxado.

Entrei no banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes, tentando não pensar em nada. Mas ao sair, fui até as roupas para recolhê-las. E foi aí que um papel caiu da calça dele. O barulho foi pequeno, mas dentro de mim, foi como uma bomba.

Me abaixei e peguei o papel.

Um número. Um número de telefone.

Parei. O tempo pareceu congelar. Senti meu peito apertar, o coração disparar. Não era só um número qualquer — era o símbolo de tudo que já doeu antes. Respirei fundo, prendi as lágrimas e engoli o nó na garganta.

Me vesti em silêncio, peguei meu celular e o maldito papel, e desci pelas escadas do hotel, sem coragem de pegar o elevador. Cada degrau parecia pesar mais que o anterior.

Na recepção, vi Tom. Ele sorria, ao lado dos meninos, numa lanchonete do saguão. A leveza da cena contrastava violentamente com o caos que tomava conta do meu peito.

Caminhei até ele em silêncio, parei em frente à mesa, e coloquei o papel diante dele. Meus olhos encontraram os dele — e havia tudo ali: raiva, mágoa, dúvida... e muito amor ferido.

— Bom dia, amor. Eu posso explicar sobre isso. — ele começou, como se as palavras fossem o bastante.

— Bom dia amor nada. — rebati com a voz baixa, porém firme. — Me explica isso aqui. Estou realmente curiosa pra saber que tipo de história você vai inventar agora.

— Amor, calma... eu só peguei o número pra não deixar a garota triste. Não aconteceu nada. Eu nem pensei em ligar, não ia fazer nada...

— Ah, claro. Você só pegou o número pra ela não ficar triste? — ri, sarcástica. — Tom, a gente já passou por tanta coisa... e você ainda acha que isso é algo pequeno? Acha mesmo que ela te entregou isso aqui pra fazer uma amizade inocente?

— Eu tô tentando te explicar, não briga comigo por um papel.

— Não é só um papel, Tom! Isso aqui é um limite cruzado. Você é casado! Se não quer mais estar comigo, seja homem o suficiente pra falar. Mas não me faça passar por isso de novo. Eu não aguento mais descobrir as coisas sozinha.

Bill tentou intervir:

— S/N... calma. O Tom te ama. Vocês têm uma história. Cadê a confiança entre vocês?

Olhei pra ele com dor nos olhos.

— Já ouvi isso antes, Bill. Confiança? Me fala você onde tá o respeito. Quando algum homem vem até mim com gracinha, eu mostro a aliança, viro as costas. Eu rasgaria esse número na frente dele sem pensar duas vezes. Mas sabe o que é pior? Não é nem ele ter aceitado. É ele ter escondido. Por que não jogou fora? Por que guardou?

Não esperei resposta. Dei as costas e saí. Precisava andar, respirar, clarear minha mente antes que o coração tomasse decisões que a razão não quisesse.

Caminhei pelas ruas sem rumo. Cada passo era uma tentativa de entender como um detalhe tão pequeno podia doer tanto.

💭 Ele não entendeu... Ele nunca vai entender que, quando a confiança já foi quebrada uma vez, qualquer caco afiado vira ameaça de corte.

Enquanto isso, no saguão...

Tom me assistiu ir embora em silêncio. Seus ombros caíram como se um peso invisível estivesse ali há dias. Passou as mãos no rosto e se recostou na cadeira.

— Eu não tô entendendo mais nada... — murmurou. — Ela vive desconfiando de mim, qualquer coisa vira briga. Acho que nosso casamento tá desmoronando.

Georg franziu o cenho.

— Cara, para com isso. Todo casamento tem fase difícil. Não é o fim do mundo.

— Não é só fase, Georg. Eu me esforço, dou tudo de mim... mas ela sempre acha que vou fazer de novo. Eu cansei de ser culpado por algo que já passou.

Bill cruzou os braços, encarando o irmão.

— Você nunca foi um santo, Tom. Ela tem um histórico contigo. A verdade é que ela sente medo. E você sabe o quanto isso pesa pra ela.

Tom suspirou alto, claramente no limite.

— Poha, Bill! Eu sou humano. Tô exausto. Faço tudo por ela, pelos nossos filhos... mas às vezes parece que nada é suficiente. Eu só queria descansar. Um número na calça virou guerra mundial.

Gustav interveio, calmo:

— Talvez ela não precise de explicações. Precisa de segurança. Talvez ela só queira ver que você ainda escolhe ela todos os dias. E hoje, ela não sentiu isso.

Tom balançou a cabeça. Silenciou. Levantou-se devagar e saiu, indo até a parte externa do hotel. Acendeu um cigarro e se afastou dos olhos dos fãs. A brisa batia leve, mas dentro dele havia um vendaval.

💭 O que eu faço? Amo meus filhos, amo minha esposa... mas viver assim, entre brigas e desconfiança... até o amor cansa.

Georg se aproximou.

— Tá pensando em quê?

— Em dar um tempo. Pra mim. Pra ela. Talvez a gente precise disso. Não quero terminar, mas não quero viver nesse campo de guerra emocional. Eu tô cansado, Georg.

— Eu entendo. Mas se for conversar, conversa com calma. S/N é brava, intensa... mas ama você mais do que qualquer coisa. Só tem medo. O problema é que esse medo tá virando prisão.

Tom ouviu em silêncio. E pela primeira vez... pensou realmente em partir. Não por querer, mas por não saber mais como consertar.

Minutos depois, vi Tom me esperando na entrada do hotel. Nossos olhares se cruzaram. Subimos para o quarto... sem dizer uma única palavra.

A conversa que viria... poderia mudar tudo.

🎸 Entre Acordes e Destino- Tom kaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora