057

1.4K 67 17
                                        

A porta do meu quarto fechou atrás de mim, mas minha mente continuava lá embaixo, sentada ao lado do meu filho, com olhos verdes e um sorriso afiado como faca.

Jade.

O nome dançava na minha mente como um aviso silencioso. Aquilo não era só "um trabalho de escola". Eu podia sentir. Era algo no jeito que ela me olhava... como quem já se vê parte da família, antes mesmo de ser convidada a entrar.

Abaixei a cabeça, alisei minha barriga instintivamente. A gravidez estava no começo, mas meu instinto materno já estava à flor da pele. E, nesse momento, ele estava em alerta.

Tomei um copo de água, respirei fundo... e ouvi a porta da frente se abrindo.

Tom.

— Amor? — chamou com a voz levemente rouca.

Saí do quarto e o vi tirando os tênis no hall de entrada. Ele usava uma camisa escura e o boné virado pra trás. Quando seus olhos encontraram os meus, um sorriso cansado se formou no canto da boca.

— Como estão as coisas aqui?

Desci devagar os degraus e parei em frente a ele, colocando as mãos na cintura.

— Depende... você tá pronto pra ouvir?

— O que aconteceu?

— Tem uma garota na sala... linda, ruiva, com perfume doce e roupa justa. Disse que é "amiga" do Beck. O nome dela é Jade.

Tom franziu o cenho na hora.

— Jade? Nunca ouvi Beck falar dela.

— Pois é. Mas ela já conhece tudo por aqui. Se ajeitou no sofá como se já fosse da casa... e ainda me desejou parabéns pela gravidez. Disse que viu na internet.

Tom passou a mão pela barba rala, pensativo.

— Estranho.

— Mais do que estranho. Tom, ela me olhou como se já estivesse me substituindo. Como se estivesse se apresentando... como futura nora. E sinceramente? Aquela garota não tem idade pra pensar em dever de casa. Tem algo errado.

Tom me olhou com mais atenção, e dessa vez seu semblante mudou. Aquele olhar protetor, que ele sempre tinha quando algo mexia com a família, acendeu no mesmo instante.

— Vou conversar com o Beck.

— Vai devagar, tá? Não quero que ele ache que é ciúme ou exagero meu. Mas fica de olho.

Tom assentiu. Me deu um beijo calmo na testa e seguiu até a sala.

Desci alguns degraus e fiquei na escada, observando discretamente. Jade continuava sentada, agora mexendo no celular, e Beck explicava algo do projeto com animação — claramente sem perceber a tensão no ar.

— Boa noite, pessoal. — disse Tom, entrando com um sorriso contido.

Jade se levantou rápido, ajeitando o vestido.

— Boa noite, Sr. Kaulitz.

Tom estendeu a mão com educação, mas o olhar dele era mais firme do que acolhedor.

— Me chamem de Tom. Mas me diga, Jade... que matéria vocês estão trabalhando?

Ela hesitou por um segundo. Pequeno. Mas eu percebi.

— Literatura. Análise de personagens.

— Interessante. Quem tá no foco do estudo?

— Hamlet... — respondeu, mais segura.

Tom sorriu de leve.

— Um clássico. E como isso virou visita de final de semana?

— A mãe do Beck não estava em casa, então ele disse que podíamos usar a sala...

Mentira. Eu estava sim. Ela sabia.

Tom percebeu. Seu maxilar travou sutilmente.

— Curioso. Porque a mãe do Beck chegou em casa e achou curioso também.

Jade ficou sem palavras por um instante, mas disfarçou com um sorriso doce.

— Ah, me desculpa. Achei que ela ainda estivesse no andar de cima...

— Ela estava. Mas ela tem ouvidos. — disse ele, cortando o jogo dela com elegância.

Beck, finalmente percebendo a tensão, olhou de um para o outro, confuso.

— Pai, tá tudo bem?

Tom olhou para o filho com um sorriso tranquilo, mas firme.

— Tudo certo, filho. Só achei melhor a gente dar uma pausa no estudo hoje. Tá ficando tarde, e amanhã tem aula cedo.

Jade entendeu a mensagem. Pegou a bolsa e o celular com calma, mas os olhos vieram direto pra mim, que agora estava parada na escada.

— Foi um prazer, dona Kaulitz. Espero que a gente se veja mais vezes.

— Isso depende do Beck... e de você — respondi, com o tom educado, mas cheio de camadas.

Ela apenas sorriu, fingindo não entender. Mas entendeu. E muito bem.

Assim que a porta se fechou atrás dela, Beck olhou para nós dois.

— Vocês tão me assustando. O que foi isso?

Tom se aproximou do filho e colocou a mão em seu ombro.

— Filho... só toma cuidado, tá? Nem todo mundo que sorri pra gente tem boas intenções.

Beck ficou em silêncio por um momento. Depois olhou para mim, e então para Tom.

— Vocês acham que ela...?

— Não sabemos ainda. Mas o instinto de mãe nunca erra. — disse, olhando firme pra ele. — E o do pai também não.

Beck assentiu, pensativo. Subiu para o quarto calado. Tom fechou a porta com a chave, deu duas voltas, e quando voltou para mim, apenas disse:

— Tem algo nessa garota... que eu não gostei. E vamos descobrir o que é.

Continua...

🎸 Entre Acordes e Destino- Tom kaulitzHistórias para pegar e não largar. Descubra agora