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O som abafado do papelão da sacola de hambúrgueres contra meu peito se misturava com o leve tilintar das garrafas de refrigerante. Eu sorri ao entregador, agradecendo com um "boa noite" gentil antes de puxar a porta lentamente para fechá-la.

Mas antes que ela se encostasse por completo, uma mão pálida e fina surgiu entre a fresta, firme, determinada. Eu recuei num instinto de alerta — meu corpo inteiro congelou.

— Oi, S/N... — disse uma voz conhecida, arrastada, com um sorriso melancólico estampado no rosto.
Meu coração deu um salto. Um frio percorreu minha espinha como se um balde de gelo tivesse sido despejado sobre minha alma.

— ...Ria?

Ela mesma. Os cabelos escuros e lisos estavam amarrados num coque elegante, batom vermelho sangue impecável, e os olhos... os olhos ainda brilhavam com aquele mesmo olhar cínico e calculista de quando a vi pela última vez — nas redes sociais, agarrada a Tom, meses atrás.

— Posso entrar? — ela perguntou, como se fosse uma velha amiga prestes a tomar um café.
Mas algo naquela calma era cruel. Ensaiada. Fria.

— O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu firme, mesmo com o tremor que tomou conta dos meus dedos. Eu ainda segurava a sacola da comida com força demais. — Como descobriu onde estou?

— Você esquece, meu bem... você virou uma estrela. E eu sempre soube rastrear brilho. — Ela riu, encostando o ombro na porta, como se tivesse todo o tempo do mundo. — Você nem percebeu que a festa era minha, não é? A tal "amiga" da dona da casa? É. Aquela "amiga" sou eu. A casa é da minha prima. Inteligente da minha parte, não?

Eu pisquei, tentando processar. Então tudo tinha sido planejado. A volta. O encontro. A aproximação de Tom.

— Qual o seu problema, Ria? Você não cansa? — rosnei, com a mandíbula trincada.
Ela ignorou.

— Vim aqui te dar um recado. — O sorriso murchou. O tom mudou. — Tom pode até estar cego agora. Pode até achar que te ama. Mas você é só uma distração. Um troféu da mídia. Uma música nova pra ele tocar até cansar.

Foi nesse instante que escutei passos atrás de mim. Um cheiro conhecido. Um calor contra minha nuca. E então braços envolveram minha cintura com firmeza. Tom.

— Você ainda tá fazendo isso, Ria? — a voz dele saiu rouca, carregada. Quase em tom de ameaça. — Depois de tudo?

Ela olhou para ele como quem saboreia a própria desgraça.

— Você sempre gostou do caos, Tom. Eu só sou o lembrete do que você perdeu. — Ela me encarou. — E do que ainda pode perder.

Tom me puxou mais contra ele, e naquele instante eu vi algo mudar no olhar dele. Ele não estava só bravo. Ele estava disposto a proteger. A lutar.

— Você não vai mais encostar nela. Nem entrar aqui. Nem aparecer onde ela estiver. Isso é um aviso, Ria. Da próxima vez, quem vai te dar um recado não vai ser com palavras. — Ele disse, gelado.

Ela riu. Ria simplesmente riu. Aquela risada vazia e sem alma.

— A gente se vê, casalzinho perfeito. — Ela recuou, sem tirar os olhos de mim. — Aproveita enquanto dura.

Ela virou as costas e sumiu pelo corredor como se tivesse acabado de deixar um veneno espalhado no ar.

Tom fechou a porta com força, trancando-a imediatamente. Eu ainda estava imóvel, o coração martelando contra o peito, o estômago embrulhado.

— Ei... — ele tocou meu rosto com delicadeza. — Tá tudo bem. Eu tô aqui. Ela não vai te machucar.

— Eu tô cansada, Tom. Cansada de não poder respirar em paz... — sussurrei, a voz embargada. — Primeiro meu pai, depois a Mayla, agora ela...

Ele me abraçou apertado, suas mãos acariciando minha nuca como se dissesse "não solta".

— Eu vou te proteger de todos, S/N. — ele disse entre os dentes. — Você é minha. E eu sou seu. Só seu. Não importa quem tente, quem apareça, quem invada... ninguém vai tirar você de mim de novo.

Nos encaramos por alguns segundos. A respiração dele batia quente contra minha pele. E naquele momento, mesmo com o mundo desabando do lado de fora, eu me senti segura.

— Tom... — murmurei, tocando os lábios dele. — Me prova.

O olhar dele incendiou. Tom me ergueu no colo, sem dizer mais nada, e me levou direto para o quarto. A noite estava só começando — e ninguém, absolutamente ninguém, ia nos parar agora.

🎸 Entre Acordes e Destino- Tom kaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora